segunda-feira, 20 de outubro de 2008

As matriarcas pernambucanas

Após a criação do mundo, cada Orixá escolheu um domínio na natureza. Nanã escolheu o barro e a lama dos pântanos. E dessa terra molhada, a carne fértil do planeta, foi moldado o homem que então, recebeu o emi, o sopro da vida.

Nanã é símbolo do matriarcado, uma das divindades mais antigas dos panteões africanos que se instalaram no Brasil. Representa o poder feminino que luta e defende seus domínios da intervenção masculina. Seu culto teve origem nos povos Fon, da região africana de Daomé, cujos povos escravizados vieram para o Brasil em meados do século XVII e receberam o apelido de "jeje". Na mitologia jeje Nanã deu à luz um casal de gêmeos, Mavu
e Lissá, o princípio feminino representado pela lua e o masculino pelo sol, respectivamente. Os eclipses eram o sinal de que Mavu e Lissá estavam fazendo amor, e deles nasceram todos os voduns (divindades fon).

O Candom
blé brasileiro seguiu sob a proteção de Nanã, tendo como característica sociedades matriarcais. Existem teorias que afirmam que a mulher escrava era alforriada antes dos homens, o que lhes colocava em condições de se dedicar mais à religião. Na África, berço do Candomblé, os homens eram os líderes políticos e religiosos. Pierre Verger em Notas sobre o culto dos Orixás e Voduns, coloca que É mais fácil sustentar uma mulher na casa de culto do que retirar um homem do trabalho produtivo, durante meses, para este fim”. Por outro lado, também se entendia que o sexo feminino é capaz de abrigar uma pureza que o masculino não. Portanto, os homens e sua sexualidade profana eram mantidos afastados dos aspectos mais delicados do sagrado.

As sacerdotisas pernambucanas, honrando o papel de porta-vozes dos deuses na Terra, enfrentaram com a coragem e imperiosidade de Nanã as dificuldades e perseguições. O Candomblé de hoje deve-se a essas mulheres que dedicaram a vida a preservar uma fé que hoje pode ser desenvolvida com muito mais liberdade, mesmo que ainda não se possa dizer que plenamente. A elas, prestamos nossa homenagem, citando algumas das memoráveis ialorixás do nosso estado.


Mojubá. Que as senhoras, de onde estiverem, nos inspirem força para fazermos valer a pena a dedicação e o esforço exemplar que tiveram.



Dona Santa

Dona Santa (1877/1962) - consagrada a Oxum, foi uma das ialorixás mais importantes de Pernambuco como representante da cultura negra recifense. Não permitia registro de nada referente aos seus fundamentos religiosos, mas ficou conhecida como a mais famosa rainha africana do estado, pelo Maracatu Nação Elefante. Na foto, coroada, recebe os cumprimentos de Gilberto Freyre






Mãe Rosa

Ialorixá Rosa Belarmina (1898/1960). Filha de Xangô Fumilaró, da Nação Nagô, filha de escravos
, da cidade de Palmares. Foi iniciada no Recife, onde
veio morar com os pais libertos, ainda criança.










Maria de Oyá

(?/1939) - Uma das precursoras da Nação Xambá em Pernambuco, diz-seque sua morte foi decorrência direta da repressão policial da Era Vargas. Seu terreiro foi invadido, assentamentos quebr
ados, seus filhos foram presos e humilhados, acarretando profunda depressão, na qual veio a falecer.









Badia

Mãe Badia (1898/1991) uma das líderes do Axé das Tias do Patio Terço, de nação Nagô, no Recife, Badia foi uma das responsáveis pela valorização da cultura negra em Pernambuco. Uma das responsáveis pela Noite dos Tambores Silenciosos do carnaval do Recife, que relembra a coroação dos reis de Congo e celebra os ancestrais negros.












Mãe Biu


Severina Paraíso da Silva (1914/1993), filha de Ogum. Mantém viva a nação Xambá às escondidas durante o período de maior repressão, até a inauguração do terreiro
em Olinda, hoje tombado como Quilombo
Urbano Portão do Gelo, e um dos mais importantes núcleos de resistência e propagação deste povo descendente da região central da África.











Mãe Betinha


Elizabeth de França Ferreira (1909/2002), consagrada a
Yemanjá Sabá. Enfrentou forte perseguição durante o Estado Novo, chegando a ser detida e submetida a exames de sanidade mental apenas por assumir a sua fé nos Orixás. Por 65 anos preservou e promoveu a tradição Nagô.






Um comentário:

Nação Pernambucana disse...

IMPORTANTE:
As fontes desta pesquisa foram o livro Yalorixás do Recife, que pode ser baixado no site www.yalorixasdorecife.com, www.xamba.com.br e imagens de acervo pessoal, com autorização da própria pessoa ou de familiares.