quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Pernambuco, a terra dos xangôs

Por estas terras, o nome do Orixá rei da cidade de Oió virou rótulo do culto afro-brasileiro de origem iorubá. Mas será que só por aqui? Para refletirmos sobre o que fez dos pernambucanos “xangozeiros” é preciso ir buscar fontes históricas.

"No seu auge, o império de Oió englobava as mais importantes cidades do mundo iorubá, tendo assim o culto a Xangô, que era o orixá do rei ou obá de Oió, portanto o orixá do império, sido difundido por todo o território iorubano, o que não era muito comum, pois cada cidade ou região tinha os seus próprios orixás tutelares e poucos eram os que recebiam culto nas mais diversas cidades, como Exu, Ossaim e Orunmilá. O fato é que o apogeu da dominação da cidade de Oió sobre as outras resultou numa grande difusão do culto a Xangô. Durante muito tempo a força militar de Oió protegeu os iorubás de invasões inimigas e impediu que seu povo fosse caçado e vendido por outros africanos ao tráfico de escravos destinado ao Novo Mundo, como acontecia com outros povos da África. (Na foto, o Império de Oió no auge da sua expansão, no século XVIII).

“Quando o poderio de Oió foi destruído no final do século XVIII por seus inimigos, tanto a capital Oió como as demais cidades do império desmantelado ficaram totalmente desprotegidas, e os povos iorubás se transformaram em caça fácil para o mercado de escravos. Foi nessa época que o Brasil, assim como outros países americanos, passou a receber escravos iorubás em grande quantidade. Vinham de diferentes cidades, traziam diferentes deuses, falavam dialetos distintos, mas tinham todos algo em comum: o culto ao deus do trovão, o obá de Oió, o orixá Xangô.”

Chegados no final do século XVIII e no século XIX, os negros não eram mais levados para o trabalho em plantações. Ficavam nas cidades, responsáveis por variados serviços dentro do espaço urbano, convivendo entre muitos negros já libertos, o que facilitava a (re)organização dos grupos sociais destruídos na África.

“A expressão “nação queto” para designar o ramo do candomblé de origem iorubá que se constituiu a partir da linhagem da Casa Branca do Engenho Velho é recente e não era usada antes de 1950. O nome mais comum era nação nagô, ou jeje-nagô. A própria Mãe Aninha, que fundou outro templo dissidente da Casa Branca, o Axé Opô Afonjá, e que, como o próprio nome indica, também é dedicado a Xangô, costumava dizer nos anos 1930: “Minha casa é nagô puro”.” Reginaldo Prandi em Xangô, rei de Oió


Assim, não há dúvida de porque o culto afro-brasileiro de origem iorubá em Pernambuco passou a se chamar popularmente de xangô. No entanto, o preconceito em relação à religião passou a transformar qualquer referência ao culto como negativa. Ser chamado de xangozeiro era, e ainda é considerado um insulto. Essa expressão não traz boas recordações aos membros, por ter sido empregada de forma tão dura e perversa. Uma casa de xangô era um lugar apontado e um xangozeiro não passava na rua ileso.

Hoje, em busca de resgatar suas raízes, é utilizado para denominar o culto, Candomblé Nagô, visto que não houve no Recife uma necessidade de rotulação ou de assumir uma identidade cultural diferente de Oió.

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