segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Dize-me o que comes e te direi quem és

A comida de santo é culinária brasileira que se faz africana quando materializa e alimenta todo o sistema do terreiro revivendo a África distante, sua história e suas experiências. Isso, intencionalmente, porque em nosso dia-a-dia, não deixamos de reviver o “saber fazer” africano inconscientemente nos ingredientes, nas receitas e nos modos de preparo e na maneira de comer e na forma de pensar o alimento.

O alimento é veículo de axé. No preparo da comida no terreiro, são considerados fatores como o manuseio dos ingredientes, os utensílios, a forma de cozimento, a ritualização no passo-a-passo da receita, as pessoas envolvidas na manipulação, a montagem do prato e o comportamento do próprio alimento e das ferramentas utilizadas como organismos vivos, veículos do diálogo entre homens e deuses. Na cozinha dos Orixás não se fala mais que o necessário, não se brinca, não se grita, não se canta nada estranho ao repertório do culto. Qualquer pensamento ou ato fora do propósito contamina e compromete a construção da oferenda.

A relação com o alimento chega a ser antropofágica. A comida é a comunhão entre os planos, sendo parte humana e parte divina, alimentando os dois extremos simultaneamente e estabelecendo uma ponte entre o adepto e seu orixá. Cada comida votiva é construída de elementos que fazem parte do universo elegun/Orixá (o mineral, o vegetal, o animal, além de conceitos como cores, formas, quantidades, temperaturas, etc) e, com isso, reforça o axé que circula entre os dois. Orixás e seus filhos se alimentam um do outro. Não há criador sem criatura.

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