quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Encontro do Vodu com a Umbanda

Festival do Caribe faz intercâmbio entre as religiões afro-descendentes do Brasil e de Cuba
Michelle de Assumpção // Diario michelle.assumpcao@diariodepernambuco.com.br
Diário de Pernambuco / Caderno Viver / Publicado em 20/11/2008


Terreiro de Manuel Papai é
o único no Brasil que faz uso do Batá.
Foto: Alexandre Gondim/DP/D.A Press.


Tereza Martines Perez é uma reina del Jodú, ou seja, uma sacerdotisa do Vodu, prática que baseia sua devoção no sacrifício de animais e ingestão de bebidas preparadas com ervas sagradas. Ela é uma das líderes religiosas que, nesta semana, circulam pelo Recife e Olinda, integrando a comitiva cubana do Festival do Caribe, parceria do Centro de Cultura Luiz Freire / TV Viva com a Casa do Caribe, que anualmente realiza este festival em Santiago de Cuba.
A importância de sua religião na vida cotidiana dos compatriotas de Fidel pode ser comprovada por uma pesquisa do Departamento de Estudos Sociorreligiosos de Cuba, apontando que cerca de 85% dos mais de 11 milhões de moradores da ilha têm "algum tipo de sentimento religioso". Ainda que não exista uma cifra específica, presume-se que a maioria pratique formas de sincretismo religioso.

O fiel cubano é batizado na igreja católica, mas tem um orixá que "guia sua cabeça", ou um "espírito" que vem em seu socorro sempre que precisar. Assim como no Brasil, existem várias religiões afro-descendentes em Cuba. A Santeria seria como o candomblé brasileiro - com o culto a praticamente os mesmos orixás do panteão africano. O Vodu seria a nossa umbanda, mas com outras "entidades". Segundo Tereza, os toques e cânticos de ambas as práticas são diferentes, "mas o Ogum é o mesmo em todo lugar".

Ela afirma que o objetivo da versão cubana do Festival do Caribe é o mesma da filial pernambucana: promover o encontro de todas as religiões de matriz afro-descendente. "Nossa idéia é fazer intercâmbio do Vodu com a Umbanda. Queremos ver como é quando eles cantam e tocam o tambor; lá nós tocamos o bembê", compara. Correspondências que, em breve, estarão detalhadas no projeto Brasil Cuba, do babalorixá Manoel do Nascimento Costa, ou Manoel Papai, um dos mais importantes babalorixás pernambucanos e responsável pelo Centro Cultural Casa de Pai Adão, onde os cubanos dão esta semana uma oficina de Batá - o principal instrumento da Santeria, praticamente inexistente em cultos semelhantes no Brasil. A não ser, claro, na casa de Manoel Papai.

"Somos o único terreiro do Brasil que tem os batás. Surgiu na época da tia Inês, a africana, e permaneceu até hoje, não conheço ninguém que tenha. É tanto que, quando fomos a Salvador, em 1986, Pierre Verger nos viu tocar e chegou a passar mal de nos ver com o batá, pois ele tinha colocado numa pesquisa que no Brasil não era utilizado", conta Papai. Segundo ele, o encontro com os "ogãs" - como são chamados aqui os tocadores de um ritual de candomblé - cubanos servirá para que ambos os povos aprendam novos toques. Os ogãs do Sítio de Pai Adão só utilizam três tipos de batidas nos seus tambores e Manoel Papai diz que ouviu um muito especial dos cubanos, que quer aprender. "Os cânticos são bem diferentes. É mais um item forte para nossa pesquisa. O que queremos é saber como isso chegou a eles e como chegou aqui. Como foi a presença dos escravos em Cuba e qual o legado deles", elabora.

O babalorixá esteve ano passado em Cuba, durante o Festival del Caribe, e diz que conheceu uma associação de Oxum - um orixá do candomblé - com Nossa Senhora do Bronze, santa da qual nunca ouviu falar. Isso mostra que, pelo menos no quesito sincretismo religioso, Cuba é igual ao Brasil. Com uma diferença marcante: lá, igreja Católica e o Estado não mantêm boas relações, o que ajuda a ampliar não só o número de cultos afro-religiosos, mas também evangélicos e pentecostais. As religiões afro-cubanas são estimuladas pelo Estado como forma de conter a Igreja Católica, além de atrair turistas e divisas ao país. Não é à toa que terreiros da capital e das praias do balneário de Varadero entraram na grade de atrações do Ministério do Turismo. O Partido Comunista de Cuba (PCC), que até o início dos anos 1990, defendia o "ateísmo científico", alterou a constituição cubana e aboliu qualquer tipo de discriminação por motivos de crença. Cuba foi convertida de país ateu para laico. Como o Brasil. Para quem quiser acompanhar de perto este encontro, hoje, no Sítio de Pai Adão, pernambucanos, cariocas, baianos e cubanos de Santiago e Havana participam, a partir das 17h, do seminário masala Iemanjá nas Américas. "Queremos saber como esses lugares todos vêem essa santa que tornou-se tão popular no Brasil", diz Papai. Mais informações: 34439412.

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