terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os céus não dão trégua aos homens


Uma grande tragédia está acontecendo no estado de Santa Catarina, sul do Brasil. Tempestades causaram 83 mortes até o momento desta postagem, cidades isoladas e muitos desabrigados por causa das inundações e desabamentos.

Em momentos de catá
strofes "naturais" paramos e pensamos no papel das divindades regentes da natureza e sua atuação sobre a humanidade. Seria vingança dos Orixás, revolta contra as agressões sofridas, demonstração de força ou seria fruto de um desequilíbrio nas relações interpessoais humanas mesmo e os deuses nada têm com isso?

José Saramago, escritor português, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, tem sua opinião publicada na postagem de ontem (24/11) no seu blog pessoal, O Caderno de Saramago (http://caderno.josesaramago.org).



Dua
s notícias
Novembro 24, 2008 by José Saramago

"No Brasil, entre entrevista e entrevista, fico a conhecer duas notícias: uma, a má, a terrível, que o temporal que de vez em quando desaba sobre São Paulo para deixar, minutos de fúria depois, um céu limpo e a sensação de que não se passou nada, no sul causou pelo menos 59 mortos e deixou milhares de pessoas sem casa, sem um tecto onde dormir hoje, sem um lar onde seguir vivendo. Notícias destas, apesar de tantas vezes lidas, não podem deixar-nos indiferentes. Pelo contrário, cada vez que nos chega a voz de um novo descalabro da natureza aumenta a dor e a impaciência. E também a pergunta a que ninguém quer responder, embora saibamos que tem resposta: até quando viveremos, ou viverão os mais pobres, à mercê da chuva, do vento, da seca, quando sabemos que todos esses fenómenos têm solução numa organização humana da existência? Até quando olharemos para outro lado, como se o ser humano não fosse importante? Estas 59 pessoas que morreram em Santa Catarina, neste Brasil onde estou agora, não tinham que ter morrido de esta morte. E isto, sabemo-lo todos. (...)"


E não é que Saramago tem razão? Somos os administradores do mundo no qual vivemos. Herdamos ele dos deuses e nossa é a responsabilidade. Em um universo mais próximo, os rios são canalizados, as margens urbanizadas, os solos impermeabilizados, as matas ciliares destruídas vêm a assorear os leitos, além do lixo que prejudica a vazão da água e o poder público que não dá solução para moradias irregulares. Mais distante, mas sem fugir ainda das nossas mãos estão os efeitos da ação humana sobre o clima do planeta como um todo, que vem provocando reflexos inesperados em diversos pontos.

Em alguns debates através da Internet encontrei uma resposta bastante sensata para a pergunta se Orixá mata. Orixá não mata, já que ele é parte de nós, mas a sua ausência sim. Orixá é eqüilíbrio e respeito entre os semelhantes. Mais que isso, eles nos ensinam que minerais, vegetais, animais, homens e deuses fazem parte de uma mesma Terra viva. Agressão a qualquer um desses aspectos é uma agressão a todos os outros e tem conseqüências vindas de todos os lados.

Os céus não dão trégua, nem a terra. No entanto, os únicos em guerra somos nós.


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