terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sexo, deuses, Caetano e nós

Em 1999, Caetano Veloso participou de uma série de entrevistas à revista francesa L´Express falando sobre o Brasil, juntamente com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, o arquiteto Oscar Niemeyer e outras personalidades. Em um trecho em especial que transcrevi abaixo, se fala sobre religiosidade:

L´Express: O misticismo é muito baiano, não é?
Caetano Veloso: Sim.

LE: E você é místico?
CV: Gosto de dizer que sou ateu. Não gosto deste renascimento da religiosidade, que me parece ser uma coisa muito norte-americana. Mas o candomblé me interessa muito.

LE: É possível declarar-se ateu e amar o candomblé?
CV: Minha irmã, Maria Betânia, est
á muito ligada religiosamente ao candomblé e a Mãe Menininha do Gantois (uma pessoa muito importante do candomblé da Bahia), quando ainda era viva, lhe pediu para realizar certo número de rituais juntamente comigo. Só poderia dar certo se eu estivesse com ela. Então, fiz tudo o que minha irmã fez. Tinha um pouco de medo e, ao mesmo tempo, estava muito admirado, muito impressionado. Amo o misticismo da Bahia. É uma maneira de amar as coisas, de amar a vida. O candomblé é uma religião do futuro. Tem algo a dar à civilização brasileira, é uma nova maneira de olhar o politeísmo.

LE: Com deuses dos quais a pessoa se sente perto...
CV: Completamente, são personalidades familiares. Eles são ciumentos, eles são sexy.

LE: Deuses sexy?
CV: Sim. É uma coisa bem brasileira! Mas, vamos parar de falar de teologia, está bem?


Deuses sexy foi uma boa definição. Pena que ele parou de falar sobre isso, porque daria uma boa base para trabalharmos e
m cima. Mas podemos criar as bases do nosso próprio pensamento juntos, basta começarmos.

Uma vez encontrei uma citação que infelizmente perdi a fonte, dizendo que as nossas divindades são "instrumentos para pensarmos", pois eles se colocam em nossa vida como elementos tanto para nos classificarmos quanto para ordenar o sistema do Candomblé que se reflete tanto nas atividades religiosas quanto nas cotidianas. Os Orixás, como sentimos, nos orientam no dia-a-dia como exemplos vivos em seus itans, ou lendas. E como será que eles nos persuadem e convencem-nos a segui-los?

Três etapas compreendem o desenvolvimento dessa relação, se traçarmos um paralelo entre a religião e processos de agrupamentos de conduta desenvolvidos pela comunicação social com base em teorias psicanalíticas. O primeiro é a chamada projeção. Quando se sugere ao iniciante na religião que um mito refletirá a sua história de vida, na conhecida atribuição do "seu" Orixá através do jogo de búzios, o oráculo do Candomblé, o indivíduo passa a se projetar naquelas lendas que vai conhecendo aos poucos. Se projetando, ele tenta se ver refletido naquelas narrativas. O segundo passo é alcançar a identificação.

Como fluxos contínuos de axé, os mitos se aprecem com grandes avenidas, por onde a vida circula sem parar. Ao se identificar pel
a primeira vez com um itan, o indivíduo se torna receptivo para as seguintes. E elas acontecerão. Com o tempo, o encaixe começa a se formar e a empatia foi criada. A vida do adepto segue o mesmo fluxo daquele arquétipo, sendo guiado por caminhos claros em sua mente, dentro dos quais se goza de certa liberdade para agir conforme seus próprios valores, conteúdos e bagagem cultoral/intelectual. Os leitores do blog podem ter entendido o processo que expliquei, quando também se viram cruzando estas etapas na sua entrada para o Candomblé.

Mas e onde essa verborragia quer chegar? Quer tocar na coerência dos amigos leitores, quando assistirem esse filme que sugiro:

YANSAN
de Carlos Eduardo Nogueira

A orixá dos ventos e das tempestades Yansan, personagem do mito iorubá, muda-se para o outro lado do mundo. Agora, em animação em 3D, construídas por Carlos Eduardo Nogueira, as aventuras amorosas da sensual Yansan com Ogum e Xangô são transportadas do continente africano para o Japão futurista. Neste contexto, o traço que desenha os personagens e cenários é de anime, o característico desenho animado japonês, espécie de filho do mangá.



Clicando na imagem vocês poderão assistir o filme que recebeu MUITOS prêmios em vários lugares do mundo. Yansan é um filme excelente! Lindo em estética e maravilhoso na ambientação dos itans de Oyá. Enquanto a história se passa, é narrado o mito, de uma forma que impressiona pelo casamento perfeito de duas realidades tão distantes, uma África perdida no passado e um Japão mergulhado no futuro.

Os orixás são sexy ou nós é quem somos? Houve muita polêmica em torno deste filme pelo conteúdo erótico das imagens. No entanto, nunca se soube que sexo e desejo era sujo aos olhos dos Orixás, que não repetem a escalada cristã em busca do Orun (o lado espiritual) em detrimento do Aiye, (o mundo material). Mesmo que fosse, essa poderia ser a história de qualquer filha de Oyá ao redor do mundo, contada e recontada através dos itans há séculos e séculos, assim como a sua vida está sendo, exatamente neste momento.

Para outra postagem e para reflexão e tarefa de casa, fica a seguinte pergunta: já que falamos de identificação, nossos deuses foram criados à nossa imagem e semelhança ou nós fomos criados à deles? Não sei a resposta, mas que tal tentarmos conversar sobre ela em uma próxima publicação?


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