segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Porque o preto seria contra-axé?

Em novembro de 1858 "Sir James Wylie, ex-médico do imperador da Rússia, estudou atentamente os efeitos da luz como agente terapêutico em hospitais de São Petesburgo. Ele descobriu que a cura de pacientes internados em quartos convenientemente iluminados era quatro vezes maior que a daqueles confinados em quartos escuros. Isso levou a uma completa reformulação na iluminação dos hospitais da Rússia, com resultados surpreendentes. Esses resultados baseiam-se no efeito conhecido de que na falta de luz suficiente, plantas e animais são fadados a uma existência doentia e frágil."

A revista Scientific American Brasil publicou na edição deste mês este texto, do qual transcrevi um bloco, em uma seção onde cita momentos importantes para a ciência. Este, há 150 anos atrás. Hoje sabemos muito sobre as teorias das cores. Não é para menos, afinal lá pelo século XVII Isaac Newton já estava explicando o espectro solar, quando a luz branca refratada em um prisma, perde velocidade e se separa em um feixe das sete cores que conhecemos bem no arco-íris.
(ver na foto, imagem da capa do disco Dark Side of Moon, da banda Pink Floyd).

Trouxe essa conversa esquisita para pensarmos juntos sobre a restrição à cor preta dos rituais candomblecistas. Porque será? Longe de sermos detentores dos segredos (até porque, mesmo que os fôssemos, segredos não combinam com Internet), somos seres inteligentes, cheios de capacidade e obrigação de aprendermos seja dentro ou fora da religião. Precisamos refletir e é justamente a partir dessa palavra que partimos para propor pensarmos sobre o assunto.

Estranho é saber que cor é algo que só existe no nosso cérebro e no de alguns animais (outros não as vêem e levam suas vidas numa boa). Nossos olhos captam a luz refletida por certa matéria e conclui: vermelho! Já quando não temos luz no ambiente, ele também conclui: preto! Então o preto não seria uma cor, mas a ausência dela. Já a tinta preta da caneta que usamos para escrever é uma substância que não reflete luz, que com a qual criamos contraste sobre outra superfície refletora, o papel, para assim identificarmos visualmente o que quisemos registrar.

Muito bem. Talvez por isso algumas culturas associem a morte ao preto, numa alegoria ao "apagar da luz". Já o Candomblé tem como cor de luto o branco, a soma de todas as cores, a cor da luz vinda do sol e condição inquestionável para o desenvolvimento da vida em nosso planeta. Podemos concluir que não existe mudança em relação à interpretação da simbologia da cor (preto ou branco), mas da relação da comunidade com a morte.

Deixe o brilho do sol entrar
Deixe entrar, vamos todos cantar
Deixe o brilho do sol entrar.
Abra seu coração e deixe brilhar.
Quando estiver solitário, deixe brilhar.
E quando achar que está sendo maltratado
e que seus amigos se afastaram,
Abra o seu coração e deixe brilhar dentro de você.

(Let the sunshine in, da trilha sonora do filme Hair)


As cores são elementos importantes na comunicação social. Quando falamos em cores quentes, cores alegres, cores chiques, cores sóbrias, cores vivas, etc, estamos dando às cores significados que aprendemos a partir das nossas experiências pessoais. A facilidade maior de encontrar corantes vermelhos no ocidente que no oriente (ainda que caríssimos) tornou nas sociedades eurocêntricas, sinônimo de realeza e de poder. Lembremos dos mantos reais e dos tapetes para a passagem de celebridades. Nosso país se chama Brasil em homenagem à tonalidade da madeira que, extraída aqui, gerava o corante cor de brasa para as cortes européias. Para os orientais, o amarelo era a cor da realeza, por motivos que somente no contexto de lá se poderia entender.

E quando falamos dos odés (os caçadores do Candomblé como Oxósse, Ogum, Logunedé, Inlé, Ibualama, etc) à nossa mente vem as matas. Se suas roupas têm uma cor, não é dificil imaginar que ela seja verde. Isso faz parte da construção do ser mitológico Oxósse. Iemanjá e o mar, Oxum e a riqueza, Xangô e o fogo são outros exemplos de que não é dificil pintar as cores dos deuses na nossa imaginação. Assim, cor é informação, é conhecimento, é energia, é simbologia, é força. Enfim, é axé.

Temos alguns elementos, mesmo que não religiosos, para começarmos a entender porque a cor preta é tratada dentro da vida religiosa do Candomblé como contra-axé (algo que anula o axé, a energia vital, o movimento e a transmissão).

OBS: Recebemos comentários muito importantes e que complementam muito bem a postagem. Sugiro a leitura deles.

2 comentários:

Ilé de obokum disse...

Caros amigos ago, aos donos do blog, mas referente ao preto, temos certos tabus com esta cor principalmente filhos de oxala, mas meu pai de santo a cor do santo dele é preto e vermelho (xapana), então não seis e seria contra axé, mesmo porque um dos versos de ifá conta que o negro se fez antes da luz, era escuridão antes da luz.

Então existe controvercias sobre o assunto.

O que cvs acham?

Povo do Axé disse...

Não há porque pedir agô, irmão! É um rpazer receber seu comentário. Nosso pai Omolu tem como cores o preto e o branco, ou o preto, vermelho e branco. Aprendemos que isso representa a sua dualidade céu e terra. Obaluaê, Obá Olu Aiye, teria como tradução "o rei (aqui na terra) que é senhor do Aiye". Além disso, existem outras dualidades em Omolu (Xapanã), como morte/vida, saúde/doença, entre outras.
Realmente a sua observação é excelente, que nos passou despercebida. O preto é tabu especialmente em relação a Oxalá, mas não é execrado no Candomblé. Oxumarê também é representado em algumas tradições pelas cores amarelo/preto, lembrando as escamas das cobras. Exu, outro Orixá também traz o preto, também pelos contrastes que representa em seu arquétipo.
Somos nós quem pedimos agô a todos e agradecemos pela participação.
Axé