terça-feira, 25 de novembro de 2008

Árvores de plástico

"Seu regador verde de plástico é para sua imitação chinesa de planta feita de borracha plantada na terra artificial de plástico comprada a um homem de borracha em uma cidade cheia de planos de borracha, para se livrar de si mesma."

Para os que não conhecem ainda, Radiohead. Já a essência da letra da música Fake Plastic Trees é bem mais comum ao nosso dia-a-dia. Não preciso nem gostaria de apresentá-la. Como tenho certeza de certa intimidade entre ela e vocês, não vai ser difícil tocar em certos pontos bastante familiares à nossa vida religiosa.

O Candomblé é uma religião que preza pelo tradicionalismo. Reconstruimos tradições seculares, valorizamos nossa árvore genealógica e cultuamos antepassados em meio ao imediatismo do Século XXI. No entanto, cada vez ma
is nossa religião é atacada pelo vírus silencioso da modernidade, que desagrega os discursos e faz essa solidez histórica se desmanchar no ar.

O mariuô (as franjas das folhas do dendezeiro) marcam a passagem para o mundo sagrado. Ao cruzar as portas do terreiro, o relógio gira mais lentamente e o ritmo é o da natureza. Aprende-se o ritmo do sol, das plantas,
do fogo, do vento e da água. Esta última, por exemplo, só se deixa ser transportada no seu próprio tempo. Os passos acompanham seu balanço na lata, ou ela perde a paciência e reage. E é esse tempo que não temos mais.

O verde das casas de Candomblé vem cada vez menos das folhas, enquanto a sabedoria iorubá afirma que kosi ewe, kosi Orisa, ou seja, sem as folhas não existe Orixá. Compra-se tudo pronto, já que o tempo é precioso e nunca existe tempo hábil para nada. Com isso, o saber fazer (conhecimento tornado útil) é delegado ao comércio. Nesse mesmo caminho segue boa parte dos terreiros de Candomblé: se tornando dependente do mercantilismo e do dinheiro.

É como se o que importasse para os Orixás fossem os fins e não os meios. Somos seres inteligentes o suficiente para sabermos que não nos acrescenta a louça ou a pedra, mas a energia que depositamos ali. Portanto, como importaria mais a comida que
o alimento? Se a louça fica satisfeita com o material que é depositado nela, cheia e ornamentada, o Orixá fica satisfeito com o processo que culminou com aquele ato. A seleção dos ingredientes, o modo de preparo, o modo de servir, as orações e o pensamento em todas estas etapas. Principalmente, o valor do ebó está na intenção. Intenção é o direcionamento da energia, é o foco do axé, é o motivo pelo qual e para qual ele será movimentado. Na intenção nos revelamos. A riqueza do Orixá vestido no salão do terreiro em shows de alegoria em lantejoulas, cristais Swarovski e muita cola quente, não deveriam compensar dentro do que é a religião, os orôs, os rituais e os preceitos que não são públicos. Mas têm compensado.

O Orixá não é uma forma de nos livrarmos de nós mesmos e do que deveríamos ser. Assim, ebós e rituais não são um atalho para lugar nenhum, se não saímos do canto. Talvez sejam planos de borracha que fazemos, para nos inserirmos em um mundo sintético, através de visões distorcidas do que é bom e mau para nossa vida. Fontes de dinheiro, relações afetivas sonhadas, poder de atuar sobre a vontade dos outros, poder de atração... Nada disso é atribuição dos Orixás, já que fazem parte de um mundo idealizado, que muitas vezes nem no plano material existe, mas é real nas necessidades criadas pela sociedade.

Atribuindo aos deuses nosso papel, fugimos do nosso mundo real, para sermos homens de borracha, movidos por impulsos tão plásticos quanto o mundo ao nosso redor. Que os nossos Deuses também não se tornem de poliestireno ou de louça, barro, ferro ou pedra. Que não sejam mais inanimados que nós.

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