quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Festival Osun Osogbo - Em homenagem ao Rio Deusa

O texto a seguir é tradução de uma matéria produzida por Kunle Ogunfuyi para o jornal nigeriano This Day Online, como enviado especial de Lagos a Osgbo para cobrir o Festival. Retiramos altuns trechos do texto para vocês, para conhecermos um pouco da origem da deusa dos rios e das cachoeiras, Oxum, tão cultuada em nosso país.



"Muitos séculos atrás, os caçadores de uma aldeia vizinha Ipole Omu, chamado Larooye, Olutimehin e os seus companheiros, migraram em busca de água. Eles resolveram se fixar as proximidades do rio Osun, onde atualmente fica Osogbo. L
arooye, como um dos primeiros a se instalar na região, se tornou o primeiro Ataoja (rei) de Osogbo. Neste período, ainda não existia o culto à divindade do rio Osun.

Quando começaram as preparações da terra para a época de plantio, uma árvore caiu no rio e uma misteriosa voz vinda da água foi ouvida: "Larooye, Olutimehin, gbobo Iroko Aro mi leti fo tan" (Larooye, Olutimehin, com a árvore vocês destruíram os vasos das minhas tinturas". Após ouvir a voz, o medo tomou conta deles. Como ela sabia os seus nomes? Consultando outros espíritos protetores da sua comunidade, o rei Larooye pacificou a deusa do rio dizendo "Oso-Igb
o pele o, Oro-Igbo rora" e a antiga cidade passou a ser chamada pela contração dessa expressão que apaziguou o espírito da deusa do rio Osun: Osogbo. Da mesma forma, o título empunhado pelo rei Larooye veio da função que a deusa delegou ao primeiro rei de Osogbo, nas oferendas do encerramento do festival. Ataojá é abreviação de Atewogbeja.

Ela ordenou que Obá Larooye, Olutimehin e seu povo se transferissem para a parte superios do rio chamada Ohuntoto, pois as coisas humanas não podem viver junto com as espirituais. Larooye e sua comunidade de mudaram, deixando apra trás o seu primeiro palácio, hoje, o Templo de Osun, no interior do bosque sagrado que beira o rio.

O tempo se passou e Olutimehin, em uma das suas caçadas, teve uma visão. Em uma clareira no bosque sagrado, dezesseis divin
dades luminosas dançavam com Osun. E Olutimehin conseguiu, através de encantamentos, capturar aquela luz que emitiam. Quando a deusa soube do que Olutimehin tinha feito, chamou-o junto com Larooye para conversar e lhes disse que aquilo nunca a havia preocupado. Mas avisou que as luzes devem ser celebradas ali, em Osogbo.

Foi o pacto entre a deusa e Oba Larooye que permaneceu os abençoando. Osun foi aplaudida por muitas conquistas importantes deste povo, fundamentais para a construção e prosperidade do Estado de Osogbo. Os poderes mágicos de Osun motivava a todos e assustava os inimigos. As tradições de Osogbo a aclamam como a deusa da fertilidade, da proteção e das bênçãos. Osun também possui a capacidade de dar filhos às mulheres estéreis e curar os doentes através das águas do seu rio. Por isso nasceu o festival anual Osun Osogbo , que também marca o aniversário de Osogbo e do dia de celebrar os Ataojás antepassados. Durante este período, os filhos e filhas de Osogbo vêm de longe, voltam para casa para promoverem séries de encontros e reuniões para o desenvolvimento da região."

"No palácio, fomos informados que o festival já está acontecendo há tempo. Começa com atividades como campeonato juvenil de futebol, o 2º Osun Festival, Campeonato de Golf, Dia dos Mascarados, Mostra Cultural de Filmes, Noite da Cultura Negra, Campeonato de luta, entre outros. Agora estão acontecendo campanhas de conscientização sobre o HIV, desfiles de moda e exibições de arte. Desde algumas semanas estão acontecendo sacrifícios para os antigos Ataojas, onde dezesseis lamparinas representam as dezesseis luzes apreendidas no bosque pelo co-fundador de Osogbo. Também têm sido feitos iboris para as cabeças dos líderes atuais e ebós para as falecidas esposas dos reis do passado.

O culto à deusa Osun prossegue até o climax, no Santuário, no final do festival. Inesperadamente uma sacerdotisa sai de dentro dentro da sua casa, em um pátio no interior do Palácio segurando uma faca. Sussurra algumas palavras, volta e se tranca novamente. Sua próxima aparição foi com a Arugba, uma menina virgem, transportando uma cabaça decorada e parcialmente coberta, cercada pelos sacerdotes e por uma grande multidão dentro e fora do palácio. O Ataoja também a segue acompanhado por seus parentes e por pessoas de longe que estão hospedadas no santuário.

A multidão caminha lentamente dançando ao som de músicas típicas, sob coloridos toldos da festa. É uma oportunidade para os comerciantes fazerem algum dinheiro, vendendo akara elepo (bolinhos fritos de feijão) estamparias em tecido, souvenirs, produtos das culturas agrícolas, em brincadeiras nas ruas e com os bata, dundun, aro (tambores) e sekeres (recipientes plásticos que são vendidos em grande quantidade, utilizados para coletar água do rio Osun.

Acredita-se que a Deusa Osun agora esteja reinando em todo o mundo e é por isso que a UNESCO listou o Bosque sagrado de Osun como Patrimônio da Humanidade.

O grand finale do festival é o momento das oferendas e sacrifícios, em forma de dinheiro, presentes, obis (nozes de cola) e aves como votos à deusa por seus adoradores à margem do rio. Entretanto, diversos outros grupos e profissionais como famílias reais, governantes, o Parlamento do Povo de Oodua e grupos culturais como o Centro Nike de Arte & Cultura, além de todos os patrocinadores, pagam suas homenagens ao Ataoja."

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Nagô-vodum, uma reverência entre os Mahi e os iorubás


"O djèdjè maxi cutuado em Cachoeira é dividido principalmente em três clãs ou famílias de divindades denominadas Vodun, que são:

1)Família de Dàn – Composta pelos Voduns: Besen (Vodun principal), Akotokuen, Dàn Kasú, Dàn Insé, Jikú, Kuenkuen e etc.

2)Família dos Kaviúno ou Kavioso (Hevioso) - Composta pelos Voduns: Sogbo (Vodun principal), Gbade, Loko, Akarumbé [Akolombe], Jokolatino, Agbetawoyó (Vodun do mar), Kpòsú e etc.

3)Família dos Nago-Vodun – Composta pêlos Voduns (Orísa) que vieram do nagô. Divindades assimiladas da cultura yoruba pêlos djèdjè, que são: Ògún, Oyà, Yemonjá, Òsun, Odè e etc.

Podemos no
tar, também, a presença de outros Vodun pertencentes a famílias menores e pouco difundidas no Brasil, que acabaram sendo absorvidos pelas famílias maiores. Gaiaku Luiza segue dizendo, que uma sacerdotisa djèdjè maxi pode adqüirir três títulos que estão relacionados com a família à qual pertença seu Vodun protetor (Vodun de cabeça). Se uma sacerdotisa tem como protetor um Vodun pertencente à Família de Dàn, ela é denominada Mejitó (para ambos os sexos). Se seu Vodun pertencer a Família dos Kaviúno, é denominada Doné (ou Doté seu masculino). Se seu Vodun pertencer a Família dos Nago-Vodun, é denominada Gaiaku (não se conhece seu correspondente masculino). Uma mesma sacerdotisa pode ostentar todos os três títulos, cargos, citados acima. Quando ela inicia um/uma Vodunsì cujo o Vodun pertença a Família de Dàn, passa a ser chamada de Mejitó por esta Vodunsì. Se a Vodunsì iniciada for de um Vodun Kaviúno, a mãe passa a ser chamada de Doné. Se a Vodunsì pertencer a um Vodun da Família dos Nago-Vodun, está chamará sua mãe-de-santo de Gaiaku. Os cargos: Mejitó, Doné e Gaiaku são hierarquicamente iguais, possuindo o mesmo grau de importância dentro do culto. A sacerdotisa que possui seu cargo original inerente de seu próprio Vodun, pode adquirir outros cargos, conforme for iniciando Vodunsì cujo o Vodun pertença o outras famílias."

Trecho do Livro Gaiakú Luiza e a sua Trajetoria do Jeje-Mahim na Bahia,
Do mejitó Marcos Carvalho.

Candomblé Jeje

Dahomé, o berço da nação Ewe e fon, denominados Jêjes, no Brasil, enumeram-se em diversas tribos como os Agonis, Axantis, Gans, Popós, Crus etc. Os primeiros povos jêjes tiveram como destino São Luis do Maranhão, onde ainda se mantém vivas as tradições religiosas trazidas da terra mãe, África. Também se encontra o ritual jêje em Salvador, Cachoeira de São Félix, Pernambuco entre outros estados do Brasil como Rio Grande do Sul e São Paulo, que também importou os rituais desta nação.

O negro descendente do Dahomé, hoje Benin, trouxe consigo o culto à suas divindades chamadas Voduns, cujo Deus Supremo é Mawu , a quem são subordinados, assim como Olodumaré o Deus Supremo dos Orixás Yorubás. Diz a Mitologia Fon que Mawu tinha um companheiro chamado Lisa, e são filhos de Nana Buruku (ou Nana Buluku), a grande mãe criadora do mundo. Mawu era a Lua, que teve força ao longo da noite e viveu no oeste. Lisa era o Sol, que fez sua morada no Leste. Quando existia um eclipse dizia-se que Mawu e Lisa estavam fazendo amor. Eles eram pais de todos os outros Deuses. E existem catorze destes deuses, que eram sete pares de gémeos. Este relato é um mito do primeiro povo do Dahomé, os Fons.

O culto aos Voduns teve ênfase na Bahia, conhecido como Candomblé Jêje, e no Maranhão Tambor de Mina.

Nos terreiros mais influenciados pela mina jêje, o predomínio, em certos grupos, é de mulheres como filhas de santo. Os devotos têm que se submeter a longo processo de iniciação. Os detalhes dos rituais são pouco comentados, não há rituais públicos de iniciação; a cada comunidade, apenas duas ou três pessoas se dedicam ao ritual completo de iniciação. Em geral as Vodunsis dão poucas informações sobre os rituais relacionados com o culto, os segredos são mantidos a sete chaves.

Assim como os Orixás do Batuque, os Voduns incorporados, conversam com a assistência, dando bênçãos, conselhos, deixam recados e mantêm os olhos abertos. È comum no culto jêje fazer provas com os iniciados incorporados com os Voduns, como, por exemplo, mergulhar a mão no azeite de dendê fervendo.

Algumas casas de jêje tiveram influencias dos yorubás e vice-versa, formando o que se chama de cultura Jêje-Nagô. A exemplo do candomblé, as instalações dos terreiros contam com um barracão central para as danças, pequenas casas reservadas para as diferentes famílias de divindades, onde são mantidos os assentamentos. O forte sincretismo prevê, também a instalação de uma pequena capela com altar católico, há uma cozinha, quartos para dormir e se vestir e quarto onde os iniciados ficam recolhidos durante as obrigações. há também a casa de Legba, onde são feitas grandes obrigações.

A iniciação jêje requer um longo período de confinamento, que pode durar de seis meses a um ano de reclusão, onde um Vodunsi aprende as tradições religiosas jêje como: danças, cantigas, preparo das comidas sagradas, cuidar de árvores e espaços sagrados, votos de segredo e obediência. As entidades são assentadas, recebem sacrifícios de animais, comidas, bebidas e outros presentes. Os assentamentos são preparados em pedras, que representam um “imã” que tem a força do Vodun, e ficam guardadas no quarto de segredo recobertos com jarras, louças e ferramentas. Existem, também, assentamentos em outras partes da casa e do quintal marcados por árvores como a cajazeira, ginja e pinhão branco. È comum ter assentamentos no centro do barracão de danças; assim como em outras nações, no culto jêje também são feitos rituais de limpezas, banhos com ervas e muitas preces. Nos rituais antigos o contacto com os voduns dependia muito da vidência das Vodunsis, e a adivinhação era feita através da interpretação dos sonhos, consulta com os Voduns e exame da luz de velas, actualmente é comum o uso dos Búzios para consultar as divindades.

As casas de jêje, além do culto aos Voduns, também incorporam em seus rituais alguns orixás nagôs. O panteão jêje é numeroso, sendo os Voduns agrupados em famílias como: Dambirá, Davice, Savaluno e Queviossô.

As actividades religiosas requerem um extenso calendário com rituais reservados aos iniciados, e em festas públicas que duram um, três ou sete dias; no final das obrigações todos comem as comidas preparadas com a carne dos animais oferecidos em sacrifício às divindades.

Mawu é o ser supremo dos povos Ewe e Fon, criador do mundo, dos seres vivos e das divindades. Mawu (feminino) e Lissá (masculino) forman a divindade dupla Mawu-Lissá cujos Voduns são filhos e descendentes de ambos. Os principais Voduns são: Loko; Gu; Heviossô; Sakpatá; Dan; Agbê; Águé; Ayizan; Agassu; Legba e Fa.

A casa de jêje chama-se Kwe, e o local destinado ao culto dos Voduns é chamado Hunkpame, que é o templo onde está dentro a divindade; é chefiado por um sacerdote ou sacerdotisa, que são responsáveis pelos ensinamentos aos futuros Vodunsis.

No Rio Grande do Sul, os terreiros que ainda mantém firme a cultura Jêje, nota-se a conservação de certas obrigações, à exemplo, nos assentamentos de Ogum Avagã cujas ferramentas usadas são as mesmas para o assentamento de Gu no Dahomé, e algumas não tem o uso do okutá; e também há nomes de Orixás que usam o mesmo dos Voduns, como por exemplo Dã, cujo Orixá de uma famosa Yalorixá da nação Jêje chamava-se Dã e um outro antigo Babalorixá de Porto Alegre pertencente a esta mesma nação, tinha o assentamento de Sobô; (Sobô é nome de um Vodun do Dahomé). Dos pais e mães de santos actuais, da nação Jêje do Rio Grande do Sul, muitos desconhecem a palavra Vodun; deve-se este fato ao predomínio da nação Ijexá, de origem Yorubá que acabou absorvendo as demais, e o termo Vodun com o tempo deixou de existir; mas é certo que a linguagem usada nos cantos rituais e o uso dos aquidavís para percussão dos tambores, o uso do Gã (gonguê) (instrumento de percussão), entre outros fatos reflectem muito os fundamentos do antigo Dahomé.

Há casos em que as tradições culturais africanas resistem, mais que em outros, à mudança, mas em nenhuma instância, nem mesmo nos terreiros mais antigos e ostensivamente zelosos à suas origens, deixou de existir, contudo, se tivesse, no sul um maior interesse em pesquisar a origem dos fundamentos de cada nação é certo que achariam a ligação directa do jêje praticado aqui, com os povos do antigo Dahomé, e assim por diante.

O que sobrevive da vertente jêje como legado cultural acha-se incorporado ou associado ao acervo Yorubá, embora não se fale em Vodu no Rio Grande do Sul, certas práticas da religião do antigo Dahomé, hoje Benin, podem ser detectadas no Batuque do Rio Grande do Sul, principalmente nos terreiros que fazem parte da raiz do falecido Joãozinho de Bará (Esú Biyí).

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Apenas faço observação ao termo jeje-nagô utilizado no texto, que achei interessantíssimo, tirado de "Candomblé: o mundo dos Orixás", que trouxe para vocês, leitores do blog. Em outro post vimos que o império iorubá anexou o povo de Daomé. Veja o mapa do império de Oió no século VXIII. Com essa anexação do território daometano ao ao império iorubá, houve uma grande fusão cultural, com a assimilação de elementos da religião fon ao povo iorubá e vice-versa. Portanto, ao Brasil, quando o povo iorubá chegou escravizado após a decadência de Oió,veio com ele a cultura jeje-nagô. Diz-se que, inclusive, o universalizado uso do kelê era restrito aos rituais a Xangô. Da mesma forma, Nanã (geradora da dicotomia Mawu-Lissa) era uma divindade daometana. Quando os iorubás (que fundaram o candomblé Nagô - e a dissidência Keto) vieram para o Brasil, trouxeram o produto da expansão iorubá na África. A tradição que decorreu da assimilação das divindades nagô pelos jeje foi a nagô-vodum.

Na foto, Mawu, princípio masculino complementar a Lissa. Material retirado de gerados por Nanã. Retirado do blog Myths and Legends.

Mandamentos de Ifá (1ª parte)


O texto a seguir tem autoria desconhecida. Assim que tivermos certeza da fonte, faremos referência à mesma de acordo com as orientações dos autores.

Na foto, Ifá por Carybé.



1º Mandamento
Um sacerdote não deve enganar ao seu semelhante acenando com conhecimentos que não possui. E jamais dizer o que não sabe, ou seja, passar ensinamentos incorretos ou que não tenham sido transmitidos pelos seus mestres e mais velhos ou adquiridos de formas legítimas. É necessário o conhecimento verdadeiro para a prática da verdadeira religião.

Significado:

Quem abusa da confiança do próximo, enganando-o e manipulando-o através da ignorância religiosa, sofrerá graves conseqüências pelos seus atos. A natureza se incumbirá de cobrar os erros cometidos e isto se refletirá em sua descendência consangüínea e espiritual.


2º Mandamento
O sacerdote deve saber distinguir entre o ser profano e o ser sagrado, o ato profano e o ato sagrado, o objeto profano e o objeto sagrado.

Significado:

Não se pode realizar rituais sem que se tenha investidura e conhecimento básico para realizá-los. Chamar a todos, é considerar a todos, indiscriminadamente, como seres talhados para a missão sacerdotal, o que é uma inverdade ou, o que é pior, uma manipulação de interesses. Da mesma forma que nem todas as contas servem para formar-se o colar de uma divindade (como as contas sagradas), nem todos os seres humanos nasceram fadados para a prática sacerdotal. Para ser um sacerdote são necessários inúmeros atributos morais, intelectuais, procedimentais e vocacionais. A simples iniciação de um ser profano, desprovido destes atributos básicos e essenciais, não o habilita como um sacerdote legítimo e legitimado. Da má interpretação e inobservância deste mandamento resulta a grande quantidade de maus sacerdotes que proliferam hoje em dia dentro do Culto. Observa-se a diferença entre “ser sacerdote” e “estar sacerdote”. Aquele que se submete à iniciação visando tão somente o status de sacerdote, jamais será um verdadeiro sacerdote. Estará sacerdote, cargo adquirido pela iniciação, mas jamais será sacerdote, condição imposta por sua vocação, dedicação, espiritualidade e desprendimento. Caberá ao sacerdote iniciador do neófito consultar Fá, com muito critério, para apurar se aquele noviço será realmente digno do sacerdócio.


3º Mandamento
O sacerdote nunca deve desencaminhar as pessoas dando-lhes maus conselhos e orientações erradas.

Mensagem:

É inadmissível que um sacerdote se utilize do seu poder e do seu conhecimento religioso para, em proveito próprio, induzir ao erro aqueles que o cercam. Ao agirem desta forma, assumem a postura das aves noturnas que, nas trevas, saciam suas necessidades com o sacrifício e o suor alheio. Dar maus conselhos e orientações erradas é expor as pessoas aos perigos de energias maléficas e sem controle. Uma das mais importantes funções do sacerdote é orientar seu discípulo, conduzindo-o ao caminho correto, ao encontro da felicidade, de acordo com os ditames estabelecidos por seu destino pessoal e de seus ancestrais protetores.
Quem chega aos pés de Òrúnmìlá para consultar seu oráculo em busca de soluções, deve ser orientado pelo sacerdote corretamente, independente do interesse deste como olhador. A pessoa que chega com um problema deve ter seu problema solucionado e não vê-lo acrescentado de outros criados artificialmente com o fito de proporcionar a quem a consulta, vantagens financeiras ou possibilidade de conquistas e abusos sexuais.


4º Mandamento
Tudo deve ser feito de acordo com os ditames e os preceitos religiosos. A simples troca de uma simples folha pode ocasionar conseqüências maléficas ou tornar sem efeito um grande ritual da mesma forma que as folhas do Labá (Arágbà para os Nàgó) não são iguais às folhas de Ahoho (Akókò para os Nàgó).

Interpretação:

O sacerdote não pode, em nenhuma condição, utilizar-se de falsos recursos, fornecendo coisas sem validade religiosa como elementos de segurança ou de culto. Os procedimentos litúrgicos devem ser observados integralmente e a ninguém cabe o direito de fazer “isto” por “aquilo” quando em “aquilo” é que está a solução.
Aquele que utiliza de meios escusos e enganosos contra seus semelhantes, será culpado do crime de abuso de confiança. Aquele que usa de artifícios e mentiras contra as pessoas inocentes e de bom coração provoca o descontentamento de Òrúnmìlá e a conseqüente ira de Legbà.
Cada ser espiritual possui um nome individual, de acordo com a determinação de Yàvóvòdún. Da mesma forma, cada Legbà possui nome e identidade própria, assim como atributos específicos. É inadmissível, portanto, que este mediador tão sagrado e importante dentro do culto, seja assentado e entregue de maneira irresponsável, e que aqueles que a recebem permaneçam ignorantes do seu nome, qualidade, forma de tratamento e especificidade de função.

“Òrúnmìlá é aquele que nos olha com amor, não façamos por onde o mesmo possa nos olhar com desprezo”.


5º Mandamento
O saber é fundamental para quem quer fazer. Para tanto, é necessário o poder, que só o conhecimento pode outorgar.

Interpretação:

Um sacerdote não pode proceder a liturgias para as quais não seja habilitado através do processo iniciático ou cuja prática desconheça ou domine apenas parcialmente. Um sacerdote não deve ostentar uma sabedoria que na verdade não possua. Procurar saber não avilta, mas, pelo contrário, exalta o ser humano. O saber é condição básica para que se possa fazer. E todo ritual deve ser feito integralmente e com legitimidade total. Se houver dúvidas sobre algum procedimento, deve-se pesquisar profundamente sobre ele. Cabe ao sacerdote ensinar tudo o que sabe àqueles que o cercam e que nele confiam. A sonegação de ensinamentos corretos e completos implica na responsabilidade da prática de suicídio cultural. Da mesma forma, buscar orientação em quem sabe nada tem de humilhante e enaltece tanto àquele que busca como ao que fornece a orientação. A verdadeira sabedoria consiste na consciência da própria ignorância. Não existe ser neste mundo que saiba tudo!

“Deus não deu ao ignorante o direito de aprender sem antes tomar de quem sabe a obrigação de ensinar”.


6º Mandamento
Humildade e desprendimento são atributos indispensáveis de um verdadeiro sacerdote.

Interpretação:

Um sacerdote não deve ser vaidoso de seus poderes, mas consciente deles. E não deve agir somente visando o próprio benefício, existe para servir e não para ser servido. A vaidade transforma o homem fraco de espírito num pavão que faz questão de exibir sua bela plumagem sem a consciência de que é a sua beleza que, despertando a atenção de terceiros, irá provocar a sua morte. Num Fádù (caminho de Ifá) encontramos narrativas que falam do exibicionismo do pavão que, ostentando a beleza de sua plumagem, atrai para si a atenção de todos que, depois de sacrificá-lo, transformam suas penas em belos leques e adornos. O verdadeiro sacerdote, o eleito pela divindade, não se preocupa em exibir seu poder nem o seu saber em disputas vãs e inconseqüentes. Acumula em si uma grande carga de sabedoria que transmite com dedicação a quem merece saber. O exibicionismo é um dos maiores defeitos num ser humano e inadmissível a um sacerdote. Já dizia o velho jargão: “Num burro carregado de açúcar, até o suor é doce”.

É assim que, aos olhos do sábio, parecem os exibicionistas: “burros carregando açúcar”.


7º Mandamento
As boas intenções devem prevalecer acima de tudo. A casa das divindades é o templo onde a iniciação é obtida.

Interpretação:

A iniciação não pode ser motivada por interesses que não sejam puramente religiosos. As verdadeiras intenções do iniciando devem ser cristalinas como a água pura. E desprovidas de qualquer outro objetivo que não seja servir à humanidade. Querer iniciar-se no culto por simples vaidade, para obter status social ou ostentar títulos sacerdotais é profanar o sagrado. Aquele que profana o sagrado tabernáculo das divindades, movido por qual for o motivo, pagará com duras penas o sacrilégio praticado. O conhecimento corresponde às responsabilidades que nem todos estão preparados para assumir. O conceito mais amplo simboliza a atitude de um predador que esconde suas garras procurando adquirir a confiança de sua vítima para ter base de agir no momento mais propício aos seus objetivos. A mesma responsabilidade assume aquele que inicia pessoas que não possuam os requisitos básicos exigidos para tal, visando aí, a simples vantagem financeira.

É muito melhor errar por não saber do que saber e persistir no erro.



8° Mandamento
A pena chamada Akpenin (ekodidé para o povo Nàgó) é um dos símbolos mais sagrados dentro do culto e, por este motivo, jamais deverá ser aviltada.

Significado:

Os sagrados fundamentos não podem ser usados com objetivos vãos. Os tabus devem ser integralmente observados sob pena de severas conseqüências. O sacerdote deve submeter-se de bom grado às interdições impostas por seu Fádù ou Odù pessoal, assim como aos tabus de sua divindade protetora. A observância destes ditames está diretamente ligada ao estado de submissão às divindades cultuadas. A obediência total às orientações de Fá conduz o homem à plenitude das bênçãos. Utilizar-se dos sagrados conhecimentos de forma leviana corresponde a profanar o sagrado. Não se deve utilizar o conhecimento para prejudicar a quem quer que seja. A prática do mal, invariavelmente, apresenta resultados mais rápidos, mas conduz a caminhos tortuosos que não têm volta. Da mesma forma, aquele que se utiliza deste conhecimento visando unicamente auferir vantagens econômicas, está em desacordo com os sagrados ditames e será responsabilizado por isto.

“Tornar vil um símbolo de iniciação como o Akpenin” é o mesmo que usar coisas sagradas com objetivos condenáveis e fúteis.

Mandamentos de Ifá (2ª parte)

9° Mandamento
A sujeira e a falta de higiene são incompatíveis com o rito.

Significado

Os Elementos sagrados, indispensáveis ao ritual, hão de ser sempre muito puros e limpos. Da mesma forma, tudo deve ser limpo, os instrumentos, os ambientes, os assentamentos e principalmente, as atitudes. É inaceitável a falta de limpeza e de higiene em qualquer aspecto, quer seja físico, ambiental ou moral. O sacerdote deve ser escrupuloso com tudo. Seus instrumentos litúrgicos, os altares das divindades cultuadas, seus trajes, seu corpo, suas atitudes e seu caráter hão de permanecer, sempre, impecavelmente limpos. Nenhum Vòdún admite a sujeira, seja ela física ou moral.


10º Mandamento
Tudo aquilo que antecede a um rito e que a ele faça referência, deve ser realizado com limpeza e religiosidade.

Significado:

Da mesma forma que o ritual deve ser cercado de cuidados de limpeza, a confecção das comidas e oferendas deve seguir os mesmos princípios. Preparar as comidas ritualísticas é também um rito e deve ser realizado em total circunspeção e concentração religiosa. Durante a preparação das ofertas e comidas ritualísticas a atitude de quem dela participa deve ser a mesma de quem participa do ritual em si. É inadmissível que, neste momento sagrado, as pessoas estejam consumindo bebidas alcoólicas, falando coisas vulgares, discutindo, brigando ou tentando exibir seus conhecimentos, humilhando a quem sabe menos. A postura será sempre sacerdotal, o silêncio e a concentração devem ser mantidos e, ensinar a quem não sabe ou a quem sabe menos, é uma obrigação sagrada.


11° Mandamento
Não se deve retirar a bengala de um cego. (A bengala de um cego substitui seus olhos e indica os obstáculos que se interpõem em seu caminho).

Significado:

O sacerdote não pode prevalecer-se de sua carga de conhecimento para humilhar ou confundir a ninguém. O sacerdote há de ter o mais profundo respeito pelos que sabem menos. Ninguém tem o direito de descaracterizar o que os outros sabem e acreditam. Abalar a fé de quem sabe pouco ou nada sabe, é retirar a bengala de um cego, deixando-o sem qualquer orientação nas trevas em que caminha. Uma das mais importantes missões do sacerdote é ensinar e orientar. Muitas vezes surgem pessoas que nada sabem e julgam saber. É neste momento que o sábio aflora no sacerdote e a orientação correta e o ensinamento certo são passados, com doçura, sutileza e humildade, sem melindrar a quem os recebe e sem provocar confusões em sua cabeça. Tudo deve ser ensinado com clareza e lógica. O Sacerdote, no exercício de seu sacerdócio, assume também a missão de mestre.


12° Mandamento
Não se retira o bastão de um ancião. (O bastão do ancião representa o acúmulo de experiências adquiridas nos longos anos em que viveu).

Significado:

Deve-se respeitar e tratar muito bem aos mais velhos, principalmente os mais antigos na religião. O respeito aos mais velhos é um dos principais fundamentos de uma religião onde, reconhecidamente, antigüidade é posto. Faltar-lhes com o devido respeito e atenção é como lhes retirar o bastão em que se apóiam. Aquele que sabe respeitar, acatar e amar aos seus mais velhos, sem dúvida receberá o mesmo tratamento quando também caminhar apoiado no seu próprio bastão. Os velhos, pelas experiências vividas, representam verdadeiros mananciais de sabedoria onde cada um deve procurar beber um pouco, saciando a sede de saber. São livros sagrados, cujas páginas devem ser lidas com paciência e carinho. Uma religião que, durante séculos incontáveis, teve seus fundamentos transmitidos oralmente, deve valorizar sobremaneira, aqueles que são depositários destes conhecimentos. Um velho, por mais obtuso que possa parecer à primeira vista, sempre terá algo, obtido nos longos anos vividos, a ensinar. Devemos lembrar sempre que, se antigüidade é posto, saber é poder!


13° Mandamento
O Sacerdote, como homem de bem, deverá pautar sua vida de acordo com os ditames das leis dos homens e das sagradas leis de Fá.

Significado:

Pugnar pela obediência às leis é uma das obrigações de um sacerdote que, neste sentido, deve também orientar os seus seguidores. Da mesma forma, as leis de Fá, devem ser observadas integralmente e a ninguém cabe o direito de manipulá-las em benefício próprio ou de outrem. O homem religioso não pode viver à margem da lei e da sociedade da qual deve fazer parte como célula importante.


14° Mandamento
Os amigos devem ser respeitados e uma amizade não pode ser traída.

Significado:

A sentença busca valorizar o sentimento de amizade que deve ser pautado sempre, no respeito mútuo e na reciprocidade ética, que em hipótese alguma, podem ser esquecidos. “Um amigo vale mais do que um parente”. Esta afirmativa da sabedoria popular fundamenta-se no fato de que os parentes nos são impostos pelo destino, ao passo que, os amigos, cabem-nos escolher dentre as inúmeras pessoas que surgem no decorrer de nossas vidas. Se os elegemos de livre e espontânea vontade os nossos amigos, por que traí-los? Por que não dar a eles o mesmo tratamento que gostaríamos que nos dessem? Conservar as amizades e tratá-las com respeito e carinho é, acima de tudo, uma demonstração de sabedoria. As amizades devem ser cultuadas e ninguém deve criar animosidade entre amigos colocando em risco uma relação que pode representar um grande tesouro.
“Mais vale um amigo na praça do que dinheiro no banco”.


15° Mandamento
Não se deve usar a religião para motivar a guerra e a separação dos homens.

Significado:

A religião tem por finalidade única unir os homens através do criador. Não é concebível, portanto, que possa ser utilizada como elemento apartador dos seres humanos. Mesmo no âmbito de uma mesma religião pode-se verificar a atuação de pessoas que, de forma nefasta, e visando seus próprios interesses, jogam uns contra os outros, semeando a desconfiança e a discórdia entre sacerdotes, irmãos e adeptos. Muitas guerras, têm feito derramar o sangue de inocentes, enlutando famílias e propagando a dor e o pranto.A motivação religiosa que as incentiva é, no entanto, uma máscara para o seu motivo real: a obtenção do poder. O verdadeiro sacerdote deve pugnar pela união dos homens, independente de seu credo religioso. Deus é um só e todos os homens são seus filhos e, por conseqüência, irmãos entre si. Da mesma forma, os sacerdotes de uma mesma religião devem agir dentro de uma ética que os impeça de falarem mal uns dos outros, utilizando-se de meios condenáveis para atrair os seguidores de outros templos coirmãos.


16° Mandamento
Nunca faltar com respeito com um outro sacerdote. Todos aqueles que possuem cargos religiosos são importantes e dignos de respeito.

Significado:

Uma única palavra pode sintetizar o 16º mandamento de Fá: “Ética”. Os sacerdotes, independente de funções e hierarquia, devem respeitar-se mutuamente. A falta de ética entre os sacerdotes de nossa religião, muito tem colaborado para o seu enfraquecimento e falta de credibilidade pública. O sacerdote dotado de postura ética religiosa, jamais abre a boca para apontar erros e defeitos em seus irmãos. Se os constata, procura corrigi-los de forma sutil e, se possível, despercebida aos olhos alheios, sem alardear aquilo que considera errado. Muitas pessoas tentam encobrir os próprios erros e esconder a própria incompetência, apontando, de forma espalhafatosa, o erro e a incompetência dos outros. Esta é uma atitude incorreta que só tem prejudicado e impedido um maior desenvolvimento da nossa religião no Brasil.

Podem-se ouvir todas as noites, em programas de rádio produzidos e apresentados por pessoas do culto verdadeiros absurdos praticados em nome de nossa religião. As pessoas que se ocupam neste tipo de divulgação deveriam refletir um pouco mais sobre sua atuação e os malefícios que produz, não somente aos alvos de suas críticas, na maior parte das vezes exageradas e motivadas por problemas de ordem pessoal, mas na religião como um todo que, a cada divulgação enganosa feita, cai no descrédito e na execração pública. Cada denúncia divulgada publicamente representa uma nova arma para o arsenal dos detratores de nossa religião.

A seleção será feita, naturalmente, por Lùmílá (Òrúnmìlà dos povos Nàgó) e pelos Vòdún’s, através da ação de Legbà. Só a eles cabe julgar o que é certo e o que é errado. Só a eles cabe separar o joio do trigo.



Mεjìtó Dànsú.

sábado, 25 de outubro de 2008

II CAMINHADA DO POVO DE TERREIRO - Recife

O evento, que será realizado no dia 04 de novembro, abrirá as comemorações do Mês da Consciência Negra, tendo o apoio da Prefeitura do Recife. A caminhada terá concentração a partir das 15h, na Praça Osvaldo Cruz, bairro da Boa Vista, com destino ao Pátio do Carmo, percorrendo a avenida Conde da Boa Vista. A idéia é reunir os terreiros de toda a Região Metropolitana do Recife, ampliando o número de participantes.

A caminhada terá como mote a Educação, por conta da implementação da Lei 10.639, que trata sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira nas salas de aula. “Nós vemos que a Educação é um instrumento para combater a intolerância religiosa, trazendo para toda a população, em especial para os jovens, o conhecimento sobre as religiões de matriz africana, para que haja mais esclarecimento e menos preconceito”, explicou Rosilene Rodrigues, da Gerência de Igualdade Racial da Secretaria de Direitos Humanos e Segurança Cidadã do Recife.

Ainda segundo ela, durante a última reunião foi aprovado o documento que será entregue à população no dia da caminhada, explicando o que é e quais os objetivos do evento. “Além disso, a comissão de organização relacionou uma lista de possíveis parceiros para a caminhada”, informou. A próxima reunião será realizada no dia 17 de setembro, às 15h, na sede do Conselho Municipal da Mulher, localizado no edifício Igarassu, situado na Praça do Carmo, no bairro de Santo Antônio.

Pessoal, é muito importante a participação de todos nós, adeptos ou simpatizantes das religiões afrodescendentes ou, simplesmente, daqueles que apóiam a liberdade de crença, que defendem a liberdade de pensamento.

Pela internet, recolhi trechos de matérias sobre a I Caminhada, no ano passado, para vocês sentirem um pouco do valor que tem manifestações deste tipo, e como é preciso que nos unamos em torno desse objetivo.

Na foto, a avenida Conde da Boa Vista, centro do Recife, a partir da Ponte Duarte Coelho. http://foto.raulkw.com.br/


FOLHA DE PERNAMBUCO
Religiões afros pedem passagem

“Ará agô bíye axé”. Do yorubá ao português, “o povo pede licença com orgulho da força”.
No contexto do manifesto que parou o trânsito nas avenidas do centro do Recife na tarde de ontem, o povo esteve representado pelos seguidores dos cultos afro-religiosos. O ‘orgulho da força’ denotou a adoração dos fiéis aos deuses orixás. Já o ‘pedir licença’ foi o principal motivo da caminhada: o fim da intolerância religiosa.
O Manifesto dos Terreiros de Matriz Africana, na luta contra todas as formas de preconceito e intolerância religiosa, reuniu seguidores do Candomblé, Umbanda, Kimbanda e diversas nações como Nagô, Ketu, Jurema e Angola. Música, dança, rezas, lavagem das ruas com ervas-de-cheiro e o grito pela liberdade puderam ser vistos na caminhada, que marcou o início do Mês da Consciência Negra, instituído em razão da morte de Zumbi dos Palmares em um 20 de novembro. “Ao invés de invasão aos nossos terreiros e humilhações públicas, nós desejamos o interesse no conhecimento e respeito a toda diversidade”, afirmou Elza Torres, mais conhecida como Mãe Elza.
Uma multidão acompanhou de perto as manifestações. No trânsito das avenidas Conde da Boa Vista, Guararapes e Dantas Barreto, alguns demonstraram impaciência pelo tráfego parado. No entanto, a maioria aprovou a passeata. Foi o caso da professora Tereza da Conceição. “Cada um tem o direito de ter e manifestar sua religião. Se eu estivesse no lugar deles, também desejaria o respeito e a atenção”, revelou. A caminhada teve fim no Pátio do Carmo.



JORNAL DO COMMERCIO
Consciência Negra


Cerca de três mil adeptos da umbanda e candomblé participaram ontem da I Caminhada de Terreiros de Matriz Africana, no Centro, para dar um basta à discriminação e à intolerância religiosa. O ato marcou a abertura do mês da Consciência Negra.


DIÁRIO DE PERNAMBUCO
Mães-de-santo fazem ato no centro

Primeira Caminhada de Terreiros de Matriz Africana chamou atenção para a intolerância religiosa da sociedade
Jane tem 60 anos de vida. Ontem ela saiu de casa com seu vestido branco, colares coloridos e brincos dourados. Maquiagem leve e batom vermelho. Estava pronta para a uma celebração histórica. "Pela primeira vez, estou saindo para as ruas, estou vindo gritar pelo meu povo, pela tolerância religiosa. Para mim, é um dia de glória", disse uma emocionada Jane. Ali, Mãe Jane. Cinqüenta anos de "santo". Um dos símbolos maiores dos Terreiros de Matriz Afriacana em Pernambuco. Filha de família católica, aluna de colégios de freias, aos 8 anos diz que começou a receber as primeiras "manifestações". A repressão começou dentro de casa. A sua luta também. Em cima de um trio elétrico, por volta das 18h, em uma movimentada e congestionada Avenida Conde da Boa Vista, Mãe Jane discursou sua ideologia religiosa. Cantou para Ogun. Falou dos seus deuses. No asfalto, centenas de adeptos das religiões africanas a acompanhavam. Representavam 30 grupos de candomblés do estado. Nas calçadas, nos ônibus, nas janelas dos edifícios, por trás das vitrines das lojas, todos paravam para ver. Aquela era a primeira Caminhada de Terreiros de Matriz Africana que seguia pelo Recife. Claro que não era difícil flagrar alguns olhares desconfiados, jovens de mochilas nas costas dançando com visível ironia no ritmo dos batuques, ou mesmo quem comentasse baixinho que aquilo era coisa de macumbeiro. Exceções particulares. Se o discurso do movimento - que inevitavelmente fala de resistência histórica, da escravidão e da perseguição das ditaduras políticas - pedia respeito, pode-se dizer que encontrou o que buscava pelo caminho. Encontrou uma sociedade aberta, sem qualquer demonstração pública de rejeição ou enfrentamento ideológico. Era o Dia de Todos os Santos. Mãe Jane possui a 40 anos um Terreiro na Cidade Tabajara, em Olinda: o Ileaxéloya Egunyta. Em quatro décadas viu as mudanças na relação entre os Terreiros e a sociedade - sobretudo dentro das comunidades em que estão instalados. Hoje ela se divide entre religião, política e ações sociais e culturais. Participa ativamente de dezenas de movimentos. Recebe cestas básicas e leite do governo e tem o dever de distribuí-los entre outros centros religiosos. Dentro da sua casa, criou um núcleo de informática para capacitar jovens carentes. E ainda organiza campeonatos de futebol e festas folclóricas (como quadrilhas de São João) na comunidade. Todo esse trabalho tende a se intensificar com o Mapeamentos dos Terreiros, que vem sendo realizado pelo governo do estado - justamente para poder investir no potencial social desses locais. "Ainda assim, sou muito criticada. E ainda há muita repressão contra as religiões de matriz afriacana. Muitos católicos e evangélicos vão ao terreiro, mas não revelam. Como se estivessem fazendo algo errado", conta Mãe Jane.O sincretismo religioso - revelado por Jane - surgiu desde a época da escravidão. A aproximação com o catolicismo foi uma espécie de forma encontrada pelos escravos para resistir a perseguição. "Ainda existem muitos que se dizem católicos, mas que são adeptosdo candomblé e têm vergonha de assumir", completa Pai Ivo, do Terreiro Xambá, no Quilombo do Portão do Gelo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Òrişà ou Orixá?



Somos parte de uma religião de tradição oral. Todo o conhecimento sobre o Candomblé foi guardado através apenas da palavra pensada e falada. Do idioma do povo jeje-nagô, criador no Brasil do Candomblé, tem-se os primeiros registros escritos no século XIX. Assim, o conhecimento candomblecista é transmitido tradicionalmente de forma oral.

Mas e agora, quando chegaram os livros, as apostilas e a comunicação por meio virtual, onde o maior fluxo de informação é através da grafia, como proceder?

O idioma ioruba, apesar de muita gente pensar o contrário, é uma língua viva e falada por milhões de pessoas no mundo. É uma dos cinco idiomas nativos mais falados na África. Apesar de para os nativos do português, estarem acostumados a tantos acentos graves, agudos e diferenciais (que a reforma ortográfica prevista vai retirar boa parte, infelizmente para esse que vos fala), a distância nas características da grafia, da acentuação e pronúncia, dificultam o aprendizado.

Em 1938, um decreto do presidente Getúlio Vargas tornou “obrigatório o uso da ortografia resultante do acordo” ortográfico entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa no expediente das repartições públicas e nas publicações oficiais de todo o país, bem como em todos os estabelecimentos de ensino, mantidos pelos poderes públicos ou por ele fiscalizados. É o que vale ainda hoje, com as novidades introduzidas pelo acordo de 1943, quando passaram a vigorar as Instruções para a organização do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Continuará valendo com as novidades que começarão a valer no próximo ano.

O Vocabulário Ortográfico determina como devem ser escritas (e, em alguns casos, pronunciadas) as palavras da língua portuguesa no Brasil, tanto as que entraram com a bagagem dos colonizadores como as aqui forjadas e as importadas de outros idiomas. “Todos os vocábulos devem ser escritos e acentuados graficamente de acordo com a ortoépia usual brasileira e sempre seguidos da indicação da categoria gramatical a que pertencem.”

“Indispensável se torna que o vocábulo exótico, ao entrar no português, se expunja desde logo de todos os estigmas, que lhe assinalam a ascendência, isto é, da marca exótica, do cunho alienígena, e sofra a naturalização, transplantação ou aclimação, vestindo-se dos característicos idiomáticos, adaptando-se à mesma forma daqueles com que vem concorrer, assumindo na república de palavras, que é o vocabulário ou léxico, a cor ambiente, a feição mesológica, o tipo ou a fácies consentânea com a fisionomia da língua do país.” Napoleão de Almeida, na Gramática Metódica da Língua Portuguesa.

Se instituições como ABL, permanecem distantes da realidade da maioria da população, são lançados por outras empresas, seus manuais de redação, como faz o grupo Folha, construindo o português coloquial para a comunicação com as “massas” através de jornais, revistas, Internet, rádio, etc.

Palavras estrangeiras
- Não use se houver equivalente em português. A Folha considera sua função criar esses equivalentes sempre que possível, ou aportuguesar a grafia de palavras de outras línguas.
Novo Manual de Redação da Folha de São Paulo

Marginalizado e taxado de religião de pessoas ignorantes, o Candomblé busca cada vez mais se colocar no lugar que lhe é direito dentro da sociedade. Com isso, muitos membros buscam uma africanização, em um movimento que lembra o Armorial, onde se garimpa uma erudição que a faria mais respeitada em níveis acadêmicos e em outras rodas sociais onde a cultura candomblecista era tradicionalmente barrada. No movimento Armorial, o foco é no brasileiro, em especial, no sertanejo nordestino, este com suas raízes plantadas na Europa, mas não um europeu. No movimento negro, o foco se perde, rejeitando a brasilidade em nome de uma africanidade costurada em retalhos.

O blog Povo do Axé opta pela grafia aportuguesada dos termos, exceto para nomes próprios, que não são possíveis de aportuguesar.

As guardiãs dos segredos

Esta postagem é uma homenagem a todas as mulheres que dedicaram e dedicam a sua vida ao Candomblé. Essas mulheres são mãe duas vezes: mãe dos filhos que parem e dos iaôs que criam, filhos dados pelos Orixás, Voduns ou Inquices, filhos dados por Olorum.








Ialorixá Gersina de Xangô
Nação Nagô







Ìyá Valencia t´Oyá
Filha do Doté Lula de Oyá / Abassa t´Oyá Egbale - Nação Jeje/Nagô-vodum




Ialorixá Inanlocy de SangôGersina de Xangô
NFilha do babá Roberto de Ayrá - Nação Ketu



Ialorixá Ceça de Obá
Ìlé Asé Osún Opará / Nação Djeje





















Doné Eliane de Oyá Onira
Ilê Asé Ayrá Adjáosi














Ialorixá Sheirly da Oxum
Terreiro de
Culto Africano Orixalá Ebolorim
Nação Nagô














Ial
orixá Nilza de Oxum
Tradição Jeje-Nagô






















Ialorixá Lucia de Ogum
(in memorian)
















Ialorixá Lu de Oxa
Ilé Asé Osún Opará




















Ialorixá Lia de Oxum Opará
Ile Ase Osun Opará / Nação Nagô




















Ialorixá Leide de Iemanjá
Abassa t´Oya Igbale / Tradição Jeje-Nagô















Mãe Zeza de Iemanjá
Ilé Asé Osún Opará














Ialorixá Elda de Oxósse Gongobira
Macaia Ylê do Oxossi Gongobira




















Mãe Janda
(in memorian)
Ilé Obá Ogunté (Sitio Pai Adão / Nação Nagô
)









Mãe Diva de Obaomi
Ìlé Axé Obaolossá /Nação Nagô















Ialorixá Maria de Oxum Opará
(in memorian)
Ìlé Asé Orí Omi Osún Opará / Nação Jeje




















Ialorixá Graça de Oxum
Abassa t´Oya Igbale / Nação Jeje - Nagô-Vodum
















Pernambuco, a terra dos xangôs

Por estas terras, o nome do Orixá rei da cidade de Oió virou rótulo do culto afro-brasileiro de origem iorubá. Mas será que só por aqui? Para refletirmos sobre o que fez dos pernambucanos “xangozeiros” é preciso ir buscar fontes históricas.

"No seu auge, o império de Oió englobava as mais importantes cidades do mundo iorubá, tendo assim o culto a Xangô, que era o orixá do rei ou obá de Oió, portanto o orixá do império, sido difundido por todo o território iorubano, o que não era muito comum, pois cada cidade ou região tinha os seus próprios orixás tutelares e poucos eram os que recebiam culto nas mais diversas cidades, como Exu, Ossaim e Orunmilá. O fato é que o apogeu da dominação da cidade de Oió sobre as outras resultou numa grande difusão do culto a Xangô. Durante muito tempo a força militar de Oió protegeu os iorubás de invasões inimigas e impediu que seu povo fosse caçado e vendido por outros africanos ao tráfico de escravos destinado ao Novo Mundo, como acontecia com outros povos da África. (Na foto, o Império de Oió no auge da sua expansão, no século XVIII).

“Quando o poderio de Oió foi destruído no final do século XVIII por seus inimigos, tanto a capital Oió como as demais cidades do império desmantelado ficaram totalmente desprotegidas, e os povos iorubás se transformaram em caça fácil para o mercado de escravos. Foi nessa época que o Brasil, assim como outros países americanos, passou a receber escravos iorubás em grande quantidade. Vinham de diferentes cidades, traziam diferentes deuses, falavam dialetos distintos, mas tinham todos algo em comum: o culto ao deus do trovão, o obá de Oió, o orixá Xangô.”

Chegados no final do século XVIII e no século XIX, os negros não eram mais levados para o trabalho em plantações. Ficavam nas cidades, responsáveis por variados serviços dentro do espaço urbano, convivendo entre muitos negros já libertos, o que facilitava a (re)organização dos grupos sociais destruídos na África.

“A expressão “nação queto” para designar o ramo do candomblé de origem iorubá que se constituiu a partir da linhagem da Casa Branca do Engenho Velho é recente e não era usada antes de 1950. O nome mais comum era nação nagô, ou jeje-nagô. A própria Mãe Aninha, que fundou outro templo dissidente da Casa Branca, o Axé Opô Afonjá, e que, como o próprio nome indica, também é dedicado a Xangô, costumava dizer nos anos 1930: “Minha casa é nagô puro”.” Reginaldo Prandi em Xangô, rei de Oió


Assim, não há dúvida de porque o culto afro-brasileiro de origem iorubá em Pernambuco passou a se chamar popularmente de xangô. No entanto, o preconceito em relação à religião passou a transformar qualquer referência ao culto como negativa. Ser chamado de xangozeiro era, e ainda é considerado um insulto. Essa expressão não traz boas recordações aos membros, por ter sido empregada de forma tão dura e perversa. Uma casa de xangô era um lugar apontado e um xangozeiro não passava na rua ileso.

Hoje, em busca de resgatar suas raízes, é utilizado para denominar o culto, Candomblé Nagô, visto que não houve no Recife uma necessidade de rotulação ou de assumir uma identidade cultural diferente de Oió.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Bem-aventurada vossa boca, porque come


"Conta uma lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e nariz. Oiá, desobedecendo instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também, capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder". (Pierre Verger em Orixás: deuses iorubas na África e no Novo Mundo)

O poder sobre o fogo de Xangô e Oyá são revividos no Candomblé. Em ritual Nagô, Xangô dança o alujá triunfante dentro de uma grande fogueira, de onde tira brasas vivas que mastiga. Também existe uma cerimônia - raramente realizada atualmente - que encena este itan, esta lenda. Oyá, manifestada em um de seus iniciados, vem ao centro do terreiro trazendo na cabeça um tacho com azeite de dendê fervendo. De dentro tira, com as mãos, mechas de algodão em chamas e devora, em um espetáculo impressionante, as bolas de fogo.

No entanto, a vivência do Candomblé não se resume apenas a observar e se fascinar com momentos como estes. O dia-a-dia do terreiro faz parte de um ritual que recria as antigas lendas, reforçando com isso a simbiose entre os Orixás e seus filhos. E neste momento entra a culinária do terreiro.

O akará, talvez a comida de Candomblé mais conhecida fora dos terreiros, lembra as bolas de fogo que alimentam Oyá. Bolinhos de massa de feijão macassa ou fradinho, fritos no óleo de dendê, o acarajé (jé, comer) ganharam as ruas e são populares em todo o país, feitos e vendidos por pessoas que não conhecem nem se importam com a origem da iguaria. Alguns mais tradicionais apontam a profanação da receita, originalmente feita com instrumentos rudimentares para descascar e triturar o feijão, que levava camarão seco, cebola e sal, servido inteiro. Hoje, se tornou um delicioso sanduíche, recheado com camarões refogados, vatapá, caruru, salada de tomate e a pimenta que, segundo os vendedores, é o que faz ser “frio” ou “quente”.

O acarajé, já em sua forma profana, foi tombado como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sua receita e não pode mais ser descaracterizada. Sobre as origens, como disse certa vez o profeta cristão “que vejam os que têm olhos de ver, ouçam os que têm ouvidos de ouvir”. E nós, candomblecistas, completamos: comam os que têm boca para comer!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Dize-me o que comes e te direi quem és

A comida de santo é culinária brasileira que se faz africana quando materializa e alimenta todo o sistema do terreiro revivendo a África distante, sua história e suas experiências. Isso, intencionalmente, porque em nosso dia-a-dia, não deixamos de reviver o “saber fazer” africano inconscientemente nos ingredientes, nas receitas e nos modos de preparo e na maneira de comer e na forma de pensar o alimento.

O alimento é veículo de axé. No preparo da comida no terreiro, são considerados fatores como o manuseio dos ingredientes, os utensílios, a forma de cozimento, a ritualização no passo-a-passo da receita, as pessoas envolvidas na manipulação, a montagem do prato e o comportamento do próprio alimento e das ferramentas utilizadas como organismos vivos, veículos do diálogo entre homens e deuses. Na cozinha dos Orixás não se fala mais que o necessário, não se brinca, não se grita, não se canta nada estranho ao repertório do culto. Qualquer pensamento ou ato fora do propósito contamina e compromete a construção da oferenda.

A relação com o alimento chega a ser antropofágica. A comida é a comunhão entre os planos, sendo parte humana e parte divina, alimentando os dois extremos simultaneamente e estabelecendo uma ponte entre o adepto e seu orixá. Cada comida votiva é construída de elementos que fazem parte do universo elegun/Orixá (o mineral, o vegetal, o animal, além de conceitos como cores, formas, quantidades, temperaturas, etc) e, com isso, reforça o axé que circula entre os dois. Orixás e seus filhos se alimentam um do outro. Não há criador sem criatura.

As matriarcas pernambucanas

Após a criação do mundo, cada Orixá escolheu um domínio na natureza. Nanã escolheu o barro e a lama dos pântanos. E dessa terra molhada, a carne fértil do planeta, foi moldado o homem que então, recebeu o emi, o sopro da vida.

Nanã é símbolo do matriarcado, uma das divindades mais antigas dos panteões africanos que se instalaram no Brasil. Representa o poder feminino que luta e defende seus domínios da intervenção masculina. Seu culto teve origem nos povos Fon, da região africana de Daomé, cujos povos escravizados vieram para o Brasil em meados do século XVII e receberam o apelido de "jeje". Na mitologia jeje Nanã deu à luz um casal de gêmeos, Mavu
e Lissá, o princípio feminino representado pela lua e o masculino pelo sol, respectivamente. Os eclipses eram o sinal de que Mavu e Lissá estavam fazendo amor, e deles nasceram todos os voduns (divindades fon).

O Candom
blé brasileiro seguiu sob a proteção de Nanã, tendo como característica sociedades matriarcais. Existem teorias que afirmam que a mulher escrava era alforriada antes dos homens, o que lhes colocava em condições de se dedicar mais à religião. Na África, berço do Candomblé, os homens eram os líderes políticos e religiosos. Pierre Verger em Notas sobre o culto dos Orixás e Voduns, coloca que É mais fácil sustentar uma mulher na casa de culto do que retirar um homem do trabalho produtivo, durante meses, para este fim”. Por outro lado, também se entendia que o sexo feminino é capaz de abrigar uma pureza que o masculino não. Portanto, os homens e sua sexualidade profana eram mantidos afastados dos aspectos mais delicados do sagrado.

As sacerdotisas pernambucanas, honrando o papel de porta-vozes dos deuses na Terra, enfrentaram com a coragem e imperiosidade de Nanã as dificuldades e perseguições. O Candomblé de hoje deve-se a essas mulheres que dedicaram a vida a preservar uma fé que hoje pode ser desenvolvida com muito mais liberdade, mesmo que ainda não se possa dizer que plenamente. A elas, prestamos nossa homenagem, citando algumas das memoráveis ialorixás do nosso estado.


Mojubá. Que as senhoras, de onde estiverem, nos inspirem força para fazermos valer a pena a dedicação e o esforço exemplar que tiveram.



Dona Santa

Dona Santa (1877/1962) - consagrada a Oxum, foi uma das ialorixás mais importantes de Pernambuco como representante da cultura negra recifense. Não permitia registro de nada referente aos seus fundamentos religiosos, mas ficou conhecida como a mais famosa rainha africana do estado, pelo Maracatu Nação Elefante. Na foto, coroada, recebe os cumprimentos de Gilberto Freyre






Mãe Rosa

Ialorixá Rosa Belarmina (1898/1960). Filha de Xangô Fumilaró, da Nação Nagô, filha de escravos
, da cidade de Palmares. Foi iniciada no Recife, onde
veio morar com os pais libertos, ainda criança.










Maria de Oyá

(?/1939) - Uma das precursoras da Nação Xambá em Pernambuco, diz-seque sua morte foi decorrência direta da repressão policial da Era Vargas. Seu terreiro foi invadido, assentamentos quebr
ados, seus filhos foram presos e humilhados, acarretando profunda depressão, na qual veio a falecer.









Badia

Mãe Badia (1898/1991) uma das líderes do Axé das Tias do Patio Terço, de nação Nagô, no Recife, Badia foi uma das responsáveis pela valorização da cultura negra em Pernambuco. Uma das responsáveis pela Noite dos Tambores Silenciosos do carnaval do Recife, que relembra a coroação dos reis de Congo e celebra os ancestrais negros.












Mãe Biu


Severina Paraíso da Silva (1914/1993), filha de Ogum. Mantém viva a nação Xambá às escondidas durante o período de maior repressão, até a inauguração do terreiro
em Olinda, hoje tombado como Quilombo
Urbano Portão do Gelo, e um dos mais importantes núcleos de resistência e propagação deste povo descendente da região central da África.











Mãe Betinha


Elizabeth de França Ferreira (1909/2002), consagrada a
Yemanjá Sabá. Enfrentou forte perseguição durante o Estado Novo, chegando a ser detida e submetida a exames de sanidade mental apenas por assumir a sua fé nos Orixás. Por 65 anos preservou e promoveu a tradição Nagô.






domingo, 19 de outubro de 2008

Exu: o corpo e o movimento











EXU

Jorge Amado

NÃO SOU PRETO, BRANCO OU VERMELHO
TENHO AS CORES E FORMAS QUE QUISER.
NÃO SOU DIABO NEM SANTO, SOU EXU!
MANDO E DESMANDO,
TRAÇO E RISCO
FAÇO E DESFAÇO.
ESTOU E NÃO VOU
TIRO E NÃO DOU.
SOU EXU.
PASSO E CRUZO
TRAÇO, MISTURO E ARRASTO O PÉ
SOU REBOLIÇO E ALEGRIA
RODO, TIRO E BOTO,
JOGO E FAÇO FÉ.
SOU NUVEM, VENTO E POEIRA
QUANDO QUERO, HOMEM E MULHER
SOU DAS PRAIAS, E DA MARÉ.
OCUPO TODOS OS CANTOS.
SOU MENINO, AVÔ, MALUCO ATÉ
POSSO SER JOÃO, MARIA OU JOSÉ
SOU O PONTO DO CRUZAMENTO.
DURMO ACORDADO E RONCO FALANDO
CORRO, GRITO E PULO
FAÇO FILHO ASSOBIANDO
SOU ARGAMASSA
DE SONHO CARNE E AREIA.
SOU A GENTE SEM BANDEIRA,
O ESPETO, MEU BASTÃO.
O ASSENTO? O VENTO!..
SOU DO MUNDO,NEM DO CAMPO
NEM DA CIDADE,
NÃO TENHO IDADE.
RECEBO E RESPONDO PELAS PONTAS,
PELOS CHIFRES DA NAÇÃO
SOU EXU.
SOU AGITO, VIDA, AÇÃO
SOU OS CORNOS DA LUA NOVA
A BARRIGA DA RUA CHEIA!...
QUER MAIS? NÃO DOU,
NÃO TOU MAIS AQUI


Imagem: representação de Exu (OLeesaO/Flick)


O impulso ou vontade tem no mito do Exu, sua personificação. Exu representa o elemento humano da criação. Portanto, revela a ambigüidade da personalidade humana carregando consigo o bem e o mal, defeitos e virtudes, força e fraqueza. Por ter estas características, Exu foi muitas vezes, confundido com o diabo católico e recebe os domínio das encruzilhadas, uma alusão aos conflitos e aos caminhos a serem escolhidos na vida.
Èşù (o ş é lido com o som de x) significa "esfera", em iorubá, portanto, Exu é o movimento contínuo, permanente. Ele reúne em si o masculino e o feminino, os ancestrais, os atuais e os futuros, já que ele não tem início, meio ou fim. Suas cores são vermelhas e pretas, o ian (fio de contas) de Exu pode ser nestas cores ou com miçangas de todas as cores intercaladas. O dia de se cultuar, pedir e agradecer a Exu é a Segunda-feira.

Algumas tradições do Candomblé não iniciam pessoas para este Orixá, principalmente pela observação ao risco que elementos aos quais é relacionado oferecem. Exu trabalha como mensageiro dos orixás por sua proximidade com o comportamento humano. Neste caso, recebe o nome de Bará (Obá ará - rei do corpo). É intimamente ligado ao lado sombra da personalidade pode despertar conteúdos socialmente condenáveis da personalidade ou boas qualidades. Exu é a personificação da atuação do inconsciente sobre o consciente, é vontade, ímpeto, gana. Talvez por isso, Exu também guarde simbolicamente os portões e os caminhos (encruzilhadas). É quem permite que as coisas boas ou más cheguem às pessoas e, principalmente, que as pessoas cheguem até elas.

As forças associadas a Exu não têm a princípio, características más ou boas. No entanto, podem revestir-se de maldade ou bondade a partir da sua abordagem ser feita favorecendo ou prejudicando as leis e os costumes sociais vigentes. Exu surge nas encruzilhadas da vida e empurra o indivíduo para a decisão. São exemplos destas encruzilhadas o sexo (Exu é simbolizado por estátuas grosseiramente moldadas, de figuras humanas com grandes falos eretos), o dinheiro, o poder.

"Exu tem um caráter suscetível, violento, irascível, astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, de modo que os primeiros missionários, espantados com tal conjunto, assimilaram-no ao Diabo e fizeram dele o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção e ódio, em oposição à bondade, pureza, elevação e amor de Deus". Pierre Verger

Ele carrega consigo um grande bastão de madeira que utiliza como cetro, de formato fálico, o ogó. É um dos seus objetos-símbolo.

"Acima de Deus, nada. Abaixo de Deus, as águas"

No início Olorun vivia solitário no caos. Ao redor dele, estavam os Orixás. Olorun resolveu criar o universo. Tirou do bolso uma cabaça, jogou para o alto e gritou AIYE! A cabaça se dividiu em duas partes: o céu, Orun (Obatalá) e a terra, o Aiye (Odudua).

Obatalá e Odudua se casaram, unindo as duas metades da cabaça. Dessa união surgiu Iemanjá, e as águas cobriram todo o planeta.

Olorun, então, entregou a Odudua um saco com um pó preto, que criaria a terra firme, para que os outros Orixás pudessem vir ao mundo. Odudua ao jogar o pó, transformou-se em uma galinha d´angola e, ciscando, o espalhou criando os continentes. Surgiu Aganju, a terra firme.

Obatalá fez brotar então um grande dendezeiro, por onde todos os Orixás puderam vir a terra. E cada um recebeu o domínio sobre um aspecto da natureza criada por Olorun.

A frase que dá título à postagem é atribuída a Mãe Menininha, famosa líder do terreiro do Gantois, a ialorixá mais famosa que o Brasil já teve. Para os iorubás, povo que deu origem aos cultos keto, nagô, efon, ijexá, entre outros, assim foi criado o mundo. O mito se assemelha bastante às teorias de outras religiões sobre a criação e os elementos presentes nele servem de base para compreendermos vários símbolos presentes nos cultos candomblecistas.

Para iniciar o blog, não havia forma melhor, que "começar pelo começo". Então, este é o início de tudo.

Motumbá

sábado, 18 de outubro de 2008

Axé - palavra inicial

Estamos iniciando o blog Povo do Axé. Com ele, temos o objetivo de construir um canal de comunicação entre os candomblecistas e entre a sociedade em geral e a nossa religião.

O Povo do Axé não será apenas redigido por duas mãos, mas por incontáveis, quando teremos a participação de irmãos dos mais variados graus iniciáticos. Nosso blog não é comprometido com uma utopia de verdade única, mas com a expressão da verdade pessoal, da percepção e do sentimento de cada um. É essa a verdade diária, a que está dentro dos sacerdotes, dos ebames, dos iaôs, dos abiãs e de todos os que vêem nosso culto de fora para dentro.

Aqui encontraremos um pouco da nossa história, presente em homenagens aos nossos antepassados. Encontraremos a matéria-prima do nosso dia-a-dia, em textos sobre os elementos com os quais construimos nossa religiosidade. Também nos arriscaremos em reflexões sobre o amanhã a partir de retratos da realidade que enfrentamos hoje.

Colaborem com o Povo do Axé enviando sugestões, textos, recomendando fontes de pesquisa e, principalmente, utilizando os espaços para comentários em cada postagem.

Sejam todos muito bem-vindos.

Axé!