quarta-feira, 29 de julho de 2009

Aluá

Aluá é, tradicionalmente uma bebida fermentada, de abacaxi ou de milho. O nome viria do árabe, heluon, doce. Doce bastante apreciado no Oriente, é composto de farinha de arroz, manteiga e jogra, que é o açúcar retirado da palmeira. É semelhante ao nosso manjar branco, conforme o pesquisador folclorista Luís da Câmara Cascudo. Outras pessoas afirmam que é uma corrutela da expressão "ao luar", pela forma como os negros escravos preparavam a bebida em rituais de confraternização.

O aluá foi uma bebida trazida pelos portugueses e que foi usada, na época da colonização, na Amazônia, Ceará, Pernambuco, Paraiba, Rio Grande do Norte, depois de passar por um processo de aculturação, substituindo-se a fruta ou cereal fermentado e o açúcar pela rapadura. Até mes
mo na capital do Império, o aluá teve sua vez. Câmara Cascudo informa que em 1881, França Júnior, cronista do séc. XIX, evoca a popularidade do aluá durante o reinado de Pedro I na capital do Império: "No primeiro reinado o refresco em voga foi o aluá. O pote de aluá saía para o meio da rua, e o povo refrescavase ao ar livre, a vintém por cachaça". Uma senhora, amiga, relembrou da sua infãncia no interior do Ceará, quando o aluá era feito em todas as casas onde haviam festejos juninos. "Não se fazia quadrilha sem ter aluá em casa para servir ao povo todo".

No Nordeste, a aluá ainda permanece vivo em alguns lugares no sertão, nas novenas, nas festas da padroeira. Em Minas Gerais ele também sobrevive e existe uma tradição de que não pode ser vendido, mas servido em rituais de fé (hoje, nas irmandades católicas) como faziam os negros que dançavam, cantavam e bebiam o líquido de baixo teor teor alcoólico (cerca de 3,5°) que, neste caso, era à base de abacaxi. Minha mãe sempre fez aluá em casa, quando éramos crianças, da casca do abacaxi. É delicioso, com um leve ácido e bolhinhas naturais que se formam na boca por causa da fermentação.

Na casa de Mãe Betinha de Iemanjá Sabá (essa foto antiga é de lá), era tradicional servir aluá (lá chamados garaxó, de abacaxi ou milho). Eram jarras enormes, servidas nas festas para Ibeji, quando os erês se fartavam (e nós, mais crescidos um pouco, também). Nunca ouvi falar de outro terreiro em Pernambuco, com esta tradição que só ouvi falar de terem existido em casas muito antigas da Bahia.

Então, uma boa oportunidade de experimentar. Existem aluás feitos de vários tipos de fontes de amido fermentados ou açúcares, além do milho e abacaxi. Encontrei receitas de aluá até feito de pão, farinha de arroz ou de mandioca. São receitas perdidas no tempo, morrendo com nossa memória e que valem a pena relembrar.


Aluá de milho

Dois litros de milho vermelho seco
Dezoito litros d'água
Cinco rapaduras de um quilo cada
Suco de dez limões, ou o equivalente em laranjas ou outras frutas ácidas, frescas
Uma raiz de gengibre partida e amassada
Jarra de barro já usada e que caiba tudo

Escolha, lave e leve o milho ao sol, para secar. Bote uma caçarola, sem gordura nenhuma, ao fogo, coloque o milho e mexa para tostar todo por igual. Retire do fogo e deixe esfriar. Triture grosseiramente o milho em um pilão. Ponha a água na jarra bem como o milho já frio e o gengibre. Tampe bem a jarra e deixe em Infusão durante oito a dez dias. Todos os dias dê uma mexida e, logo em seguida, tampe a jarra. No dia de servir, raspe ou corte em pedaços pequenos as rapaduras e coloque tudo dentro da jarra, já com a água e o milho. Mexa bem até dissolver as rapaduras. Coe num coador de pano, usando em uma toalhinha de cozinha bem limpa. Adicione o suco de frutas. Caso prefira mais doce, pode botar mais açúcar, de acordo com o gosto da pessoa. O aluá também pode ser feito com açúcar comum.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O Navio Negreiro, Castro Alves.


Transcrevo aqui as partes III, IV, V e VI do poema mais conhecido do Castro Alves, um dos grandes abolicionistas da escravidão negra no Brasil. Soteropolitano, viveu alguns anos no Recife, onde ingressou na Faculdade de Direito e de onde começaram seus projetos literários, republicanos e pela abolição da escravatura, que o uniram a nomes como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José de Alencar e Machado de Assis.

São conhecidas poesias de Antônio Frederico de Castro Alves desde os 17 anos. Do seu nascimento em 1847 até sua morte, foram apenas 24 anos de vida. Suas poesias são classificadas como terceira geração do Romantismo literário brasileiro, a Condoreira, simbolizada pelo condor, uma ave que costuma construir seu ninho em lugares muito altos e tem visão ampla e aguçada de todas as coisas.


Em 7 de setembro de 1868 fez a apresentação pública de "Tragédia no mar", que depois recebeu o nome de Navio Negreiro, com trecho transcrito abaixo. Note a presença da águia que, de cima, observa o que se passa no meio do oceano. A dramaticidade do texto é impressionante e toca a angustia do narrador
pela impotência em relação à situação. Atenção para a última parte e suas implicações e desdobramentos atuais.










III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI


Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Macumbats: design com axé

Vim compartilhar com vocês uma fonte dingbat que há algum tempo conheço e encontrei aqui, agora nas minhas artes photoshópicas. Ainda não tive oportunidade de utilizar a Macumbats, uma fonte do tipo true type, dingbat.

Dingbats são aquelas fontes onde no lugar de letras, quando digitamos, aparecem desenhos e a Macumbats é toda composta por figuras inspiradas no Candomblé e na Umbanda. São 23 ilustrações, onde temos os ogans, filhos de santo, Orixás e entidades como Pretos Velhos, Exus e Pombagiras. Os desenhos são bem-humorados, bem úteis para layouts sobre a cultura afro-brasileira. No entanto, é uma fonte são pesada para o sistema.

O autor da Macumbats é o designer pernambucano Zózimo Neto que diz que, desde 2003 é um estudioso do design. Técnico em Design & Hipermídia pelo CEFET-PE cursa bacharelado em Design pela Universidade Federal de Pernambuco. Além de tipografia, possui projetos também nas áreas de identidade visual, projetos de produtos e embalagens, games, web, editoração, animação, entre outros. Ele também desenvolveu a Macumbética, outra fonte dingbat, ttf, mas que não encontrei disponível.

A Macumbats pode ser baixada AQUI. A instalação é simples, a mesma de outras comuns, copiando para a pasta de fontes do computador.

Contatos com o Zózimo podem ser feitos através do e-mail zozimodg@yahoo.com.br

domingo, 26 de julho de 2009

Exu - a terra do rei

Quando saiu de Pernambuco para conquistar o país com sua música e receber o merecido título de Rei do Baião, Luiz Gonzaga, o filho de Januário, levou também ao conhecimento de muita gente, a pequena cidade de Exu, no sertão do estado. Assim como a vida dos famosos sempre gera polêmica, a dos anônimos filhos de Exu também virou curiosidade.

Exu está localizada a 630Km do Recife, no Sertão Pernambucano, já fazendo limite com o estado do Ceará. Originalmente a região era habitada pelos índios Ançus, do tronco indígena dos cariris. Ocupada por fazendas de gado no início do século XVIII, as missões jesuíticas construíram na área uma capela e criaram, em 1734 a freguesia do Senhor Bom Jesus dos Aflitos de Exu. Em 1885 o município teve origem, mas foi suprimido e novamente tornou-se autônomo dem 1907, 102 anos de história. Hoje conta com pouco mais de 30 mil habitantes, apesar de dizer-se que poderia ter avançado economicamente bem mais, o que não aconteceu por conta de violentas lutas políticas entre famílias locais no século XX.

Então, na mídia pelo seu filho ilustre ou pelos olhos de curiosos atrás de nomes pitorescos, como a cidade passou a ser chamada pelo nome do tão temido Orixá Exu, se a região era habitada por indígenas e colonizadores e missionários cristãos? Existem duas teorias para o fato. O primeiro é que tenha derivado da tribo Ançu. Outra - e mais provável - é que seja referência a uma espécie de vespas chamada enxu (Nectarina lecheguana), ou enxuí (Polybia sedula), na foto ao lado, comum na região e que produz um excelente mel. Vespas são os populares marimbondos e eles produzem mel, como as abelhas. No entanto, a maioria das espécies produz uma substância de sabor desagradável, não aproveitável para o consumo humano e serve apenas à colméia. O produzido pelas vespas enxu e enxuí é doce e bastante apreciado. Segundo informações do biólogo Manoel Mahybe, publicadas em blog sobre as espécies, é um marimbondo conhecido por ser agressivo, dando origem, inclusive a expressões regionais como "valente que só inxuí magro".

Que Exu nome de valentia e que seus filhos têm garra para lutar, isso já sabíamos. Então, sempre há uma relação. No entanto, já não é mais fato pitoresco, encontrar no mapa uma cidade chamada Exu. As atrações da cidade ficam por conta das belas paisagens da Chapada do Araripe e pela história de Luiz Gonzaga e os equipamentos turísticos instalados por lá para guardar sua memória.

Biblioteca do Homem Negro - Espaço Cultural Castro Alves

O Pólo Nacional de Saúde e Saberes Afro Brasil, dando início aos projetos lançadas em 10 de janeiro, quando da inauguração do espaço, vem compartilhar o projeto comunitário "Biblioteca do Homem Negro - Espaço Cultural Castro Alves", que visa angariar livros, vídeos e todo e qualquer material didático para atender a demanda cultural de uma população desprovida deste tipo de recurso.

A biblioteca funcionará na sede própria do Pólo, à Rua José Rebouças 160 - Vasco da Gama - Recife - PE, à principio três vezes na semana, para acesso gratuito por toda a população. O Pólo Nacional de Saúde e Saberes Afro Brasil é um projeto do Ilê Iyá Ori Axé Ogê Lawô, terreiro de Matriz Africana de nação Ketu. A comunidade religiosa é dirigida atualmente pelo Babalorixá Marcelo de Osanyin(PE), filho de santo da Ialorixá Márcia de Oxum(RJ), que foi iniciada pelas mãos de Mãe Menininha do Gantois(BA), há 40 anos.

A sua contribuição é absolutamente importante para a realização do projeto. Livros que estejam jogados no fundo de uma estante, gibis, videos, documentários, períodicos, revistas, livros didáticos, técnicos ou especializados. Estantes, birôs, cadeiras, etc, também serão muito bem-vindos.

Caso não tenha condições de levar sua doação até a sede do Pólo, a coordenação do projeto pede que façam contato para encontrar uma forma de receber o material. Também pedem que esta mensagem seja divulgada a todos os que possam contribuir, para que o mais rápido possível, a Biblioteca do Homem Negro esteja funcionando e prestando seus valiosos serviço a todos.

Pólo Nacional de Saúde e Saberes Afro Brasil
Contatos: saudeesaberes@hotmail.com



































quinta-feira, 9 de julho de 2009

MARACATUS, BATUQUES E LADEIRAS





Retirado do blog Ritmos Brasileiros

Os Maracatus mais antigos do Carnaval do Recife, também conhecidos como Maracatus de Baque Virado ou Maracatu Nação, nasceram da tradição do Rei do Congo, implantada no Brasil pelos portugueses. O mais remoto registro sobre Maracatu data de 1711, de Olinda, e fala de uma instituição que compreendia um setor administrativo e outra, festivo, com teatro, música e dança. A parte falada foi sendo eliminada lentamente, resultando em música e dança próprias para homenagear a coroação do rei: o Maracatu.Para Mário de Andrade a origem da palavra maracatu é americana: maracá=instrumento ameríndio de percussão; catu=bom, bonito em tupi; marã=guerra, confusão. Marãcàtú, e depois maràcàtú valendo como guerra bonita, isto é, reunindo o sentido festivo e o sentido guerreiro no mesmo termo.A dança executada com as Calungas, que são bonecos religiosos, é obrigatória na porta das Igrejas, representando um "agrado" à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Quando o Maracatu visita um terreiro homenageia os Orixás.Há também o chamado Maracatu Rural. A crise que antecedeu a II Guerra Mundial provocou uma onda migratória da zona rural para o Recife. Esse tipo de Maracatu, também conhecido como Maracatu de Orquestra ou de Trombone, surgiu nessa época, através da fusão de vários folguedos do interior de Pernambuco, especialmente da zona canavieira. Portanto, nada têm a ver com a instituição mestra do Rei do Congo.* O arquivo a seguir está divido em duas pastas, uma com gravações mais atuais de grupos ainda na ativa como Nação Erê, Maracatu Estrela Brilhante, Leão Coroado, Rio Maracatu, entre outros. Na outra pasta são as gravações a partir de 1930, com um maracatu bem diferente do que estamos acostumados, com uma percussão menor e músicas cantadas. São versões originais de mestres como Capiba, Paulo Lopes, Sebastião Lopes e Geraldo Medeiros.

MARACATUS DE HOJE
1. Cheguei Meu Povo
2. Maracatu (Instr.)
3. Oleruê
4. Cheguei Meu Povo
5. No Morro da Conceição
6. Dia 13 não é dia de negro

MARACATUS DE ONTEM
1. Eh! Uá! Calunga (Capiba) - Maira (1936)
2. Chora meu goguê (Paulo Lopes & Sebastião Lopes) - Henricão Sátira (1938)
3. Senzala - Raul Torres (1945)
4. Piou Caboré - Geraldo Medeiros (1950)
5. Noiô, Noiô (Paulo Lopes & Sebastião Lopes) - Henricão Sátira (1936)
6. Maracatu Elegante - Raul Prates (1943)
7. Maracatucá - Geraldo Medeiros (1949)
8. Nação Nago (Capiba) - Os Cancioneiros (1955)


MARACATUS DE HOJE

1. Cambinda
2. Lindo Baque dos Erês
3. Maraca de Maracatu
4. Sambalelê/ Virgem do Rosário


MARACATUS DE ONTEM
1. Bagé - J.B de Carvalho (1938)
2. Pisa Baiana - Irmãos Valença (1938)
3. Nego Banzo - Fernando Lobo (1940)
4. Maracatu Porto Rico - Dircinha (1949)
5. Rei Bantu - Luiz Gonzaga (1950)

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terça-feira, 7 de julho de 2009

O Xambá rediscutido

Valéria Gomes da Costa é doutoranda em História Social pela UFBA, licenciada e mestra em História pela UFPE com a defesa da dissertação Nos arrabaldes da cidade: prática de apropriação e estruturação dos espaços no subúrbio do Recife pelo Terreiro Santa Bárbara - Nação Xambá (1950-1992). Com um rico objeto de estudo, Valéria Costa escreveu sobre vários aspectos deste grupo social, os xambás de Olinda e levantar hipóteses sobre a formação deste núcleo de resistência que tem o título de Quilombo Urbano.

Na foto, mercado no centro de Tchamba, cidade no Togo.

"Tchambá, Chambá, ou simplesmente Xambá, seria um grupo étnico africano, habitante dos montes Adamawa, próximos ao rio Benué - rio de Iansã, orixá patrono do Terreiro Santa Bárbara - Ilê Axé Oyá Meguê. Na Nigéria, Senegal e Camarões, algumas famílias, cujos membros lutaram nas guerras de independência de suas nações, carregam o tchambá como sobrenome. Seria um povo que habitou o norte da África, onde estavam localizados os haussás, baribas, tapas, situados na Bacia do Benin. A verdade é que, sobre essa elaboração étnica, pouco sabemos. Para os membros do Terreiro Santa Bárbara, são eles descendentes étnico-religiosos do ocidente africano, para onde Pai Rosendo viajou nos primeiros anos pós-1888, trazendo os axés do Xambá da Costa da África. Essa memória institucionaliza a identidade dos herdeiros de Mãe Biu, que sob a auto-adscrição de nação Xambá, afirmam sua africanidade." Este texto foi publicado na Revista Leituras da História, do Portal Ciência & Vida, da Editora Escala, sob o título Heranças Africanas da invenção da liberdade.

Em outro texto, onde apresenta no XIII Encontro da Anpuh-Rio (Associação Nacional de História) e no V Simpósio Internacional do Centro de Estudos do Caribe no Brasil, em Salvador/BA, em outubro de 2008, seu projeto de doutorado sob o título Áurea das africanidades: identidades étnico-religiosas nos terreiros de xangõs em Pernambuco e Alagoas pós-abolição, a pesquisadora foi mais a fundo na interpretação da formação étnico-religiosa do povo xambá pernambucano. E para isso nossas atenções se voltaram, por ser uma teoria que vem a esclarecer e levantar outras hipóteses sobre diversos outros formatos de Candomblé e suas ditas "nações".

Segundo Costa, a construção das identidades sociais negras, mais que um reencontro de indivíduos pós-África, serviu como mecanismo de resistência ao cativeiro, ficando algumas etnias ou nações africanas rememoradas nos terreiros de culto sob os nomes de nagô, jeje, angola, etc. Lembramos que jeje e nagô nunca configurou uma nação na África, sendo como "apelidos", expressões pejorativas que os povos de determinadas regiões recebiam dos povos inimigos quando sob domínio ou, no caso dos nagôs, quando começaram a ser trazidos para o Brasil nas últimas levas de escravos na decadência do Império de Oyó. Pesquisadores denominaram estes agrupamentos de "guarda-chuvas étnicos", enquanto dentro destes, se formaram agrupamentos mais específicos como savalu, mahi, efon, etc.

No entanto, a partir das observações de Valéria Costa, fica evidente que esta afirmação de grupos mais específicos não são unicamente relacionados à resistência à escravidão, mas ao processo de adaptação à sociedade extra e pós-escravidão e construídos a partir de origens históricas dos ancestrais daqueles indivíduos ou outras formas de construção cultural como a apontada para o Xambá. Segundo ela, as afirmações dos membros do Terreiro Santa Bárbara são a única base para apontar a origem daquele povo sendo a região de Dakar em Senegal. Tchamba fica no Togo, na região central do país, vizinho ao Benin, onde antes existiu o reino de Daomé, de onde veio o povo que depois se reorganizou sob o nome de "nação jeje". "Não há referências documentais de africanos destra procedência para Pernambuco e Alagoas no período da escravidão", afirma Costa. O reduzido número de pessoas vindas deste local que se tem registrado foi para Minas Gerais, Recôncavo Baiano e Rio de Janeiro. Segundo pesquisadores, não chegou a configurar um "guarda-chuvas étnico". Entende-se que foi assimilado por outros grupos majoritários.

Os indícios da presença de membros da etnia Xambá em Pernambuco, como apontado por pesquisadores como René Ribeiro, eram as afirmações das comunidades. No entanto, na configuração e expressão religiosa, o mesmo René Ribeiro observa que a supremacia do culto nagô deve ter extinto o culto xambá. Ribeiro aponta Artur Rosendo Pereira como baluarte da preservação do Xambá em Pernambuco, inclusive tendo viajado à África, mais precisamente para Daomé (Dan-ho-me, o reino edificado no ventre de Dan), no atual Benin, região do povo Fon que compreendeu também a região de Togo e parte da Nigéria. Valéria Costa cita que a Revista Cruzeiro diz em edição de 1949 que Pai Rosendo teria possivelmente ido à Africa onde, por quatro anos teria vivido entre o povo soba, aprendendo a língua local e familiarizando-se com as práticas que convencionou chamar de xambás.

No site da Casa Xambá (Terreiro Santa Bárbara - Ilê Axé Oyá Meguê), encontramos o panteão cultuado pelo Xambá. Nele chama atenção a presença de Afrekete. "Vodum de origem daomeana que fora incorporado como orixá pelos iorubanos. Até o presente momento, Afrekête vem sendo cultuado em Pernambuco apenas na Nação Xambá, tido nesta Casa como Orixá feminino", diz o site. Também conhecido como Averekete, este é um dos voduns, dividade cultuada na nação jeje, formada pela reunião do povo fon no Brasil. O site, entretanto, aponta Afrekete como um vodum incorporado ao panteão iorubano, como se a tradição Xambá também fosse iorubana e não daometana, numa contradição entre a opressão nagô e a resistência e construção da identidade xambá distinta da nagô por Pai Rosendo após sua viagem a Daomé.

Seria o Xambá a resistência específica Jeje em Pernambuco, como Savalu, Mahi, Modubi entre outras espalhadas pelo país? Seu sincretismo com o culto de origem iorubá o tornaria o nagô-vodum legitimamente pernambucano, assim como o culto Nagô-Vodum Mahi vindo das casas matrizes de Cachoeira de São Félix na Bahia e chegando a Pernambuco através de personagens como o babalorixá Raminho de Oxóssi? Este também teria saído do nagô para cultuar as divindades iorubanas através do culto de origem daometana, mas indo encontrar as bases no Rio de Janeiro, nos fundamentos nagô-vodun da tradição Mahi já levada para lá da Bahia.

Quando levanto estes questionamentos a partir da hipótese da Valéria Gomes Costa, eles também sao válidos e confirmam a construção dos nagô da Bahia da identidade Keto no século XX. A cada dia o Candomblé no modelo baiano se afirma mais Keto e menos Nagô. O mesmo acontece com o Nagô pernambucano, que tem se afirmado cada vez mais Egbá ou Egbá-Arakê. Isto reforça traços, fecha, delimita e tenta tornar mais forte a resistência, fincando mais fundo as raízes. A princípio, excelente.

Quando pensamos no Candomblé, não podemos ver como uma religião africana. Este é um culto brasileiro, surgido e em construção no Brasil dentro das condições sociais, culturais, econômicas e até ambientais aqui desde que o primeiro africano foi trazido até os dias de hoje. A cada dia o Candomblé se reinventa e resiste. Não há solidez, por isto não se desmanchou no ar. Permanentemente se combina, se reafirma, se compreende e se constrói.

Email da Valéria Gomes Costa:
valeria_gcosta@yahoo.com.br