terça-feira, 21 de outubro de 2008

Bem-aventurada vossa boca, porque come


"Conta uma lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e nariz. Oiá, desobedecendo instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também, capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder". (Pierre Verger em Orixás: deuses iorubas na África e no Novo Mundo)

O poder sobre o fogo de Xangô e Oyá são revividos no Candomblé. Em ritual Nagô, Xangô dança o alujá triunfante dentro de uma grande fogueira, de onde tira brasas vivas que mastiga. Também existe uma cerimônia - raramente realizada atualmente - que encena este itan, esta lenda. Oyá, manifestada em um de seus iniciados, vem ao centro do terreiro trazendo na cabeça um tacho com azeite de dendê fervendo. De dentro tira, com as mãos, mechas de algodão em chamas e devora, em um espetáculo impressionante, as bolas de fogo.

No entanto, a vivência do Candomblé não se resume apenas a observar e se fascinar com momentos como estes. O dia-a-dia do terreiro faz parte de um ritual que recria as antigas lendas, reforçando com isso a simbiose entre os Orixás e seus filhos. E neste momento entra a culinária do terreiro.

O akará, talvez a comida de Candomblé mais conhecida fora dos terreiros, lembra as bolas de fogo que alimentam Oyá. Bolinhos de massa de feijão macassa ou fradinho, fritos no óleo de dendê, o acarajé (jé, comer) ganharam as ruas e são populares em todo o país, feitos e vendidos por pessoas que não conhecem nem se importam com a origem da iguaria. Alguns mais tradicionais apontam a profanação da receita, originalmente feita com instrumentos rudimentares para descascar e triturar o feijão, que levava camarão seco, cebola e sal, servido inteiro. Hoje, se tornou um delicioso sanduíche, recheado com camarões refogados, vatapá, caruru, salada de tomate e a pimenta que, segundo os vendedores, é o que faz ser “frio” ou “quente”.

O acarajé, já em sua forma profana, foi tombado como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sua receita e não pode mais ser descaracterizada. Sobre as origens, como disse certa vez o profeta cristão “que vejam os que têm olhos de ver, ouçam os que têm ouvidos de ouvir”. E nós, candomblecistas, completamos: comam os que têm boca para comer!

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