quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Morte e vida, Dona Severina

Lembro de ter comido bredo apenas na casa da minha avó. Bredo de côco é tradicionalíssimo na mesa da Semana Santa pernambucana. Apesar de um costume religioso europeu, a quaresma no Brasil, sendo a carne vermelha proibida nesse período, acabou juntando ao famoso bacalhau (peixe hoje caríssimo mas antes nem tanto, que pelo processo de salga, era possível conservar e chegar em boas condições aos consumidores fora do litoral) ingredientes como a abóbora e o bredo, também conhecido como língua-de-vaca, major gomes, maria gorda, ora pro nobis e até caruru. Abóbora e caruru, guardemos como tema para outras postagens.

Pois Dona Severina preparava bredo, que nunca mais comi. Minha avó faleceu há alguns anos e sabem como é comidinha da casa da vó: não existe igual. Também não arrisquei desmentir minha teoria. Lendo uma matéria da Revista Continente Online, encontrei um texto chamado "À mesa com Jorge Amado" onde se fala do efó. Essa comida típica da Bahia, que pouca gente aqui em Pernambuco já teve o prazer de experimentar. Ouvi falar sobre ela há um bom tempo, mas não tive
ainda a sorte de ser apresentado pessoalmente. Com uma ajudinha da tecnologia, fui descobrindo outros detalhes do bredo que resolvi compartilhar com vocês.

Essa erva é originária de toda a américa. Na medicina natural, dizem que as folhas, utilizadas como cataplasma, amolecem calos, ajudam a fazer regredir inflamações e na cicatrização de feridas. Teria sido uma das primeiras ervas a serem incorporadas às cozinhas brasileiras pós-colonização. Rica em ferro e cálcio, vitaminas A e B, É uma erva atribuída a vários Orixás, como Oxum, Nanã e Iemanjá. Cresce à sombra, em locais úmidos, com solos ricos em matéria orgânica.

Suas flores lilases ou rosa forte, são delicadas e fazem a planta poder ser também bastante ornamental. Inclusive, se atribui ao bredo uma simbologia de imortalidade, com fontes "internéticas" não tão confiáveis afirmando que eram plantadas em túmulos de escravos com este sentido. Provável, já que seu cultivo é fácil e flora bastante, fazendo canteiros bonitos.

E o efó, prato que se oferece principalmete a Nanã, considerada a avó, a grande matriarca no panteão afrobrasileiro, reflete um pouco desse imaginário sobre o bredo, especialmente dessa sua referência à imortalidade. Nanã é a dona do barro do qual fomos moldados e ao qual retornaremos. É a terra que nos cobrirá, quando voltaremos a ser carne do planeta. Assim ela representa a imortalidade presente no ciclo da vida. Se para os católicos o bredo é essencial para o momento da morte e ressurreição do seu mestre, no Candomblé ela agrada à deusa que representa a nossa ressurreição.

Morte e vida,
Dona Severina. Para Nanã e todas as avós, a imortalidade.










Receita de EFÓ


Ingredientes:
1 1/2 xícaras de amendoim torrado
1 xícara de castanha de caju torrada
3 1/2 xícaras de camarões secos, descascados
2 cebolas grandes, cortadas em quartos
3 dentes de alho
2 colheres (sopa) de coentro picado
5 xícaras de folhas de bredo limpas, lavadas, picadas, previamente aferventadas para tirar o visgo e escorridas.
1 xícara de água
1 xícara de leite de coco
4 colheres (sopa) de azeite de oliva
1 1/2 xícaras de azeite-de-dendê
Sal e pimenta malagueta a gosto.

Modo de preparo:
No copo do liquidificador, coloque amendoim, castanhas, camarões, dentes de alho, coentro, bata até triturar bem e reserve.
Em uma panela, coloque o espinafre aferventado, água, leve ao fogo alto, deixe ferver, junte os ingredientes reservados, leite de coco, os azeites, misture bem e cozinhe, mexendo de vez em quando, por cerca de meia hora ou até obter uma mistura ligeiramente seca.
Verifique o tempero, tire do fogo, coloque em um prato de servir e leve quente à mesa, acompanhado de arroz branco.

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