domingo, 11 de janeiro de 2009

Violência x magia Religião sem culpa em crimes


Matéria retirada do Jornal do Commercio
Publicado em 11.01.2009

Nos últimos meses, assassinatos bárbaros registrados no Estado foram associados a magia negra. Para estudiosos, não é possível fazer qualquer relaçãoA associação de crimes bárbaros a rituais de magia negra, feita pela polícia e explorada pela mídia em casos sucessivos, preocupa adeptos do candomblé. “Não cultuamos o diabo nem praticamos sacrifício com vidas humanas”, esclarece o babalorixá Adeíldo Paraíso, Pai Ivo, responsável pelo terreiro de Santa Bárbara de Xambá, em Olinda, e presidente da Associação Cultural e Religiosa de Matriz Africana, que está sendo criada em Pernambuco.
Na semana passada, em Caruaru, Jandeílson Mendonça, 23 anos, que se diz pai-de-santo, esquartejou Ciconed de Lima Bezerra, 36, atribuindo o ato a um espírito, fato associado à magia negra pela polícia. Há dois meses, uma família foi assassinada em Garanhuns, também no Agreste de Pernambuco, e no dia seguinte ao sepultamento, o corpo de uma das vítimas, adolescente, foi violado e encontrado com restos de alimento.
Pai Ivo vê nas associações de crimes à magia negra um reforço ao preconceito histórico contra os negros e os cultos afros, que foram tachados de feitiçaria para aumentar a perseguição aos descendentes africanos. “Nos terreiros de candomblé não se cultua a baixa magia”, diz, evitando a expressão magia negra.
A baixa magia é a executada em prejuízo de alguém, para destruir sua saúde, seus negócios, sua vida. “O que praticamos é o culto aos orixás africanos, à natureza”, diz Pai Ivo, observando que há culto ao ar, terra, água e fogo. “Infelizmente, o catolicismo achou de diabolizar a nossa religião. Por isso, quando alguém diz que está com o diabo, deve procurar a Igreja Católica, que criou a sua figura.”
No xangô há cultos com sacrifício de animais, mas todos bichos comestíveis (galinha, cabra, boi), observa Pai Ivo. Em outras ocasiões, o corpo do animal é ofertado inteiro à divindade, deixado nas matas e rios. “Em 55 anos de vida num terreiro nunca vi aqui nem em outro lugar o sacrifício de pessoas, nas casas sérias não se pratica atos bizarros nem truculência.” O sacrifício de animais é uma forma de agradecer a vida.
O babalorixá lembra registros históricos que apontam a presença de sacrifício e oferendas em várias religiões. O preconceito com os negros, que faz a sociedade se referir a eles como herdeiros dos escravos e não dos africanos, esconde as contribuições dos terreiros em diferentes fases da história, queixa-se Pai Ivo.
Estudiosos do sincretismo religioso encontram na quimbada, uma derivação da umbanda (mistura elementos do candomblé, igreja católica, pajelança e esoterismo), o culto ao mal, ao negativo. “Não fazem para tirar a vida, mas com a intenção de adoecer a pessoa”, cita frei Tito, da Ordem Carmelita, professor da Universidade Federal de Pernambuco. Ele é doutor em antropologia, estudioso de religião e cultura afrobrasileira.
Em todas as religiões há reconhecimento do bem e do mal, não necessariamente cultuando o segundo, completa a antropóloga Huda Stadler, da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Grupos isolados também praticam feitiços e cultuam satanás. Num dos principais sites de busca da internet, o Google, há 141 mil documentos sobre como fazer magia negra. Muitos sites fazem cadastro de interessados para enviar materiais posteriormente. “Há seis meses, o filho de uma amiga, de 16 anos, que se interessava por satanismo, matou-se em casa”, conta a antropóloga Huda.
“Na Inglaterra e nos Estados Unidos, existem grupos religiosos de culto ao demônio”, informa frei Tito. A relação com o demônio necessariamente também não inclui o sacrifício humano, esclarece.
Frei Tito lembra que na humanidade, independentemente da baixa magia, há grupos religiosos que matam e se matam em nome de Deus, como os radicais islâmicos. No passado da América Latina, os povos maias faziam sacrifícios para obter dos deuses a chuva e os astecas também derramavam sangue em culto às divindades. No próprio Cristianismo, Cristo foi sacrificado como o cordeiro de Deus. O maravilhoso é natural ao ser humano. “Ao se benzer embaixo das traves, o goleiro está fazendo um rito mágico. Os próprios pentecostais, que repudiam a Igreja Católica por causa da magia, fazem ritos, como chás de pedaços da Bíblia ou sessões para afastar espíritos”, exemplifica. O tempo passou, “mas a humanidade é a mesma. Fracassou o pensamento iluminista francês e o positivismo de que a razão ia acabar com a parte obscura”.
http://jc.uol.com.br/jornal/2009/01/11/not_315014.php

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