terça-feira, 7 de julho de 2009

O Xambá rediscutido

Valéria Gomes da Costa é doutoranda em História Social pela UFBA, licenciada e mestra em História pela UFPE com a defesa da dissertação Nos arrabaldes da cidade: prática de apropriação e estruturação dos espaços no subúrbio do Recife pelo Terreiro Santa Bárbara - Nação Xambá (1950-1992). Com um rico objeto de estudo, Valéria Costa escreveu sobre vários aspectos deste grupo social, os xambás de Olinda e levantar hipóteses sobre a formação deste núcleo de resistência que tem o título de Quilombo Urbano.

Na foto, mercado no centro de Tchamba, cidade no Togo.

"Tchambá, Chambá, ou simplesmente Xambá, seria um grupo étnico africano, habitante dos montes Adamawa, próximos ao rio Benué - rio de Iansã, orixá patrono do Terreiro Santa Bárbara - Ilê Axé Oyá Meguê. Na Nigéria, Senegal e Camarões, algumas famílias, cujos membros lutaram nas guerras de independência de suas nações, carregam o tchambá como sobrenome. Seria um povo que habitou o norte da África, onde estavam localizados os haussás, baribas, tapas, situados na Bacia do Benin. A verdade é que, sobre essa elaboração étnica, pouco sabemos. Para os membros do Terreiro Santa Bárbara, são eles descendentes étnico-religiosos do ocidente africano, para onde Pai Rosendo viajou nos primeiros anos pós-1888, trazendo os axés do Xambá da Costa da África. Essa memória institucionaliza a identidade dos herdeiros de Mãe Biu, que sob a auto-adscrição de nação Xambá, afirmam sua africanidade." Este texto foi publicado na Revista Leituras da História, do Portal Ciência & Vida, da Editora Escala, sob o título Heranças Africanas da invenção da liberdade.

Em outro texto, onde apresenta no XIII Encontro da Anpuh-Rio (Associação Nacional de História) e no V Simpósio Internacional do Centro de Estudos do Caribe no Brasil, em Salvador/BA, em outubro de 2008, seu projeto de doutorado sob o título Áurea das africanidades: identidades étnico-religiosas nos terreiros de xangõs em Pernambuco e Alagoas pós-abolição, a pesquisadora foi mais a fundo na interpretação da formação étnico-religiosa do povo xambá pernambucano. E para isso nossas atenções se voltaram, por ser uma teoria que vem a esclarecer e levantar outras hipóteses sobre diversos outros formatos de Candomblé e suas ditas "nações".

Segundo Costa, a construção das identidades sociais negras, mais que um reencontro de indivíduos pós-África, serviu como mecanismo de resistência ao cativeiro, ficando algumas etnias ou nações africanas rememoradas nos terreiros de culto sob os nomes de nagô, jeje, angola, etc. Lembramos que jeje e nagô nunca configurou uma nação na África, sendo como "apelidos", expressões pejorativas que os povos de determinadas regiões recebiam dos povos inimigos quando sob domínio ou, no caso dos nagôs, quando começaram a ser trazidos para o Brasil nas últimas levas de escravos na decadência do Império de Oyó. Pesquisadores denominaram estes agrupamentos de "guarda-chuvas étnicos", enquanto dentro destes, se formaram agrupamentos mais específicos como savalu, mahi, efon, etc.

No entanto, a partir das observações de Valéria Costa, fica evidente que esta afirmação de grupos mais específicos não são unicamente relacionados à resistência à escravidão, mas ao processo de adaptação à sociedade extra e pós-escravidão e construídos a partir de origens históricas dos ancestrais daqueles indivíduos ou outras formas de construção cultural como a apontada para o Xambá. Segundo ela, as afirmações dos membros do Terreiro Santa Bárbara são a única base para apontar a origem daquele povo sendo a região de Dakar em Senegal. Tchamba fica no Togo, na região central do país, vizinho ao Benin, onde antes existiu o reino de Daomé, de onde veio o povo que depois se reorganizou sob o nome de "nação jeje". "Não há referências documentais de africanos destra procedência para Pernambuco e Alagoas no período da escravidão", afirma Costa. O reduzido número de pessoas vindas deste local que se tem registrado foi para Minas Gerais, Recôncavo Baiano e Rio de Janeiro. Segundo pesquisadores, não chegou a configurar um "guarda-chuvas étnico". Entende-se que foi assimilado por outros grupos majoritários.

Os indícios da presença de membros da etnia Xambá em Pernambuco, como apontado por pesquisadores como René Ribeiro, eram as afirmações das comunidades. No entanto, na configuração e expressão religiosa, o mesmo René Ribeiro observa que a supremacia do culto nagô deve ter extinto o culto xambá. Ribeiro aponta Artur Rosendo Pereira como baluarte da preservação do Xambá em Pernambuco, inclusive tendo viajado à África, mais precisamente para Daomé (Dan-ho-me, o reino edificado no ventre de Dan), no atual Benin, região do povo Fon que compreendeu também a região de Togo e parte da Nigéria. Valéria Costa cita que a Revista Cruzeiro diz em edição de 1949 que Pai Rosendo teria possivelmente ido à Africa onde, por quatro anos teria vivido entre o povo soba, aprendendo a língua local e familiarizando-se com as práticas que convencionou chamar de xambás.

No site da Casa Xambá (Terreiro Santa Bárbara - Ilê Axé Oyá Meguê), encontramos o panteão cultuado pelo Xambá. Nele chama atenção a presença de Afrekete. "Vodum de origem daomeana que fora incorporado como orixá pelos iorubanos. Até o presente momento, Afrekête vem sendo cultuado em Pernambuco apenas na Nação Xambá, tido nesta Casa como Orixá feminino", diz o site. Também conhecido como Averekete, este é um dos voduns, dividade cultuada na nação jeje, formada pela reunião do povo fon no Brasil. O site, entretanto, aponta Afrekete como um vodum incorporado ao panteão iorubano, como se a tradição Xambá também fosse iorubana e não daometana, numa contradição entre a opressão nagô e a resistência e construção da identidade xambá distinta da nagô por Pai Rosendo após sua viagem a Daomé.

Seria o Xambá a resistência específica Jeje em Pernambuco, como Savalu, Mahi, Modubi entre outras espalhadas pelo país? Seu sincretismo com o culto de origem iorubá o tornaria o nagô-vodum legitimamente pernambucano, assim como o culto Nagô-Vodum Mahi vindo das casas matrizes de Cachoeira de São Félix na Bahia e chegando a Pernambuco através de personagens como o babalorixá Raminho de Oxóssi? Este também teria saído do nagô para cultuar as divindades iorubanas através do culto de origem daometana, mas indo encontrar as bases no Rio de Janeiro, nos fundamentos nagô-vodun da tradição Mahi já levada para lá da Bahia.

Quando levanto estes questionamentos a partir da hipótese da Valéria Gomes Costa, eles também sao válidos e confirmam a construção dos nagô da Bahia da identidade Keto no século XX. A cada dia o Candomblé no modelo baiano se afirma mais Keto e menos Nagô. O mesmo acontece com o Nagô pernambucano, que tem se afirmado cada vez mais Egbá ou Egbá-Arakê. Isto reforça traços, fecha, delimita e tenta tornar mais forte a resistência, fincando mais fundo as raízes. A princípio, excelente.

Quando pensamos no Candomblé, não podemos ver como uma religião africana. Este é um culto brasileiro, surgido e em construção no Brasil dentro das condições sociais, culturais, econômicas e até ambientais aqui desde que o primeiro africano foi trazido até os dias de hoje. A cada dia o Candomblé se reinventa e resiste. Não há solidez, por isto não se desmanchou no ar. Permanentemente se combina, se reafirma, se compreende e se constrói.

Email da Valéria Gomes Costa:
valeria_gcosta@yahoo.com.br

2 comentários:

Aluá...♥ disse...

nossa, que legal! meu nome é Aluá! q estranho..eu sou uma bebida! UAHSUAHSUAHS

felix marinho disse...

A letra do texto está tão minúscula, que praticamente temos que recorrer a uma lupa de aumento para poder lê-lo.