domingo, 14 de dezembro de 2008

"Filho afunda a mulher", diz psicanalista

Que dezembro é um mês que nos lembra família, fraternidade, já sabemos. É o período do nascimento de Jesus, com toda a beleza do conto bíblico de Maria e José na manjedoura. Além desta data, temos tradicionalmente para o Candomblé o importante 8 de dezembro. Nossos antepassados utilizaram as festividades para Nossa Senhora da Conceição para realizar também suas reverências às deusas-mães Oxum (na maior parte do Brasil) e Iemanjá (em Pernambuco).


E ainda no embalo desse clima de maternidade, encontrei este texto publicado originalmente no Terra, mas transcrito do site do Fórum de Promotoras Legais Populares do Distrito Federal, "um espaço de articulação e troca de experiência na defesa dos direitos das mulheres nas comunidades do Distrito Federal". http://www.forumplp.org.br/


"Filho afunda a mulher", diz psicanalista
Sex, 24 de Outubro de 2008


Você nem ao menos disse o tão esperado "sim" no altar ou diante de uma proposta informal para juntarem os "trapinhos" e a família já começa a perguntar sobre os filhos. A insistência desagrada a muitos casais e pode criar até uma "saia-justa" (afinal, e se a gravidez só não ocorreu ainda por problemas de infertilidade?). Pior do que essa pressão, porém, é a reação de boa parte da sociedade quando uma mulher decide que, simplesmente, não quer ser mãe.
Prova disso foram as respostas de amor e ódio ao lançamento do livro Sem Filhos - Quarenta razões para não ter no Brasil. (Saiba mais no link acima). Nele, Corinne Maier, psicanalista e economista, lista vários motivos polêmicos para não ter crianças em casa. Para Corine, filhos "custam caro, poluem e, sobretudo, afundam a existência das pessoas".
A autora de 43 anos que abomina a maternidade é mãe de dois adolescentes e não tem qualquer pudor de culpar uma criança por roubar os momentos de lazer dos pais, dominar a vida do casal, afastar os amigos adultos de casa e, claro, quebrar todo o clima na hora do sexo.
Opinião semelhante é compartilhada por Alice Freitas. Casada há dois anos, a publicitária de 35 anos diz que jamais renunciaria aos seus prazeres para cuidar de um filho. "Se tivesse que desmarcar uma viagem ou mudar meus planos por causa de uma criança, faria tudo com má vontade. Então, para não culpar alguém pela minha infelicidade, prefiro continuar com a independência que tenho", esclarece.
Para Aline, outro ponto que a fez desistir do projeto de ser mãe é a questão financeira. "A minha renda familiar não permite. Teríamos que fazer muitos sacrifícios para sustentar uma criança. Por isso, mesmo que houvesse uma lei obrigando um casal a ter filhos, provavelmente eu e meu marido seríamos 'foras-da-lei'", afirma.
Por outro lado, há histórias menos radicais. Em comunidades na Internet, que defendem a idéia de não ter filhos, por exemplo, foi possível encontrar quem mudou de posição. Bia*, de 33 anos, atualmente espera o nascimento de uma menina para dezembro. "Nem lembrava que ainda estava nessa comunidade", disse a empresária, que prefere preservar sua identidade.
Casada há cinco anos, Bia conta que ter filhos não estava nos planos do casal até o ano passado. "Optamos por viajar, estudar e crescer na profissão. Mas, depois de um certo tempo, percebemos que faltava algo e começamos a avaliar tudo o que antes achávamos um obstáculo para engravidar. Se fôssemos pensar só nos gastos, jamais seria mãe. A nossa decisão foi muito mais emocional que financeira. E acho que está valendo a pena", garantiu a futura mamãe.
Razões dos especialistas para negar a maternidadeDificuldades financeiras e não ter ao lado um homem que considere o ideal para ser pai estão entre os principais motivos para adiar a gravidez, pelo menos por um tempo. Nesses casos, a psicoterapeuta Sueli Molitérno, especialista em terapia de regressão de memória, propõe uma avaliação do inconsciente. "Quase sempre há um medo por trás, baseado no seu histórico de vida. O "não a gravidez" pode ser dado por medo da deformação física, medo de não ser uma boa mãe, medo de ser abandonada pelo companheiro, medo de que o filho passe por um sofrimento que ela já passou", explica.
Portanto, para Sueli, antes de tomar a decisão de não ter filhos é preciso se "conhecer melhor". "Se houve um trauma, um bloqueio, o desejo de ser mãe pode despertar de um dia para o outro. O problema é que, às vezes, poderá ser tarde demais para engravidar", conclui Suely.
Feridas emocionais à parte, para a psicóloga Sueli Castillo, a decisão de não ter filhos deve-se à liberdade de escolha conquistada pelo sexo feminino. "Os métodos contraceptivos deram à mulher a oportunidade de escolher quando e se realmente quer ser mãe. Ela se libertou da "culpa" de se sentir diferente e, assim, assumiu mais a sua autenticidade", acredita.
Infelizmente, as especialistas admitem que há um preço a se pagar quando a escolha (seja em relação à maternidade ou qualquer outro assunto)foge aos padrões considerados normais.
A decisão de passar a vida inteira sem experimentar a sensação de ficar grávida gera preconceito e discussões acaloradas, como tudo que altera a ordem social estabelecida. De quebra, muitas vezes envolve até pensamentos machistas. "Uma mulher sem filhos está associada ao perigo. Já uma mulher "sozinha" que não deseja ser mãe é vista também como fria", explica Sueli Castillo.
Segundo a psicóloga, porém, as decisões não podem nunca ser baseadas nesses julgamentos. "Se todos resolvessem seguir os padrões impostos, a família seria indissolúvel, sem separações ou divórcios, não haveria união sem "casamento oficial", muito menos casamentos entre pessoas do mesmo sexo", lembra.
A enfermeira Fernanda da Silva, de 40 anos, concorda. Essas atitudes e olhares de reprovação - muitas vezes sutis - nunca a assustaram. Recém-separada, após um casamento de 17 anos, ela conta que nunca pensou em ter um filho, mesmo contrariando os desejos dos parentes, principalmente dos pais e sogros.
"Minha rotina é muito complicada, e meu marido sempre me apoiou nessa decisão. Aproveitamos muito a vida a dois. Hoje, estou solteira novamente e vejo de forma ainda mais clara que uma criança só teria atrapalhado meu crescimento pessoal. Não teria, por exemplo, a liberdade para sair com os amigos e voltar para casa na hora em que achar melhor ou então, se for o caso, nem voltar", comenta bem-humorada.
Quando perguntada se falta algo em sua vida, Fernanda é categórica: "talvez um outro homem, mas filho jamais".

* nome fictício dado a pedido da entrevistada.


Serviço:
Sueli Castillo - psicóloga suelicastillo@terra.com.br
Suely Molitérno - psicoterapeuta transpessoal www.suelymoliterno.com.br



Sem Filhos - Quarenta razões para não ter
Autora: Corinne Maier
Editora Intrínseca
Redação Terra

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O terreiro e a comunidade

Sempre entendemos os terreiros de Candomblé como centros sociais dentro das comunidades, apesar de raramente desempenharem esses papéis. Os terreiros são referência para as pessoas, locais de convívio e formação de opinião. No entanto essa liderança só é lembrada até hoje em período eleitoral. Isso tem criado uma relação terrível entre os dirigentes dos terreiros e os políticos que só vem prejudicando e reduzindo a força que o segmento tem a mero mercado de votos, comprado ao preço de alguns sacos de cimento, um aluguel de ônibus para entrega de presentes na praia ou no rio ou até por ditos "alvará de funcionamento" sem nenhum valor jurídico, dado por confederações de terreiros inexistentes, mas que são entendidos como o maior (e talvez o único) reconhecimento "oficial" da existência do seu templo religioso.

Há alguns anos, especialmente durante as últimas gestões municipais, temos visto isto mudar de figura no Recife e em Olinda. O tombamento em 20
07 da Casa Xambá e o decreto da sua existência como quilombo urbano, respaldam as reivindicações da comunidade. No entanto, as medidas anunciadas nos jornais da época que beneficiariam 3 mil pessoas, com área construída de 120 metros quadrados dedicados à atendimento da população com creche, núcleo de saúde, auditório, biblioteca, laboratório de informática, e áreas para oficinas com fabricação de velas, instrumentos musicais, aulas de capoeira e música, ainda se arrasta.

Anterior é o tombamento do Sítio de Pai Adão, um dos mais tradicionais de Pernambuco, é de 1996, pelo Patrimônio Histórico do Estado, mas recebeu atenção especial nos últimos meses. Em Junho deste ano, foi requalificado, recebendo investimentos de R$ 60 mil. Foram realizadas a recuperação do telhado, pintura e serviços de jardinagem, paisagismo, calçamento interno, sinalização dos espaços, além da restauração da Capela Centenária de Santa Inês. Regularmente o espaço abriga eventos culturais, como lançamentos de livros e grupos musicais, exposições, apresentações variadas. Também é sede do grupo de afoxé do terreiro.

A Caminhada do Povo de Terreiro do Recife é um esforço
no sentido de resgatar a união entre as casas e criar orgulho na identidade candomblecista. Atividades também são desenvolvidas pela prefeitura do Recife com palestras e orientações variadas sobre assuntos relacionados ao povo do santo, inclusive com a distribuição de cestas básicas para os centros cadastrados repassarem em suas comunidades ou direcionarem seu uso ao dia-a-dia religioso da casa.

O que esperamos é que ações positivas vão se acumulando, quebrando preconceitos e construindo aos poucos o orgulho de ser candomblecista. Que coloquem o Candomblé no lugar onde sempre esteve e nunca assumiu. Que esses projetos cresçam e dêem resultados, porque o nossa religião tem muito mais a oferecer à sociedade.

"Juventude de Terreiros" construindo o "Território de Paz"

O presidente Lula veio ao Recife inaugurar obras do Governo Federal e do estado e municípios em parceria com ele, além de lançar novos projetos. Um dos anúncios foi o Território de Paz, que promete transformar o bairro de Santo Amaro, Recife, conhecido como uma das áreas mais perigosas do Brasil "em uma das áreas mais seguras do país", como afirmou o ministro da justiça Tarso Genro durante o discurso hoje no anúncio das propostas, no Campo do Onze, dentro da comunidade.

O Território de Paz é um projeto do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), com a implementação de 29 ações simultâneas para enfrentar a insegurança na região. Uma delas é de chamar nossa atenção, a Juventude de Terreiros.


"Coordenada pela Secretaria de Direitos Humanos e Segurança
Cidadã, por intermédio da Diretoria da Igualdade Racial, esta ação visa à elevação da autoestima, a descoberta de talentos e o reconhecimento do potencial humano da juventude negra oriunda de diversos terreiros do Recife. Através do programa, 90 jovens serão selecionados para participar de oficinas de confecção de vestuário, de objetos em cerâmica e de instrumentos musicais, promovendo a geração de oportunidades de emprego e melhoria na qualidade de vida das famílias destes jovens. Ao final da capacitação, será realizada uma feira solidária com o resultado da produção das oficinas e um seminário de socialização, com a participação de todas as comunidades dos templos de matriz africana envolvidas no projeto;
Recursos liberados: R$205.555,00"
Fonte: Assessocia de Comunicação da Prefeitura do Recife.


sábado, 29 de novembro de 2008

Entrevista com Mãe Stella de Oxóssi

"No Candomblé é a gente que se supera, não tem que superar o outro"
Trechos retirados do blog Soteropolitanos Cultura Afro, onde poderão ler a entrevista na íntegra.

Numa manhã de quarta-feira, entre uma consulta e outra, Mãe Stella de Oxóssi nos recebeu na casa de Xangô e falou sobre o sacerdócio, a história do candomblé baiano e do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. A conversa não pôde ser longa, porque, como sempre, uma fila de pessoas aguardava por seus conselhos. Ao seu lado, o inseparável pastor alemão. Iniciada na religião dos orixás há mais de 60 anos, Maria Stella Azevedo dos Santos é mesmo uma mulher singular. Assim como fizeram suas predecessoras no Afonjá, Mãe Stella mantém a tradição religiosa herdada da África com uma seriedade que faz desse terreiro um referencial para todo o candomblé. Uma tarefa que, garante ela, a absorve integralmente. A autora de livros, enfermeira e funcionária pública aposentada tem que dividir o seu tempo entre as atividades religiosas, as consultas e as solicitações de entrevistas, palestras e conferências em vários países. Com voz branda e uma fluência verbal invejável, ela revela a clareza e inteligência que a tornaram uma líder religiosa respeitada em todo o mundo. Mas, para as crianças do Afonjá, ela é apenas a “Tia Stella”.

por Agnes Mariano

Agnes Mariano - A senhora foi iniciada muito cedo, com 13 anos. A senhora imaginava que ocuparia um cargo como esse, tão importante? E como a senhora experimentou isso na sua vida?

Mãe Stella de Oxóssi - As pessoas que entram para a crença dos orixás com fé, com consciência do que estão fazendo, elas têm o gosto, a vontade de servir o orixá, de fazer tudo em prol. Eu creio que raríssimas pessoas entram para o candomblé já com a pretensão de ser mãe-de-santo. Quem tem juízo não pensa assim. Porque aí não é uma coisa espiritual, passa a ser uma coisa de superação. No candomblé, é a gente que se supera, não tem que superar o outro, tem que superar a si próprio. Não tem que tentar superar o outro com essa questão de valores materiais, não tem nada disso. E eu nunca tive essa pretensão. A minha alegria era servir ao orixá e à minha mãe-de-santo, fazer as coisas dentro dos parâmetros certos. Mas, por isso ou aquilo, o orixá, por intermédio do Oluô, me escolheu como líder daqui. A substituição aqui é feita através do jogo de búzios. Como na Casa Branca, que também é através do jogo de búzios. Do Gantois, eu não posso dizer muito, porque sabe-se que é uma substituição familiar. Cada casa tem um uso.

AM - E sobre a casa, o terreiro, como a senhora define? Porque antropólogos, escritores, visitantes falam muitas coisas. É uma casa religiosa? Tem semelhanças com uma escola, uma universidade, uma casa terapêutica, onde as pessoas buscam cura? Como a senhora define o terreiro? É uma família?
MS - A princípio, todo terreiro é uma família, porque é a família espiritual. Nosso chefe, nosso patrono aqui é Xangô. Então, tudo aqui é feito com as bênçãos, as determinações de Xangô. Ele não vem e fala, mas, através dos búzios, de certas práticas, nós podemos contar com ele. Então tudo o que aqui é feito é por orientação espiritual de Xangô. E, como na vida, a comunidade axé é uma escola. Aqui a gente aprende o lado espiritual - e o espiritual apenas por si só é importante -, mas não é a única coisa que existe na sociedade, por isso temos o lado social. Temos o espiritual e o social. Então esse espaço que nós ocupamos é como se fosse uma pequena cidade. Uma cidade que já vem do tempo de Mãe Aninha, quando ela caracterizou aqui como a África, botando uma casa para cada orixá. Enquanto lá, cada orixá tem a sua tribo, a sua cidade, ela deu um espaço para cada um, onde eles têm seus rituais, em dias diferentes, separados, cada um seguindo os seus preceitos. E também a resistência maior da raça negra foi na religião, na crença dos orixás. Se não fosse assim, a mulher da crença nos orixás não teria essa auto-estima. O pessoal de candomblé tem auto-estima, o pessoal de candomblé se gosta, gosta de si próprio e, até por osmose, gosta do irmão, porque os que entram aqui estão todos sobre orientação de Xangô ou de Oxalá. São todos irmãos e a coisa mais normal do mundo é que um irmão goste do outro, com raras exceções, mas é normal na vida.

AM- Fale mais sobre essa resistência através da religião.
MS - Isso vem do tempo de Mãe Aninha, a fundadora, que naquela época de repressão procurou apoio até com o presidente da República e se integrou na Igreja Católica. Naquele tempo, ser da Igreja Católica era ter status, porque quem mandava era o branco e essa era a religião do branco. Daí foram fundadas as irmandades, como a do Rosário dos Homens Pretos, a Irmandade da Barroquinha e outras mais, onde a mulher negra podia fazer os seus cultos. Era proibido adorar os orixás. Quem era espiritualizado precisava encontrar qualquer coisa espiritual para se apegar e foi por isso que surgiu o sincretismo, quando se faziam as coisas meio mascaradas. Se adorava o orixá de uma forma velada, como se estivesse cantando para os santos. E o negócio foi tão seguro que, atualmente, nós já estamos livres, mas temos tido muito trabalho para o povo de orixá se conscientizar da importância do orixá, da força e da energia. O orixá é uma coisa independente de qualquer outra crença, como qualquer outra crença é independente do candomblé. Então, o bom e o bonito é que cada um se fixe na sua crença, nos seus símbolos, na sua energia e não precise se segurar no outro para mostrar potencialidade.

AM- A senhora tinha falado que, além da parte espiritual, existe a parte social do terreiro.
MS - Pois é. Aqui, além de cuidar da parte do orixá - que são as festas que você conhece, independente dos rituais internos que só cabem a nós -, a gente tem a parte social. Fundamos uma escola, num convênio com a prefeitura, que tem 300 crianças. As professoras fazem um serviço muito bom e que a prefeitura reconheceu, tanto que ela já passou a ser escola referência. É uma escola da rede pública e atendemos à lei que diz que a liberdade de culto deve existir. Ali não se ensina candomblé nem iniciações, mas muita coisa relacionada com a cultura africana iorubá. Nós não somos africanos, somos brasileiros, afro-brasileiros. É fanatismo dizer que somos africanos. Somos afro-brasileiros, descendentes de africanos. Então, alguma coisa da cultura africana é passada no colégio, mas nós não aceitamos apenas alunos e pessoas ligadas aos orixás. É um espaço aberto. Temos professores e alunos de outras religiões. Eles não estão aprendendo religião, porque religião não se impõe. Escola para religião é bobagem. O professor e o diretor do colégio têm que enfatizar a cultura deles, mas não se força religião. Fizeram isso com os negros, com os índios, mas isso é contra a humanidade.

AM - E vocês têm também o museu, a biblioteca, oficinas…
MS - É, estou falando da escola só para você entender como funciona. A diretora Marivalva está ali há 20 e alguns anos, desde quando funcionava nesse mesmo lugar uma creche, num convênio com outro órgão. Como este órgão foi responsável pela construção, compramos o prédio, mesmo sendo aqui dentro do terreiro, para poder ser nosso. Como a escola foi uma experiência boa - está sendo boa e será melhor, com fé em Deus - resolvemos fazer o museu, em 1983. Vera Felicidade foi a pessoa responsável, uma filha-de-santo nossa. Eu estava recentemente aqui no axé e fiz uma viagem à África, onde vi aquelas coisas todas. Aqui também eu via tantas coisas bonitas jogadas aí pelos cantos. Até que, conversando com Vera, ela tomou para a si a responsabilidade e criou o Museu Ohun Lailai. Temos uma biblioteca também, onde a responsável é Luzia Leal, uma bibliotecária aposentada. Todos aqui são voluntários. Luzia instalou a biblioteca, deu nome e está tomando conta. Nós recebemos doações: eu tinha a minha biblioteca particular, que doei toda, e muitas pessoas também têm doado muitos livros e ainda queremos mais. Temos também um grupo de estudos. Os responsáveis são Cléo Martins e Roberval Marinho. Principalmente esses dois estão à frente, que são os nossos filhos-de-santo pensadores. Ana Rúbia é nossa auxiliar, porque ela faz tudo aqui. Temos também um projeto com o Comunidade Solidária e o Unicef. A responsável é Tereza, outra filha-de-santo, que está fazendo várias oficinas para dar ocupação a essas crianças. Estamos todos preocupados com isso. Também fazemos aqui em casa seminários entre nós mesmos, de vez em quando, para bater papo. É daí que surgem coisas como o Festival Alaiandê Xirê, uma criação de Cléo e Roberval. Este foi o terceiro ano do Alaindê e está dando certo, fazendo sucesso, está repercutindo lá fora. Nós juntamos o lúdico com o espiritual e deu certo, tem tido muita aceitação das pessoas.

AM- Diariamente vêm pessoas aqui?
MS - Quase que diariamente. O meu dia de atender era quarta-feira, mas é tanta gente que vem… Fico com pena de ver as pessoas chegarem e voltar chorando. Eu aí atendo e isso até impede a minha vida social. Eu quase não faço mais nada a não ser trabalhar aqui dentro. Virei uma escrava. Mas a compensação é que a gente tem a sensação do dever cumprido, vê que conseguiu ajudar algumas pessoas. A gente não se julga onipotente, mas damos graças ao orixá por conseguir ajudar. Quando nada, o bem-estar. Muita gente vem aqui para nada também, porque gosta do espaço. Vem, senta-se aí, passa a tarde sentado nesse espaço e vai tranqüilo. Não toma um banho, não faz nada, só vem pelo axé. Deve ser o astral que é bom, não é? (Risos). Pronto, iaiá.

(06 de janeiro de 2001)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Morte e vida, Dona Severina

Lembro de ter comido bredo apenas na casa da minha avó. Bredo de côco é tradicionalíssimo na mesa da Semana Santa pernambucana. Apesar de um costume religioso europeu, a quaresma no Brasil, sendo a carne vermelha proibida nesse período, acabou juntando ao famoso bacalhau (peixe hoje caríssimo mas antes nem tanto, que pelo processo de salga, era possível conservar e chegar em boas condições aos consumidores fora do litoral) ingredientes como a abóbora e o bredo, também conhecido como língua-de-vaca, major gomes, maria gorda, ora pro nobis e até caruru. Abóbora e caruru, guardemos como tema para outras postagens.

Pois Dona Severina preparava bredo, que nunca mais comi. Minha avó faleceu há alguns anos e sabem como é comidinha da casa da vó: não existe igual. Também não arrisquei desmentir minha teoria. Lendo uma matéria da Revista Continente Online, encontrei um texto chamado "À mesa com Jorge Amado" onde se fala do efó. Essa comida típica da Bahia, que pouca gente aqui em Pernambuco já teve o prazer de experimentar. Ouvi falar sobre ela há um bom tempo, mas não tive
ainda a sorte de ser apresentado pessoalmente. Com uma ajudinha da tecnologia, fui descobrindo outros detalhes do bredo que resolvi compartilhar com vocês.

Essa erva é originária de toda a américa. Na medicina natural, dizem que as folhas, utilizadas como cataplasma, amolecem calos, ajudam a fazer regredir inflamações e na cicatrização de feridas. Teria sido uma das primeiras ervas a serem incorporadas às cozinhas brasileiras pós-colonização. Rica em ferro e cálcio, vitaminas A e B, É uma erva atribuída a vários Orixás, como Oxum, Nanã e Iemanjá. Cresce à sombra, em locais úmidos, com solos ricos em matéria orgânica.

Suas flores lilases ou rosa forte, são delicadas e fazem a planta poder ser também bastante ornamental. Inclusive, se atribui ao bredo uma simbologia de imortalidade, com fontes "internéticas" não tão confiáveis afirmando que eram plantadas em túmulos de escravos com este sentido. Provável, já que seu cultivo é fácil e flora bastante, fazendo canteiros bonitos.

E o efó, prato que se oferece principalmete a Nanã, considerada a avó, a grande matriarca no panteão afrobrasileiro, reflete um pouco desse imaginário sobre o bredo, especialmente dessa sua referência à imortalidade. Nanã é a dona do barro do qual fomos moldados e ao qual retornaremos. É a terra que nos cobrirá, quando voltaremos a ser carne do planeta. Assim ela representa a imortalidade presente no ciclo da vida. Se para os católicos o bredo é essencial para o momento da morte e ressurreição do seu mestre, no Candomblé ela agrada à deusa que representa a nossa ressurreição.

Morte e vida,
Dona Severina. Para Nanã e todas as avós, a imortalidade.










Receita de EFÓ


Ingredientes:
1 1/2 xícaras de amendoim torrado
1 xícara de castanha de caju torrada
3 1/2 xícaras de camarões secos, descascados
2 cebolas grandes, cortadas em quartos
3 dentes de alho
2 colheres (sopa) de coentro picado
5 xícaras de folhas de bredo limpas, lavadas, picadas, previamente aferventadas para tirar o visgo e escorridas.
1 xícara de água
1 xícara de leite de coco
4 colheres (sopa) de azeite de oliva
1 1/2 xícaras de azeite-de-dendê
Sal e pimenta malagueta a gosto.

Modo de preparo:
No copo do liquidificador, coloque amendoim, castanhas, camarões, dentes de alho, coentro, bata até triturar bem e reserve.
Em uma panela, coloque o espinafre aferventado, água, leve ao fogo alto, deixe ferver, junte os ingredientes reservados, leite de coco, os azeites, misture bem e cozinhe, mexendo de vez em quando, por cerca de meia hora ou até obter uma mistura ligeiramente seca.
Verifique o tempero, tire do fogo, coloque em um prato de servir e leve quente à mesa, acompanhado de arroz branco.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os céus não dão trégua aos homens


Uma grande tragédia está acontecendo no estado de Santa Catarina, sul do Brasil. Tempestades causaram 83 mortes até o momento desta postagem, cidades isoladas e muitos desabrigados por causa das inundações e desabamentos.

Em momentos de catá
strofes "naturais" paramos e pensamos no papel das divindades regentes da natureza e sua atuação sobre a humanidade. Seria vingança dos Orixás, revolta contra as agressões sofridas, demonstração de força ou seria fruto de um desequilíbrio nas relações interpessoais humanas mesmo e os deuses nada têm com isso?

José Saramago, escritor português, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, tem sua opinião publicada na postagem de ontem (24/11) no seu blog pessoal, O Caderno de Saramago (http://caderno.josesaramago.org).



Dua
s notícias
Novembro 24, 2008 by José Saramago

"No Brasil, entre entrevista e entrevista, fico a conhecer duas notícias: uma, a má, a terrível, que o temporal que de vez em quando desaba sobre São Paulo para deixar, minutos de fúria depois, um céu limpo e a sensação de que não se passou nada, no sul causou pelo menos 59 mortos e deixou milhares de pessoas sem casa, sem um tecto onde dormir hoje, sem um lar onde seguir vivendo. Notícias destas, apesar de tantas vezes lidas, não podem deixar-nos indiferentes. Pelo contrário, cada vez que nos chega a voz de um novo descalabro da natureza aumenta a dor e a impaciência. E também a pergunta a que ninguém quer responder, embora saibamos que tem resposta: até quando viveremos, ou viverão os mais pobres, à mercê da chuva, do vento, da seca, quando sabemos que todos esses fenómenos têm solução numa organização humana da existência? Até quando olharemos para outro lado, como se o ser humano não fosse importante? Estas 59 pessoas que morreram em Santa Catarina, neste Brasil onde estou agora, não tinham que ter morrido de esta morte. E isto, sabemo-lo todos. (...)"


E não é que Saramago tem razão? Somos os administradores do mundo no qual vivemos. Herdamos ele dos deuses e nossa é a responsabilidade. Em um universo mais próximo, os rios são canalizados, as margens urbanizadas, os solos impermeabilizados, as matas ciliares destruídas vêm a assorear os leitos, além do lixo que prejudica a vazão da água e o poder público que não dá solução para moradias irregulares. Mais distante, mas sem fugir ainda das nossas mãos estão os efeitos da ação humana sobre o clima do planeta como um todo, que vem provocando reflexos inesperados em diversos pontos.

Em alguns debates através da Internet encontrei uma resposta bastante sensata para a pergunta se Orixá mata. Orixá não mata, já que ele é parte de nós, mas a sua ausência sim. Orixá é eqüilíbrio e respeito entre os semelhantes. Mais que isso, eles nos ensinam que minerais, vegetais, animais, homens e deuses fazem parte de uma mesma Terra viva. Agressão a qualquer um desses aspectos é uma agressão a todos os outros e tem conseqüências vindas de todos os lados.

Os céus não dão trégua, nem a terra. No entanto, os únicos em guerra somos nós.


Árvores de plástico

"Seu regador verde de plástico é para sua imitação chinesa de planta feita de borracha plantada na terra artificial de plástico comprada a um homem de borracha em uma cidade cheia de planos de borracha, para se livrar de si mesma."

Para os que não conhecem ainda, Radiohead. Já a essência da letra da música Fake Plastic Trees é bem mais comum ao nosso dia-a-dia. Não preciso nem gostaria de apresentá-la. Como tenho certeza de certa intimidade entre ela e vocês, não vai ser difícil tocar em certos pontos bastante familiares à nossa vida religiosa.

O Candomblé é uma religião que preza pelo tradicionalismo. Reconstruimos tradições seculares, valorizamos nossa árvore genealógica e cultuamos antepassados em meio ao imediatismo do Século XXI. No entanto, cada vez ma
is nossa religião é atacada pelo vírus silencioso da modernidade, que desagrega os discursos e faz essa solidez histórica se desmanchar no ar.

O mariuô (as franjas das folhas do dendezeiro) marcam a passagem para o mundo sagrado. Ao cruzar as portas do terreiro, o relógio gira mais lentamente e o ritmo é o da natureza. Aprende-se o ritmo do sol, das plantas,
do fogo, do vento e da água. Esta última, por exemplo, só se deixa ser transportada no seu próprio tempo. Os passos acompanham seu balanço na lata, ou ela perde a paciência e reage. E é esse tempo que não temos mais.

O verde das casas de Candomblé vem cada vez menos das folhas, enquanto a sabedoria iorubá afirma que kosi ewe, kosi Orisa, ou seja, sem as folhas não existe Orixá. Compra-se tudo pronto, já que o tempo é precioso e nunca existe tempo hábil para nada. Com isso, o saber fazer (conhecimento tornado útil) é delegado ao comércio. Nesse mesmo caminho segue boa parte dos terreiros de Candomblé: se tornando dependente do mercantilismo e do dinheiro.

É como se o que importasse para os Orixás fossem os fins e não os meios. Somos seres inteligentes o suficiente para sabermos que não nos acrescenta a louça ou a pedra, mas a energia que depositamos ali. Portanto, como importaria mais a comida que
o alimento? Se a louça fica satisfeita com o material que é depositado nela, cheia e ornamentada, o Orixá fica satisfeito com o processo que culminou com aquele ato. A seleção dos ingredientes, o modo de preparo, o modo de servir, as orações e o pensamento em todas estas etapas. Principalmente, o valor do ebó está na intenção. Intenção é o direcionamento da energia, é o foco do axé, é o motivo pelo qual e para qual ele será movimentado. Na intenção nos revelamos. A riqueza do Orixá vestido no salão do terreiro em shows de alegoria em lantejoulas, cristais Swarovski e muita cola quente, não deveriam compensar dentro do que é a religião, os orôs, os rituais e os preceitos que não são públicos. Mas têm compensado.

O Orixá não é uma forma de nos livrarmos de nós mesmos e do que deveríamos ser. Assim, ebós e rituais não são um atalho para lugar nenhum, se não saímos do canto. Talvez sejam planos de borracha que fazemos, para nos inserirmos em um mundo sintético, através de visões distorcidas do que é bom e mau para nossa vida. Fontes de dinheiro, relações afetivas sonhadas, poder de atuar sobre a vontade dos outros, poder de atração... Nada disso é atribuição dos Orixás, já que fazem parte de um mundo idealizado, que muitas vezes nem no plano material existe, mas é real nas necessidades criadas pela sociedade.

Atribuindo aos deuses nosso papel, fugimos do nosso mundo real, para sermos homens de borracha, movidos por impulsos tão plásticos quanto o mundo ao nosso redor. Que os nossos Deuses também não se tornem de poliestireno ou de louça, barro, ferro ou pedra. Que não sejam mais inanimados que nós.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Oiá sopra a forja de Ogum e cria o vento e a tempestade


Oxaguiã estava em guerra, mas a guerra não acabava nunca, tão poucas eram as armas para guerrear.

Ogum fazia as armas, mas fazia lentamente. Oxaguiã pediu a seu amigo Ogum urgência, Mas o ferreiro já fazia o possível.

O ferro era muito demorado para se forjar e cada ferramenta nova tardava como o tempo. Tanto reclamou Osaguiã que Oyá, esposa do ferreiro, resolveu ajudar Ogum a apressar a fabricação.

Oyá se pôs a soprar o fogo da forja de Ogum e seu sopro avivava intensamente o fogo e o fogo aumentado de calor derretia o ferro mais rapidamente.

Logo Ogum pode fazer muitas armas e com as armas Oxaguiã venceu a guerra. Oxaguiã veio então agradecer Ogum . E na casa de Ogum enamorou-se de Oyá.

Um dia fugiram Oxaguiã e Oyá, deixando Ogum enfurecido e sua forja fria. Quando mais tarde Oxaguiã voltou à guerra e quando precisou de armas muito urgentemente, Oyá teve que voltar a avivar a forja. E lá da casa de Osaguiã, onde vivia, Oyá soprava em direção à forja de Ogum .

E seu sopro atravessava toda a terra que separava a cidade de Oxaguiã da de Ogum . E seu sopro cruzava os ares e arrastava consigo pó, folhas e tudo o mais pelo caminho, até chegar às chamas com furor atiçava.

E o povo se acostumou com o sopro de Oyá cruzando os ares e logo o chamou de vento. E quanto mais a guerra era terrível e mais urgia a fabricação das armas, mais forte soprava Oyá a forja de Ogum. Tão forte que às vezes destruía tudo no caminho, levando casas, arrancando árvores, arrasando cidades e aldeias. O povo reconhecia o sopro destrutivo de Oyá e o povo chamava a isso tempestade.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Encontro do Vodu com a Umbanda

Festival do Caribe faz intercâmbio entre as religiões afro-descendentes do Brasil e de Cuba
Michelle de Assumpção // Diario michelle.assumpcao@diariodepernambuco.com.br
Diário de Pernambuco / Caderno Viver / Publicado em 20/11/2008


Terreiro de Manuel Papai é
o único no Brasil que faz uso do Batá.
Foto: Alexandre Gondim/DP/D.A Press.


Tereza Martines Perez é uma reina del Jodú, ou seja, uma sacerdotisa do Vodu, prática que baseia sua devoção no sacrifício de animais e ingestão de bebidas preparadas com ervas sagradas. Ela é uma das líderes religiosas que, nesta semana, circulam pelo Recife e Olinda, integrando a comitiva cubana do Festival do Caribe, parceria do Centro de Cultura Luiz Freire / TV Viva com a Casa do Caribe, que anualmente realiza este festival em Santiago de Cuba.
A importância de sua religião na vida cotidiana dos compatriotas de Fidel pode ser comprovada por uma pesquisa do Departamento de Estudos Sociorreligiosos de Cuba, apontando que cerca de 85% dos mais de 11 milhões de moradores da ilha têm "algum tipo de sentimento religioso". Ainda que não exista uma cifra específica, presume-se que a maioria pratique formas de sincretismo religioso.

O fiel cubano é batizado na igreja católica, mas tem um orixá que "guia sua cabeça", ou um "espírito" que vem em seu socorro sempre que precisar. Assim como no Brasil, existem várias religiões afro-descendentes em Cuba. A Santeria seria como o candomblé brasileiro - com o culto a praticamente os mesmos orixás do panteão africano. O Vodu seria a nossa umbanda, mas com outras "entidades". Segundo Tereza, os toques e cânticos de ambas as práticas são diferentes, "mas o Ogum é o mesmo em todo lugar".

Ela afirma que o objetivo da versão cubana do Festival do Caribe é o mesma da filial pernambucana: promover o encontro de todas as religiões de matriz afro-descendente. "Nossa idéia é fazer intercâmbio do Vodu com a Umbanda. Queremos ver como é quando eles cantam e tocam o tambor; lá nós tocamos o bembê", compara. Correspondências que, em breve, estarão detalhadas no projeto Brasil Cuba, do babalorixá Manoel do Nascimento Costa, ou Manoel Papai, um dos mais importantes babalorixás pernambucanos e responsável pelo Centro Cultural Casa de Pai Adão, onde os cubanos dão esta semana uma oficina de Batá - o principal instrumento da Santeria, praticamente inexistente em cultos semelhantes no Brasil. A não ser, claro, na casa de Manoel Papai.

"Somos o único terreiro do Brasil que tem os batás. Surgiu na época da tia Inês, a africana, e permaneceu até hoje, não conheço ninguém que tenha. É tanto que, quando fomos a Salvador, em 1986, Pierre Verger nos viu tocar e chegou a passar mal de nos ver com o batá, pois ele tinha colocado numa pesquisa que no Brasil não era utilizado", conta Papai. Segundo ele, o encontro com os "ogãs" - como são chamados aqui os tocadores de um ritual de candomblé - cubanos servirá para que ambos os povos aprendam novos toques. Os ogãs do Sítio de Pai Adão só utilizam três tipos de batidas nos seus tambores e Manoel Papai diz que ouviu um muito especial dos cubanos, que quer aprender. "Os cânticos são bem diferentes. É mais um item forte para nossa pesquisa. O que queremos é saber como isso chegou a eles e como chegou aqui. Como foi a presença dos escravos em Cuba e qual o legado deles", elabora.

O babalorixá esteve ano passado em Cuba, durante o Festival del Caribe, e diz que conheceu uma associação de Oxum - um orixá do candomblé - com Nossa Senhora do Bronze, santa da qual nunca ouviu falar. Isso mostra que, pelo menos no quesito sincretismo religioso, Cuba é igual ao Brasil. Com uma diferença marcante: lá, igreja Católica e o Estado não mantêm boas relações, o que ajuda a ampliar não só o número de cultos afro-religiosos, mas também evangélicos e pentecostais. As religiões afro-cubanas são estimuladas pelo Estado como forma de conter a Igreja Católica, além de atrair turistas e divisas ao país. Não é à toa que terreiros da capital e das praias do balneário de Varadero entraram na grade de atrações do Ministério do Turismo. O Partido Comunista de Cuba (PCC), que até o início dos anos 1990, defendia o "ateísmo científico", alterou a constituição cubana e aboliu qualquer tipo de discriminação por motivos de crença. Cuba foi convertida de país ateu para laico. Como o Brasil. Para quem quiser acompanhar de perto este encontro, hoje, no Sítio de Pai Adão, pernambucanos, cariocas, baianos e cubanos de Santiago e Havana participam, a partir das 17h, do seminário masala Iemanjá nas Américas. "Queremos saber como esses lugares todos vêem essa santa que tornou-se tão popular no Brasil", diz Papai. Mais informações: 34439412.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sexo, deuses, Caetano e nós

Em 1999, Caetano Veloso participou de uma série de entrevistas à revista francesa L´Express falando sobre o Brasil, juntamente com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, o arquiteto Oscar Niemeyer e outras personalidades. Em um trecho em especial que transcrevi abaixo, se fala sobre religiosidade:

L´Express: O misticismo é muito baiano, não é?
Caetano Veloso: Sim.

LE: E você é místico?
CV: Gosto de dizer que sou ateu. Não gosto deste renascimento da religiosidade, que me parece ser uma coisa muito norte-americana. Mas o candomblé me interessa muito.

LE: É possível declarar-se ateu e amar o candomblé?
CV: Minha irmã, Maria Betânia, est
á muito ligada religiosamente ao candomblé e a Mãe Menininha do Gantois (uma pessoa muito importante do candomblé da Bahia), quando ainda era viva, lhe pediu para realizar certo número de rituais juntamente comigo. Só poderia dar certo se eu estivesse com ela. Então, fiz tudo o que minha irmã fez. Tinha um pouco de medo e, ao mesmo tempo, estava muito admirado, muito impressionado. Amo o misticismo da Bahia. É uma maneira de amar as coisas, de amar a vida. O candomblé é uma religião do futuro. Tem algo a dar à civilização brasileira, é uma nova maneira de olhar o politeísmo.

LE: Com deuses dos quais a pessoa se sente perto...
CV: Completamente, são personalidades familiares. Eles são ciumentos, eles são sexy.

LE: Deuses sexy?
CV: Sim. É uma coisa bem brasileira! Mas, vamos parar de falar de teologia, está bem?


Deuses sexy foi uma boa definição. Pena que ele parou de falar sobre isso, porque daria uma boa base para trabalharmos e
m cima. Mas podemos criar as bases do nosso próprio pensamento juntos, basta começarmos.

Uma vez encontrei uma citação que infelizmente perdi a fonte, dizendo que as nossas divindades são "instrumentos para pensarmos", pois eles se colocam em nossa vida como elementos tanto para nos classificarmos quanto para ordenar o sistema do Candomblé que se reflete tanto nas atividades religiosas quanto nas cotidianas. Os Orixás, como sentimos, nos orientam no dia-a-dia como exemplos vivos em seus itans, ou lendas. E como será que eles nos persuadem e convencem-nos a segui-los?

Três etapas compreendem o desenvolvimento dessa relação, se traçarmos um paralelo entre a religião e processos de agrupamentos de conduta desenvolvidos pela comunicação social com base em teorias psicanalíticas. O primeiro é a chamada projeção. Quando se sugere ao iniciante na religião que um mito refletirá a sua história de vida, na conhecida atribuição do "seu" Orixá através do jogo de búzios, o oráculo do Candomblé, o indivíduo passa a se projetar naquelas lendas que vai conhecendo aos poucos. Se projetando, ele tenta se ver refletido naquelas narrativas. O segundo passo é alcançar a identificação.

Como fluxos contínuos de axé, os mitos se aprecem com grandes avenidas, por onde a vida circula sem parar. Ao se identificar pel
a primeira vez com um itan, o indivíduo se torna receptivo para as seguintes. E elas acontecerão. Com o tempo, o encaixe começa a se formar e a empatia foi criada. A vida do adepto segue o mesmo fluxo daquele arquétipo, sendo guiado por caminhos claros em sua mente, dentro dos quais se goza de certa liberdade para agir conforme seus próprios valores, conteúdos e bagagem cultoral/intelectual. Os leitores do blog podem ter entendido o processo que expliquei, quando também se viram cruzando estas etapas na sua entrada para o Candomblé.

Mas e onde essa verborragia quer chegar? Quer tocar na coerência dos amigos leitores, quando assistirem esse filme que sugiro:

YANSAN
de Carlos Eduardo Nogueira

A orixá dos ventos e das tempestades Yansan, personagem do mito iorubá, muda-se para o outro lado do mundo. Agora, em animação em 3D, construídas por Carlos Eduardo Nogueira, as aventuras amorosas da sensual Yansan com Ogum e Xangô são transportadas do continente africano para o Japão futurista. Neste contexto, o traço que desenha os personagens e cenários é de anime, o característico desenho animado japonês, espécie de filho do mangá.



Clicando na imagem vocês poderão assistir o filme que recebeu MUITOS prêmios em vários lugares do mundo. Yansan é um filme excelente! Lindo em estética e maravilhoso na ambientação dos itans de Oyá. Enquanto a história se passa, é narrado o mito, de uma forma que impressiona pelo casamento perfeito de duas realidades tão distantes, uma África perdida no passado e um Japão mergulhado no futuro.

Os orixás são sexy ou nós é quem somos? Houve muita polêmica em torno deste filme pelo conteúdo erótico das imagens. No entanto, nunca se soube que sexo e desejo era sujo aos olhos dos Orixás, que não repetem a escalada cristã em busca do Orun (o lado espiritual) em detrimento do Aiye, (o mundo material). Mesmo que fosse, essa poderia ser a história de qualquer filha de Oyá ao redor do mundo, contada e recontada através dos itans há séculos e séculos, assim como a sua vida está sendo, exatamente neste momento.

Para outra postagem e para reflexão e tarefa de casa, fica a seguinte pergunta: já que falamos de identificação, nossos deuses foram criados à nossa imagem e semelhança ou nós fomos criados à deles? Não sei a resposta, mas que tal tentarmos conversar sobre ela em uma próxima publicação?


segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Porque o preto seria contra-axé?

Em novembro de 1858 "Sir James Wylie, ex-médico do imperador da Rússia, estudou atentamente os efeitos da luz como agente terapêutico em hospitais de São Petesburgo. Ele descobriu que a cura de pacientes internados em quartos convenientemente iluminados era quatro vezes maior que a daqueles confinados em quartos escuros. Isso levou a uma completa reformulação na iluminação dos hospitais da Rússia, com resultados surpreendentes. Esses resultados baseiam-se no efeito conhecido de que na falta de luz suficiente, plantas e animais são fadados a uma existência doentia e frágil."

A revista Scientific American Brasil publicou na edição deste mês este texto, do qual transcrevi um bloco, em uma seção onde cita momentos importantes para a ciência. Este, há 150 anos atrás. Hoje sabemos muito sobre as teorias das cores. Não é para menos, afinal lá pelo século XVII Isaac Newton já estava explicando o espectro solar, quando a luz branca refratada em um prisma, perde velocidade e se separa em um feixe das sete cores que conhecemos bem no arco-íris.
(ver na foto, imagem da capa do disco Dark Side of Moon, da banda Pink Floyd).

Trouxe essa conversa esquisita para pensarmos juntos sobre a restrição à cor preta dos rituais candomblecistas. Porque será? Longe de sermos detentores dos segredos (até porque, mesmo que os fôssemos, segredos não combinam com Internet), somos seres inteligentes, cheios de capacidade e obrigação de aprendermos seja dentro ou fora da religião. Precisamos refletir e é justamente a partir dessa palavra que partimos para propor pensarmos sobre o assunto.

Estranho é saber que cor é algo que só existe no nosso cérebro e no de alguns animais (outros não as vêem e levam suas vidas numa boa). Nossos olhos captam a luz refletida por certa matéria e conclui: vermelho! Já quando não temos luz no ambiente, ele também conclui: preto! Então o preto não seria uma cor, mas a ausência dela. Já a tinta preta da caneta que usamos para escrever é uma substância que não reflete luz, que com a qual criamos contraste sobre outra superfície refletora, o papel, para assim identificarmos visualmente o que quisemos registrar.

Muito bem. Talvez por isso algumas culturas associem a morte ao preto, numa alegoria ao "apagar da luz". Já o Candomblé tem como cor de luto o branco, a soma de todas as cores, a cor da luz vinda do sol e condição inquestionável para o desenvolvimento da vida em nosso planeta. Podemos concluir que não existe mudança em relação à interpretação da simbologia da cor (preto ou branco), mas da relação da comunidade com a morte.

Deixe o brilho do sol entrar
Deixe entrar, vamos todos cantar
Deixe o brilho do sol entrar.
Abra seu coração e deixe brilhar.
Quando estiver solitário, deixe brilhar.
E quando achar que está sendo maltratado
e que seus amigos se afastaram,
Abra o seu coração e deixe brilhar dentro de você.

(Let the sunshine in, da trilha sonora do filme Hair)


As cores são elementos importantes na comunicação social. Quando falamos em cores quentes, cores alegres, cores chiques, cores sóbrias, cores vivas, etc, estamos dando às cores significados que aprendemos a partir das nossas experiências pessoais. A facilidade maior de encontrar corantes vermelhos no ocidente que no oriente (ainda que caríssimos) tornou nas sociedades eurocêntricas, sinônimo de realeza e de poder. Lembremos dos mantos reais e dos tapetes para a passagem de celebridades. Nosso país se chama Brasil em homenagem à tonalidade da madeira que, extraída aqui, gerava o corante cor de brasa para as cortes européias. Para os orientais, o amarelo era a cor da realeza, por motivos que somente no contexto de lá se poderia entender.

E quando falamos dos odés (os caçadores do Candomblé como Oxósse, Ogum, Logunedé, Inlé, Ibualama, etc) à nossa mente vem as matas. Se suas roupas têm uma cor, não é dificil imaginar que ela seja verde. Isso faz parte da construção do ser mitológico Oxósse. Iemanjá e o mar, Oxum e a riqueza, Xangô e o fogo são outros exemplos de que não é dificil pintar as cores dos deuses na nossa imaginação. Assim, cor é informação, é conhecimento, é energia, é simbologia, é força. Enfim, é axé.

Temos alguns elementos, mesmo que não religiosos, para começarmos a entender porque a cor preta é tratada dentro da vida religiosa do Candomblé como contra-axé (algo que anula o axé, a energia vital, o movimento e a transmissão).

OBS: Recebemos comentários muito importantes e que complementam muito bem a postagem. Sugiro a leitura deles.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

É mais fácil enxergar de longe



Easy to be hard

Como algumas pessoas podem ser tão sem coração?
Como algumas pessoas podem ser tão cruéis?
É fácil ser duro, é fácil ser frio.


Como as pessoas podem não ter sentimentos?
Como as pessoas podem ignorar seus amigos?
É fácil ser orgulhoso, é fácil dizer não.

E especialmente as pessoas que se preocupam com os estranhos

Que se preocupam com o mal e com as injustiças sociais
.

Você só se preocupa com o sofrimento das multidões,
E as necessidades de um amigo?
Preciso de um amigo.


Mais uma cena inspiradora do filme Hair. Neste momento, Laffayete (Dorsey Wright) é encontrado pela noiva, a qual deixou juntamente com o filho, para seguir os ideais hippies com seu grupo e se chamar Hud. É impossível não ser tocado pela mensagem interpretada por Cheryl Barnes. No nosso dia-a-dia, nos encontramos em situações onde nos pegamos olhando para bem longe e esquecendo do nosso redor.

A maioria dos adeptos do Candomblé enfrentou ou enfrenta dificuldades para ter sua liberdade religiosa aceita e compreendida. No entanto, aquela sabedoria popular que diz "quem apanha, lembra; quem bate, esquece" é bem verdadeira quando é mais difícil sentir o que incomoda os outros.

A adaptação ao sistema litúrgico do Candomblé não é fácil. Quantas vezes é preciso virar noites e noites trabalhando, abrindo mão de outros momentos que também são importantes para nós e para os que estão ao nosso redor? A resignação de uma mulher em cumprir seus 21 dias de reclusão, mais 97 de resguardos variados e pesados, não é maior que a do seu companheiro, dos seus filhos ou dos seus familiares. As alegrias também serão compartilhadas, obviamente. Mas ninguém passará sem abnegação.

O investimento financeiro para a manutenção das atividades do terreiro poderiam ou deveriam ser, naquele momento, investidos em outro fim?

E aqui, mundo virtual, onde interagimos e trocamos idéias e conhecimentos com anônimos enquanto dentro do barracão mal trocamos pedidos de bênçãos por mera formalidade e não paramos para falar sobre educação religiosa.

Reflitamos não sobre a importância de se ter uma religião, mas em uma relação que muitas vezes é mal compreendida: entramos em uma religião ou a religião entrou em nós. Estamos no mundo, guardando em nós a nossa fé. Entramos para um grupo social que comunga de idéias semelhantes, mas que têm suas vidas pessoais. E, com todo o respeito, penso que o espaço sagrado é todo aquele onde colocamos os pés e transmissão de axé deve ser a cada passo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Justiça do Rio manda indenizar homem chamado de macumbeiro

Postado às 10h30 em 06 de novembro de 2008
Do site Última Instância

Um filho de santo do Rio de Janeiro receberá uma indenização de R$ 3.000 por ter sido chamado de macumbeiro por seu vizinho. Marcelo da Silva Gomes entrou com ação contra o mecânico Mauro Monteiro Pinto após ter sofrido agressões verbais quando passou em frente à casa do vizinho para fazer oferenda em seu culto religioso, em Paty de Alferes.

"A disseminação da intolerância religiosa em uma comunidade, a toda evidência, acarretará insegurança social, havendo de ser rigorosamente rechaçada", afirmou a juíza Katylene Collyer de Figueiredo em sua decisão. Ainda cabe recurso.

O mecânico, que afirmou que o vizinho fez despachos de macumba em frente a seu portão, disse ainda que não ofendeu o autor da ação por estar com a família na igreja no dia do ocorrido. No entanto, testemunhas confirmaram os insultos, que incluíam ainda palavras de baixo calão.

Na decisão, a juíza considerou que a ofensa, grave, atingiu a personalidade de Marcelo Gomes, o que dá direito à indenização. Ela ressaltou que a Constituição Federal trata como inviolável a liberdade de crença e assegura a liberdade dos cultos religiosos, inclusive a proteção aos locais de culto. "O homem de compreensão mediana tem informação acerca da liberdade de culto e da vedação de discriminação de qualquer natureza amplamente divulgada pelas associações humanitárias e pela imprensa em geral", afirma.

Ainda de acordo com a sentença, a eventual irregularidade no local das oferendas não permite que o mecânico insulte o vizinho. Para a juíza, a possibilidade de oferendas com alimentos perecíveis em local público deve ser questionada pelas vias próprias.

Eduardo recebe filhos de terreiros de matriz africana no Palácio

Fonte: Governo do Estado do Pernambuco
04 de Novembro de 2008

O governador Eduardo Campos marcou presença na 2ª Caminhada dos Terreiros de Matriz Africana de Pernambuco, realizada em Recife nesta terça-feira (04). A caminhada teve início no bairro do Recife Antigo, percorrendo a ponte Maurício de Nassau, a Avenida Martins de Barros e chegando ao Palácio do Campo das Princesas, onde o governador recebeu e saudou os participantes.

"Quero dizer da nossa posição em reparar essa divida histórica com os afro-descendentes. Temos um profundo reconhecimento do trabalho de inclusão social que os terreiros espalhados por todo o estado realizam, pois assim podemos contribuir para a construção de um novo Pernambuco", disse o governador.

A 2ª Caminhada de Terreiros de Matriz Africana de Pernambuco já se tornou data obrigatória para o calendário anual do movimento negro de Pernambuco, sempre realizada na primeira semana de novembro, mês da consciência negra.

Ao final do encontro, Eduardo agradeceu aos participantes e desejou-lhes boas energias. "Quero deixar muito axé para todos vocês. Sejam bem vindos à Casa do Povo de Pernambuco", despediu-se Eduardo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

II Caminhada do Povo de Terreiro - Recife (percepções)

Hoje aconteceu a II Caminhada do Povo de Terreiro do Recife. O evento, contra a intolerância religiosa, demonstrou a necessidade de mais oportunidades como estas, para os candomblecistas se unirem na defesa dos seus direitos e na construção de uma sociedade onde os valores de fraternidade, união e desenvolvimento em conjunto estejam mais presentes. A caminhada reuniu um bom número de pessoas, mas nem um pouco satisfatório para um dos maiores centros de resistência da cultura afrodescendente no país.

A II Caminhada do Povo de Terreiro do Recife me pareceu um grito de socorro. Um pedido para que nossa religião e as políticas sociais em torno do tema sejam levados de uma forma mais séria e mais organizada. Amadorismo, falta de profissionalismo, frustração, muita paciência e boa-vontade, foram os marcos do evento, o qual o blog Povo do Axé se colocou à disposição e divulgou, além do empenho de seus componentes no site de relacionamento Orkut. Provavelmente o blog Povo do Axé será a única referência nos sites de busca a este evento.

Que não seja o último, mas prefiro encarar a III Caminhada como um novo começo. E que agora essa iniciativa seja dada à luz.

domingo, 2 de novembro de 2008

Entenda o Ibêji e conheça os alimentos preferidos dos orixás


Entenda o Ibêji e conheça os alimentos preferidos dos orixás

26/09/2008

Janaína Fidalgo
da Folha de S.Paulo


Sincretizado com os santos Cosme e Damião, Ibêji é celebrado neste sábado com o "caruru dos meninos'; veja quais são as predileções alimentares dos orixás do candomblé

Dizia Jorge Amado que os Ibêji, orixá duplo do candomblé sincretizado com os santos Cosme e Damião, são amigos da boa mesa da culinária baiana.

Quando se observa a fartura do "caruru dos meninos", celebrado neste sábado, a gourmandise desse orixá fica evidente. Aos gêmeos protetores da infância oferenda-se caruru e também acarajé, abará, vatapá, xinxim de galinha, farofa, rapadura, cana-de-açúcar...

"O candomblé é uma religião de antepassados. E, segundo as antigas tradições, quando se cultua os antepassados, oferece-se tudo que é necessário à vida, sobretudo comida e bebida", diz o sociólogo Reginaldo Prandi, professor aposentado da Universidade de São Paulo e autor de "Mitologias dos Orixás". "Cada orixá tem predileção por um alimento."

No dia de Ibêji, o caruru (prato à base de quiabo, camarão seco e dendê) é oferecido ao orixá e depois a sete crianças, que o recebem em uma grande tigela. Quando terminam, só então os adultos são convidados a compartilhar o alimento.

"A comida é elo entre a comunidade e os ancentrais", diz o antropólogo Vilson Caetano de Sousa Júnior, professor da Uneb (Universidade do Estado da Bahia) e autor de "Banquete Sagrado", com publicação prevista para o final deste ano.

"Uma coisa é o cortado de quiabos, outra é a oferenda de caruru que se faz a Ibêji", diz. "Diferentemente da comida do dia-a-dia, a comida ritual, votiva, é preparada de acordo com preceitos que pressupõem da abstinência sexual à exigência de que o corpo esteja limpo."

Dos terreiros para a rua

Na Bahia, as promessas feitas a Ibêji, do termo iorubá para gêmeos, são pagas com um grande caruru e com a distribuição de doces e presentes para as crianças. O tamanho do prato é medido em quiabos: caruru de mil, de 5.000 quiabos.

"Com o tempo, a festa de Ibêji foi além dos terreiros. Atinge até quem não é do candomblé. Assim como a festa de 31 de dezembro, nas praias, era uma festa de terreiro para Iemanjá e hoje é de todos", diz Prandi. Um traço importante das comidas de orixá é o uso, quase onipresente, do dendê --quase porque há orixás que têm o ingrediente como um tabu alimentar, caso de Oxalá.

"A palmeira de dendê foi aclimatada ao Brasil para suprir a região de um óleo que é essencial nesta culinária sagrada", diz Prandi. "As comidas [de terreiro] nada mais eram que as comidas do dia-a-dia, que acabaram sendo trazidas para o Brasil pelo tráfico de escravos. Com a restauração da religião negra no Brasil, essas receitas se mantiveram vivas. Claro que sofreram adaptações, porque nem todos os ingredientes de lá estavam disponíveis aqui."

A culinária sagrada, porém, não ficou limitada aos terreiros. "É certo que a culinária baiana saiu dos terreiros. O acarajé é uma comida sagrada que passou a ser vendida nas ruas de Salvador", diz o antropólogo Rodnei William Eugênio, autor do livro "Acaçá, Onde Tudo Começou - Histórias, Vivências e Receitas das Cozinhas de Candomblé". "Muitas mães-de-santo ganharam sua vida e muitas negras compraram sua alforria vendendo quitutes feitos nos terreiros."

Para o professor da Uneb, os terreiros de candomblé preservaram as técnicas africanas. "No fundo, o sagrado come o que os homens comem", diz. "É extremamente positiva a popularização de tais comidas. Isso mostra o poder que a cultura de matriz africana teve de se disseminar, de se espalhar."

As iabassês e os tabus

A preparação das comidas de oferenda, chamadas de ebós, cabe a uma mulher, a Iabassê. "No candomblé, a cozinha é um templo, é um espaço sagrado e cheio de interdições", diz Eugênio. Oxalá, por exemplo, é um orixá cheio de tabus. Tem, por isso, uma cozinha exclusiva, onde não entram dendê nem sal. "Os tabus são formas de criar a sua identidade através de uma exclusão", explica Prandi.


sábado, 1 de novembro de 2008

Pai Bobó - orgulho da raiz

Pessoal, recebemos de uma egbon descende do Pai Bobó - e como não podia deixar de ser, orgulhosíssima de suas raízes - como colaboração para o Povo do Axé, esta matéria publicada na Revista Orixás. O texto é dos jornalistas Roberto Rodrigues e Luiz Bicudo.










"Em julho de 1993 o Candomblé lamentou a morte de José Bispo dos Santos, um dos maiores responsáveis pela introdução da religião dos Orixás no Sudeste, especialmente em São paulo. tornou-se famoso com o apelido de bobó de Iansã e em 1948 era citadi por Edson Carneiro no livro Candomblés da Bahia entre os babalorixás que vinham adquirindo sucesso na cidade de Salvador.

Iniciado aos quatro anos de idade pela eminente ialorixá Cotinha de Ewá, Pai Bobó honrou até os últimos dias a Casa de Oxumaré, não obstante suas estreitas ligações com o Gantois, pois Zezinho - como o chamava Mãe Menininha - não se furtava dos conselhos da grande mãe-de-santo, que ele adorava tanto, que no dia 13 de agosto de 1986, quando Mãe Menininha faleceu, entre lágrimas, fez o solene juramento de jamais voltar à Bahia. E cumpriu. A Bahia, contudo, vinha até Pai Bobó: tantos ogans e matronas do Gantois, Mãe Nilzete de Iemanjá, então ialorixá do Axé oxumaré, não perdiam as festas de Iansã, que levavam milhares de pessoas ao litoral paulista, mais especificamente à cidade do Guarujá, onde Pai Bobó plantou seu axé,.

Pai Bobó deixou Salvador em 1950. Veio primeiramente para o Rio de janeiro e por alguns anos esteve ao lado de Joãozinho da Goméia, auxiliando-o nas funções sacerdotais. Já em São paulo, em 1957, fundou o Ilê Oyá Mesan Orun, na cidade de Santos, comprrovadamente o primeiro Candomblé do Estado. Os atabaques que bateram o primeiro Candomblé de São paulo foram presentes de Pai Baiano (Waldemiro de Xangô) e até hoje ecoam nas noites do litoral.

iniciou milhares de filhos-de-santo em São Paulo, sem contar os que o acompanharam da Bahia. Não se furtava a subir a serra e ajudar seus inúmeros filhos com casa aberta a fazer seus Candomlés. Pai Bobó era um homem bom, que sabia respeitar o espaço do outro e tinha sempre uma palavra de carinho e conforto para seus filhos e para todos os que o procuravam. No dia de seu enterro, uma multidão vestida de branco invadiu as ruas da cidade e lamentou a falta de um dos grandes nomes da religião, que para sempre será lembrado, pois foi amado e respeitado por todos.

Oiá é o vento que espanta a morte, a ventania que balança as folhas, que enverga a palmeira real e faz seu topo tocar o chão. Quando da morte de seus filhos, ela se manifesta. Quem não viu Iansã no enterro de pai Bobó? Todos, naquela triste manhã de um dia triste, viram Oiá abrindo os caminhos para o féretro. A cada caminho que cruzava - três passos adiante, três passos para trás - um vento forte zunia na boca do dia. Oya Gueré a unló, cantavam tristes seus irmãos, seus filhos e os filhos de seus filhos, mas cantavam. As árvores, as mesmas que o apoiaram em seus passos lentos, curvavam-se numa última saudação; suas folhas formavam um tapete para o cortejo, e a cada encruzilhada - três passos adiante, três passos para trás - erguiam-se e voavam em círculo. A multidão de branco, pano-da-costa nos ombros, pêlos erguidos pelo corpo, lamentava - mas cantava: adola, Oyá Gueré a unló. Caminhando contra ventania, a multidão é lenta e parece não querer chegar, mas chega - três passos adiante, três passos para trás - e preenche o vácuo da terra, e cada um naquela alva multidão se esvazia um pouco: adola, Oyá Gueré a unló.

Na história do Candomblé de São Paulo, Pai bobó escreveu um capítulo inteiro. Hoje existem os que maldizem Pai Bobó, os mesmos que muitas vezes comeram de sua comida e lhe pediram ensinamentos e explicações.

Mas Iansã também sabe ser justa, e este ano promete ser o ano da retomada do crescimento do Ilê Oiá Mesan Orum, pois seus filhos e filhas estão dispostos a trabalhar para que a casa assuma o seu papel de referência e reconquiste o respeito de todos os adeptos do Candomblé. A festa de iansã deste ano promete ser um marco, o início de uma nova etapa loriosa para este Candomblé que é o pioneiro em São paulo e, portanto, merece ser preservado.

Pai bobó, orgulhoso, verá seu nome honrado por seus filhos e filhas, que retornarão ao Axpe e provarão a todos que jamais se esquecerão do grande homem que ele foi, de seu amor e de sua bondade. Nenhum homem poderá destruir o que Iansã construiu, pai bobó viverá para sempre na memória de seus filhos e em cada canto de seu glorioso Axé e na casa de seus filhos, que o amam e respeitam pelo grande pai que foi e continua sendo."

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Festival Osun Osogbo - Em homenagem ao Rio Deusa

O texto a seguir é tradução de uma matéria produzida por Kunle Ogunfuyi para o jornal nigeriano This Day Online, como enviado especial de Lagos a Osgbo para cobrir o Festival. Retiramos altuns trechos do texto para vocês, para conhecermos um pouco da origem da deusa dos rios e das cachoeiras, Oxum, tão cultuada em nosso país.



"Muitos séculos atrás, os caçadores de uma aldeia vizinha Ipole Omu, chamado Larooye, Olutimehin e os seus companheiros, migraram em busca de água. Eles resolveram se fixar as proximidades do rio Osun, onde atualmente fica Osogbo. L
arooye, como um dos primeiros a se instalar na região, se tornou o primeiro Ataoja (rei) de Osogbo. Neste período, ainda não existia o culto à divindade do rio Osun.

Quando começaram as preparações da terra para a época de plantio, uma árvore caiu no rio e uma misteriosa voz vinda da água foi ouvida: "Larooye, Olutimehin, gbobo Iroko Aro mi leti fo tan" (Larooye, Olutimehin, com a árvore vocês destruíram os vasos das minhas tinturas". Após ouvir a voz, o medo tomou conta deles. Como ela sabia os seus nomes? Consultando outros espíritos protetores da sua comunidade, o rei Larooye pacificou a deusa do rio dizendo "Oso-Igb
o pele o, Oro-Igbo rora" e a antiga cidade passou a ser chamada pela contração dessa expressão que apaziguou o espírito da deusa do rio Osun: Osogbo. Da mesma forma, o título empunhado pelo rei Larooye veio da função que a deusa delegou ao primeiro rei de Osogbo, nas oferendas do encerramento do festival. Ataojá é abreviação de Atewogbeja.

Ela ordenou que Obá Larooye, Olutimehin e seu povo se transferissem para a parte superios do rio chamada Ohuntoto, pois as coisas humanas não podem viver junto com as espirituais. Larooye e sua comunidade de mudaram, deixando apra trás o seu primeiro palácio, hoje, o Templo de Osun, no interior do bosque sagrado que beira o rio.

O tempo se passou e Olutimehin, em uma das suas caçadas, teve uma visão. Em uma clareira no bosque sagrado, dezesseis divin
dades luminosas dançavam com Osun. E Olutimehin conseguiu, através de encantamentos, capturar aquela luz que emitiam. Quando a deusa soube do que Olutimehin tinha feito, chamou-o junto com Larooye para conversar e lhes disse que aquilo nunca a havia preocupado. Mas avisou que as luzes devem ser celebradas ali, em Osogbo.

Foi o pacto entre a deusa e Oba Larooye que permaneceu os abençoando. Osun foi aplaudida por muitas conquistas importantes deste povo, fundamentais para a construção e prosperidade do Estado de Osogbo. Os poderes mágicos de Osun motivava a todos e assustava os inimigos. As tradições de Osogbo a aclamam como a deusa da fertilidade, da proteção e das bênçãos. Osun também possui a capacidade de dar filhos às mulheres estéreis e curar os doentes através das águas do seu rio. Por isso nasceu o festival anual Osun Osogbo , que também marca o aniversário de Osogbo e do dia de celebrar os Ataojás antepassados. Durante este período, os filhos e filhas de Osogbo vêm de longe, voltam para casa para promoverem séries de encontros e reuniões para o desenvolvimento da região."

"No palácio, fomos informados que o festival já está acontecendo há tempo. Começa com atividades como campeonato juvenil de futebol, o 2º Osun Festival, Campeonato de Golf, Dia dos Mascarados, Mostra Cultural de Filmes, Noite da Cultura Negra, Campeonato de luta, entre outros. Agora estão acontecendo campanhas de conscientização sobre o HIV, desfiles de moda e exibições de arte. Desde algumas semanas estão acontecendo sacrifícios para os antigos Ataojas, onde dezesseis lamparinas representam as dezesseis luzes apreendidas no bosque pelo co-fundador de Osogbo. Também têm sido feitos iboris para as cabeças dos líderes atuais e ebós para as falecidas esposas dos reis do passado.

O culto à deusa Osun prossegue até o climax, no Santuário, no final do festival. Inesperadamente uma sacerdotisa sai de dentro dentro da sua casa, em um pátio no interior do Palácio segurando uma faca. Sussurra algumas palavras, volta e se tranca novamente. Sua próxima aparição foi com a Arugba, uma menina virgem, transportando uma cabaça decorada e parcialmente coberta, cercada pelos sacerdotes e por uma grande multidão dentro e fora do palácio. O Ataoja também a segue acompanhado por seus parentes e por pessoas de longe que estão hospedadas no santuário.

A multidão caminha lentamente dançando ao som de músicas típicas, sob coloridos toldos da festa. É uma oportunidade para os comerciantes fazerem algum dinheiro, vendendo akara elepo (bolinhos fritos de feijão) estamparias em tecido, souvenirs, produtos das culturas agrícolas, em brincadeiras nas ruas e com os bata, dundun, aro (tambores) e sekeres (recipientes plásticos que são vendidos em grande quantidade, utilizados para coletar água do rio Osun.

Acredita-se que a Deusa Osun agora esteja reinando em todo o mundo e é por isso que a UNESCO listou o Bosque sagrado de Osun como Patrimônio da Humanidade.

O grand finale do festival é o momento das oferendas e sacrifícios, em forma de dinheiro, presentes, obis (nozes de cola) e aves como votos à deusa por seus adoradores à margem do rio. Entretanto, diversos outros grupos e profissionais como famílias reais, governantes, o Parlamento do Povo de Oodua e grupos culturais como o Centro Nike de Arte & Cultura, além de todos os patrocinadores, pagam suas homenagens ao Ataoja."

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Nagô-vodum, uma reverência entre os Mahi e os iorubás


"O djèdjè maxi cutuado em Cachoeira é dividido principalmente em três clãs ou famílias de divindades denominadas Vodun, que são:

1)Família de Dàn – Composta pelos Voduns: Besen (Vodun principal), Akotokuen, Dàn Kasú, Dàn Insé, Jikú, Kuenkuen e etc.

2)Família dos Kaviúno ou Kavioso (Hevioso) - Composta pelos Voduns: Sogbo (Vodun principal), Gbade, Loko, Akarumbé [Akolombe], Jokolatino, Agbetawoyó (Vodun do mar), Kpòsú e etc.

3)Família dos Nago-Vodun – Composta pêlos Voduns (Orísa) que vieram do nagô. Divindades assimiladas da cultura yoruba pêlos djèdjè, que são: Ògún, Oyà, Yemonjá, Òsun, Odè e etc.

Podemos no
tar, também, a presença de outros Vodun pertencentes a famílias menores e pouco difundidas no Brasil, que acabaram sendo absorvidos pelas famílias maiores. Gaiaku Luiza segue dizendo, que uma sacerdotisa djèdjè maxi pode adqüirir três títulos que estão relacionados com a família à qual pertença seu Vodun protetor (Vodun de cabeça). Se uma sacerdotisa tem como protetor um Vodun pertencente à Família de Dàn, ela é denominada Mejitó (para ambos os sexos). Se seu Vodun pertencer a Família dos Kaviúno, é denominada Doné (ou Doté seu masculino). Se seu Vodun pertencer a Família dos Nago-Vodun, é denominada Gaiaku (não se conhece seu correspondente masculino). Uma mesma sacerdotisa pode ostentar todos os três títulos, cargos, citados acima. Quando ela inicia um/uma Vodunsì cujo o Vodun pertença a Família de Dàn, passa a ser chamada de Mejitó por esta Vodunsì. Se a Vodunsì iniciada for de um Vodun Kaviúno, a mãe passa a ser chamada de Doné. Se a Vodunsì pertencer a um Vodun da Família dos Nago-Vodun, está chamará sua mãe-de-santo de Gaiaku. Os cargos: Mejitó, Doné e Gaiaku são hierarquicamente iguais, possuindo o mesmo grau de importância dentro do culto. A sacerdotisa que possui seu cargo original inerente de seu próprio Vodun, pode adquirir outros cargos, conforme for iniciando Vodunsì cujo o Vodun pertença o outras famílias."

Trecho do Livro Gaiakú Luiza e a sua Trajetoria do Jeje-Mahim na Bahia,
Do mejitó Marcos Carvalho.

Candomblé Jeje

Dahomé, o berço da nação Ewe e fon, denominados Jêjes, no Brasil, enumeram-se em diversas tribos como os Agonis, Axantis, Gans, Popós, Crus etc. Os primeiros povos jêjes tiveram como destino São Luis do Maranhão, onde ainda se mantém vivas as tradições religiosas trazidas da terra mãe, África. Também se encontra o ritual jêje em Salvador, Cachoeira de São Félix, Pernambuco entre outros estados do Brasil como Rio Grande do Sul e São Paulo, que também importou os rituais desta nação.

O negro descendente do Dahomé, hoje Benin, trouxe consigo o culto à suas divindades chamadas Voduns, cujo Deus Supremo é Mawu , a quem são subordinados, assim como Olodumaré o Deus Supremo dos Orixás Yorubás. Diz a Mitologia Fon que Mawu tinha um companheiro chamado Lisa, e são filhos de Nana Buruku (ou Nana Buluku), a grande mãe criadora do mundo. Mawu era a Lua, que teve força ao longo da noite e viveu no oeste. Lisa era o Sol, que fez sua morada no Leste. Quando existia um eclipse dizia-se que Mawu e Lisa estavam fazendo amor. Eles eram pais de todos os outros Deuses. E existem catorze destes deuses, que eram sete pares de gémeos. Este relato é um mito do primeiro povo do Dahomé, os Fons.

O culto aos Voduns teve ênfase na Bahia, conhecido como Candomblé Jêje, e no Maranhão Tambor de Mina.

Nos terreiros mais influenciados pela mina jêje, o predomínio, em certos grupos, é de mulheres como filhas de santo. Os devotos têm que se submeter a longo processo de iniciação. Os detalhes dos rituais são pouco comentados, não há rituais públicos de iniciação; a cada comunidade, apenas duas ou três pessoas se dedicam ao ritual completo de iniciação. Em geral as Vodunsis dão poucas informações sobre os rituais relacionados com o culto, os segredos são mantidos a sete chaves.

Assim como os Orixás do Batuque, os Voduns incorporados, conversam com a assistência, dando bênçãos, conselhos, deixam recados e mantêm os olhos abertos. È comum no culto jêje fazer provas com os iniciados incorporados com os Voduns, como, por exemplo, mergulhar a mão no azeite de dendê fervendo.

Algumas casas de jêje tiveram influencias dos yorubás e vice-versa, formando o que se chama de cultura Jêje-Nagô. A exemplo do candomblé, as instalações dos terreiros contam com um barracão central para as danças, pequenas casas reservadas para as diferentes famílias de divindades, onde são mantidos os assentamentos. O forte sincretismo prevê, também a instalação de uma pequena capela com altar católico, há uma cozinha, quartos para dormir e se vestir e quarto onde os iniciados ficam recolhidos durante as obrigações. há também a casa de Legba, onde são feitas grandes obrigações.

A iniciação jêje requer um longo período de confinamento, que pode durar de seis meses a um ano de reclusão, onde um Vodunsi aprende as tradições religiosas jêje como: danças, cantigas, preparo das comidas sagradas, cuidar de árvores e espaços sagrados, votos de segredo e obediência. As entidades são assentadas, recebem sacrifícios de animais, comidas, bebidas e outros presentes. Os assentamentos são preparados em pedras, que representam um “imã” que tem a força do Vodun, e ficam guardadas no quarto de segredo recobertos com jarras, louças e ferramentas. Existem, também, assentamentos em outras partes da casa e do quintal marcados por árvores como a cajazeira, ginja e pinhão branco. È comum ter assentamentos no centro do barracão de danças; assim como em outras nações, no culto jêje também são feitos rituais de limpezas, banhos com ervas e muitas preces. Nos rituais antigos o contacto com os voduns dependia muito da vidência das Vodunsis, e a adivinhação era feita através da interpretação dos sonhos, consulta com os Voduns e exame da luz de velas, actualmente é comum o uso dos Búzios para consultar as divindades.

As casas de jêje, além do culto aos Voduns, também incorporam em seus rituais alguns orixás nagôs. O panteão jêje é numeroso, sendo os Voduns agrupados em famílias como: Dambirá, Davice, Savaluno e Queviossô.

As actividades religiosas requerem um extenso calendário com rituais reservados aos iniciados, e em festas públicas que duram um, três ou sete dias; no final das obrigações todos comem as comidas preparadas com a carne dos animais oferecidos em sacrifício às divindades.

Mawu é o ser supremo dos povos Ewe e Fon, criador do mundo, dos seres vivos e das divindades. Mawu (feminino) e Lissá (masculino) forman a divindade dupla Mawu-Lissá cujos Voduns são filhos e descendentes de ambos. Os principais Voduns são: Loko; Gu; Heviossô; Sakpatá; Dan; Agbê; Águé; Ayizan; Agassu; Legba e Fa.

A casa de jêje chama-se Kwe, e o local destinado ao culto dos Voduns é chamado Hunkpame, que é o templo onde está dentro a divindade; é chefiado por um sacerdote ou sacerdotisa, que são responsáveis pelos ensinamentos aos futuros Vodunsis.

No Rio Grande do Sul, os terreiros que ainda mantém firme a cultura Jêje, nota-se a conservação de certas obrigações, à exemplo, nos assentamentos de Ogum Avagã cujas ferramentas usadas são as mesmas para o assentamento de Gu no Dahomé, e algumas não tem o uso do okutá; e também há nomes de Orixás que usam o mesmo dos Voduns, como por exemplo Dã, cujo Orixá de uma famosa Yalorixá da nação Jêje chamava-se Dã e um outro antigo Babalorixá de Porto Alegre pertencente a esta mesma nação, tinha o assentamento de Sobô; (Sobô é nome de um Vodun do Dahomé). Dos pais e mães de santos actuais, da nação Jêje do Rio Grande do Sul, muitos desconhecem a palavra Vodun; deve-se este fato ao predomínio da nação Ijexá, de origem Yorubá que acabou absorvendo as demais, e o termo Vodun com o tempo deixou de existir; mas é certo que a linguagem usada nos cantos rituais e o uso dos aquidavís para percussão dos tambores, o uso do Gã (gonguê) (instrumento de percussão), entre outros fatos reflectem muito os fundamentos do antigo Dahomé.

Há casos em que as tradições culturais africanas resistem, mais que em outros, à mudança, mas em nenhuma instância, nem mesmo nos terreiros mais antigos e ostensivamente zelosos à suas origens, deixou de existir, contudo, se tivesse, no sul um maior interesse em pesquisar a origem dos fundamentos de cada nação é certo que achariam a ligação directa do jêje praticado aqui, com os povos do antigo Dahomé, e assim por diante.

O que sobrevive da vertente jêje como legado cultural acha-se incorporado ou associado ao acervo Yorubá, embora não se fale em Vodu no Rio Grande do Sul, certas práticas da religião do antigo Dahomé, hoje Benin, podem ser detectadas no Batuque do Rio Grande do Sul, principalmente nos terreiros que fazem parte da raiz do falecido Joãozinho de Bará (Esú Biyí).

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Apenas faço observação ao termo jeje-nagô utilizado no texto, que achei interessantíssimo, tirado de "Candomblé: o mundo dos Orixás", que trouxe para vocês, leitores do blog. Em outro post vimos que o império iorubá anexou o povo de Daomé. Veja o mapa do império de Oió no século VXIII. Com essa anexação do território daometano ao ao império iorubá, houve uma grande fusão cultural, com a assimilação de elementos da religião fon ao povo iorubá e vice-versa. Portanto, ao Brasil, quando o povo iorubá chegou escravizado após a decadência de Oió,veio com ele a cultura jeje-nagô. Diz-se que, inclusive, o universalizado uso do kelê era restrito aos rituais a Xangô. Da mesma forma, Nanã (geradora da dicotomia Mawu-Lissa) era uma divindade daometana. Quando os iorubás (que fundaram o candomblé Nagô - e a dissidência Keto) vieram para o Brasil, trouxeram o produto da expansão iorubá na África. A tradição que decorreu da assimilação das divindades nagô pelos jeje foi a nagô-vodum.

Na foto, Mawu, princípio masculino complementar a Lissa. Material retirado de gerados por Nanã. Retirado do blog Myths and Legends.