sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Gripe A muda hábitos nos terreiros de candomblé do Recife

Publicado em 28.08.2009, às 13h06

Fabiana Maranhão Especial para o JC Online:

A exemplo das igrejas católicas, que, por recomendação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mudaram hábitos por causa da nova gripe - como o tradicional abraço da paz que não é mais dado nas missas -, a influenza A também tem provocado mudanças nas celebrações nos terreiros de candomblé do Recife.
Mãe Diva, de 75 anos, tomou uma atitude radical: como forma de prevenir a gripe A (H1N1), decidiu não beijar nem abraçar as pessoas que vão ao seu terreiro, em Casa Amarela, Zona Norte do Recife. "É algo muito comum na nossa religião, mas passei a evitar porque sei que o contato físico é uma das formas de transmissão da doença", explica. Ela fala ainda que objetos que antes eram utilizados nas cerimônias por vários participantes passaram a ser de uso individual.

Em três terreiros de candomblé no bairro do Ibura, Zona Sul da capital, o cuidado com a higiene tem sido reforçado desde o mês passado. A orientação é do Pai Lídio, de 52 anos, responsável pelos locais que são frequentados por cerca de 350 pessoas por mês. "Durante as cerimônias, temos cuidado de lavar as mãos constantemente e de não compartilhar objetos como pratos, talheres, panelas e roupas, o que era comum entre nós", detalha.

Os dois seguem as recomendações do Comitê Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir) que tem orientado os responsáveis pelos cerca de 800 terreiros de religiões afro-brasileiras que existem no Recife. O hábito de pedir a benção ao pai ou à mãe de santo não é mais o mesmo. "Orientamos que não se escoste a boca na mão do pai ou mãe de santo para não haver contato da saliva com a pele, evitando assim uma possível transmissão do vírus", diz o secretário executivo do Cepir, Jorge Arruda.

Na opinião dele, o risco de transmissão da gripe A não pode impedir que as celebrações sejam realizadas, e, para isso, é preciso redobrar a atenção com a higiene. Mas a conscientização não tem sido fácil. "Esclarecemos sobre os cuidados que são necessários para evitar a doença, mas muitos não aceitam a mudança de costumes", critica Mãe Diva.

domingo, 9 de agosto de 2009

O cântico de Kaiala

Texto de Luangimbê de Zazi

Ela de nível universitário, bem empregada, carro do ano, mas não se sente feliz. Uma amiga lhe convida para assistir uma Kizumba, não tendo nada a fazer aceita como curiosidade.. Lá chegando, do lado esquerdo vê uma casinha com uma tigela com farinha bem amarela, do lado esquerdo outra com um aipim com uns gravetos bem finos encravados, mais adiante alguns ferros numa imagem de figuras com outras comidas, e em todos com velas. No decorrer da Kizumba, se interessa pela dança de uma negona gorda, sem sentir fica encantada.

Meses passaram, aquela imagem não sai da sua retina, a sua razão lhe diz para não comentar com os colegas do trabalho, aquilo não seria local para uma pessoa do seu nível. Passado mais algum tempo, num final de semana está passeando num veleiro em Búzios. Na proa do barco ver o mar, as ondas, mais adiante a floresta, mais ainda ao longe na montanha, nuvens e o arco-íris com o seu arco terminando numa das pontas no mar e a outra na montanha, para qualquer lugar que olhasse via a negona dançando nas águas com um brilho ofuscante, escuta um cântico saindo do mar. Por um instante sente-se tonta, vai desmaiar, deita-se numa cadeira. A negona vem falar com ela, minha filha não tenha medo sou sua Mãe, sou Kaiala, sou a dona do seu Mutuê e seu pai é Zazi, volte lá. Ela, após poucos minutos abre os olhos. E a sua emoção domina a sua razão e diz : Não estou sonhando, estou me sentindo muito bem. Vou lá.

O cântico de Kaiala

Um barco quase ancorado
No horizonte entardecido.

O mar avança até o limiar
Enquanto o sol rebuça.

Vozes noturnas
e harpas celestiais
unem-se num cântico
que é o último porto
antes dos sonhos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Lançamento do DVD: As Yalorixás do Recife


Hoje, 07/08/2009, no Nascedouro de Peixinhos acontece o lançamento do DVD As yalorixás do Recife, a partir das 17h, com exposição de fotografia, exibição do vídeo documentário e palestra ministrada por Lia Menezes. Rua Jardim Brasília, s/n, Bairro de Peixinhos - Olinda.

Horário - 17:00
Preço - Entrada gratuita


Fonte: JC Online

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Emily Rose no roncó? E agora?

Apesar de não ser mais novidade, a sugestão do filme O exorcismo de Emily Rose (2005) serve para que ele seja revisto com olhos mais críticos. Baseado em fatos reais, o filme fala de uma jovem que, sem respostas positivas aos problemas psíquicos que apresenta, acaba sendo sumbetida a sessões de exorcismo nos moldes católicos. O filme, além do terror que causa e que pode ser classificado como o gênero ao qual pertence, gira em torno do julgamento do padre que realiza as sessões para expulsão dos demônios, por responsabilidade na morte da moça durante o processo. E onde nós, candomblecistas entramos nisso?

A personagem real no qual o filme foi baseado se chama Annelise Michel. Jovem alemã de família católica, nascida em 1952, começou, aos dezesseis anos, a apresentar sintomas que foram diagnosticados pelos médicos, a princípio, como epilepsia e esquizofrenia. Após muitos exames e tratamento em clínica psiquiátrica, Annelise continuou seus estudos, indo para a universidade. No entanto, visões e vozes ameaçadoras a perseguiam, ao ponto de ela mesma concluir sofrer de possessão demoníaca que a colocavam em profundas depressões. Durante todo o processo e até bem perto do final das sessões de exorcismo, Annelise foi tratada com poderosos psicotrópicos que, ainda assim, se mostraram ineficazes para deter as crises convulsivas.

Assim foi com a americana Emily Rose. A prescrição médica que a jovem recebe é tida como de inútil valia, uma vez que o caso de Emily não seria de ordem natural. Pior, é dito que tais medicamentos são drogas entorpecentes, sedativos que alienam a jovem de suas faculdades de lucidez e auto-governo, tornando impossível sua auto-preservação.

Em certa altura dos acontecimentos, o padre convencido do estado de possessão da jovem a aconselha a parar de tomar os medicamentos, pois os demônios estavam se aproveitando do estado sedativo de Emily Rose. Acontece que a jovem vem a morrer e o padre Moore, o responsável pelo tratamento espiritual, é acusado de negligência e homicídio culposo, e levado à corte.

Até onde podemos colocar nas mãos dos Orixás a responsabilidade sobre a integridade física e mental de um cidadão? O Candomblé lida com uma terapêutica baseada em recondicionamento espiritual, mental e comportamental que leve a um status mais saudável e de acordo com a própria natureza energética. Isto alcança boas respostas em doenças psicossomáticas ou outras físicas, geradas por comportamentos desalinhados com a identidade de cada indivíduo, apontada pelos próprios padrões internos à religião.

Diversos rituais são realizados tendo como objetivo saúde física e mental, como sabemos. Ebós, bori e outros, de variados graus de complexidade e em processos mais ou menos longos, onde o "paciente" se coloca sob a responsabilidade do sacerdote que os ministram. Em alguns rituais, o isolamento do mundo externo ao terreiro é necessário. O filho de santo fica longe dos olhos da família, impedida de receber visitas.

Muitas vezes problemas físicos diagnisticados, ou não, são indicadores de desacordo energéticos e espirituais que levam à necessidade de grandes rituais como a iniciação em processos de imersão na religião dos Orixás. Não estamos falando apenas de problemas mentais, como os citados no filme. No entanto, os métodos religiosos de cura não são compreendidos pelo Estado laico brasileiro, ou ainda, os sacerdotes de diversos credos não estão preparados para lidar e administrar em paralelo cuidados alternativos aos métodos convencionais da medicina. Se não é tolerado um iaô (iniciando) dopado, sob o efeito de drogas psicotrópicas, por exemplo, dentro do roncó, o útero sagrado dos Orixás, como seria possível garantir que não haverão efeitos não desejados pelo babalorixá, mas previsíveis pela ausência do tratamento alopático? Um iniciando pode ser administrador de medicamentos de uso controlado para diabetes e problemas cardíacos, por exemplo.

A fé nas divindades é uma boa resposta, mas pouco sabemos dos planos divinos e do destino. Se Ifá revela o destino, ele o faz de acordo com a sabedoria dos deuses e não baseando-se na leitura deficiente dos humanos destas informações. A sabedoria popular afirma que tudo já está escrito. A partir das condições atuais se pode prever o desenrolar das situações. Portanto, ignorar elementos e indicadores de caminhos para o bem-estar e a recuperação da ple
nitude do filho de santo é uma situação de alto risco e que pode trazer consequencias pesadas para o gestor e para outros membros da comunidade do terreiro.

O EXORCISMO DE EMILY ROSE
EUA | 2005 | 110min
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Laura Linney, Tom Walkingson, Jennifer Carpenter



segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Eleição do Rei do Congo

(Pilar, Itamaracá, 1814)

No mês de março tem lugar a festa anual de Nossa Senhora do Rosário, dirigida pelos negros, e é nessa época em que elegem o rei do Congo, se a pessoa que exerce essa função faleceu durante o ano, resignou por qualquer motivo ou haja sido deposta pelos seus súditos. Aos negros do Congo permitiram a eleição do rei e da rainha entre os indivíduos dessa nação. Os escolhidos para esses cargos podem ser escravos ou negros livres. Esses soberanos exercem uma espécie de falsa jurisdição sobre seus vassalos, da qual muito zombam os brancos, mas é nos dias de festa em que exibem sua superioridade e poder sobre seus companheiros.

Os negros dessa nação mostram muito respeito para com seus soberanos. O homem que desempenhava as funções de rei em Itamaracá (cada distrito possui um rei) durante muitos anos, estava prestes a abdicar pela sua velhice e o novo chefe devia ser escolhido, e a indicação recaiu sobre outro velho escravo da plantação do Amparo. A rainha antiga não renunciara, continuando no posto. O negro velho que seria coroado nesse dia da festa veio pela manhã cedo apresentar seus respeitos ao vigário, que lhe disse, em tom jovial: "Perfeitamente, senhor, mas hoje estarei às suas ordens, devendo servir-lhe de capelão!" Pelas onze horas fui para a igreja com o vigário. Ficamos parados à porta, quando apareceu um numeroso grupo de negros e negras, vestidos de algodão branco e de cor, com bandeiras ao vento e tambores soando. Quando se aproximaram, descobrimos, no meio, o rei, a rainha e o secretário de estado. Cada um dos primeiros trazia na cabeça uma coroa de papel colorido e dourado. O rei estava vestido com uma velha roupa de cores diversas, vermelho, verde e amarelo, manto, jaleco e calções. Trazia na mão um cetro de madeira, lindamente dourado. A rainha envergara um vestido de seda azul, da moda antiga. O humilde secretário ostentava tantas cores quanto seu chefe, mas era evidente que sua roupa provinha de várias partes, umas muito estreitas e outras demasiado amplas para ele. As despesas com a sagrada cerimônia deviam ser pagas pelos negros e, por isso, no meio da igreja, estava uma mesinha, com o tesoureiro dessa Irmandade preta e outros dignitários, e sobre ela uma pequena caixa para receber o dinheiro. Tudo ia lentamente, muito mais lentamente que o apetite do vigário que nada comera, embora fosse perto do meio-dia, porque ele e outros padres assistentes deviam cantar a missa. Conseqüentemente, aproximou-se da mesa e começou a falar aos diretores, declarando que não iria ao altar antes que a despesa fosse paga. Divertia-me muito vê-lo cercado pelos negros e entediado pela falta de pontualidade nas suas contribuições. Houve a seguir um rumor na igreja entre os pretos. O vigário havia exprobrado alguns deles logo que este os deixou, começaram a discutir uns com os outros, em voz alta e com palavras zangadas, sem respeito pelo local. Foi uma cena muito interessante para mim e para outras pessoas, mas tudo se passou rapidamente. Por fim, suas majestades ajoelharam-se ante a grade do altar-mor e a missa começou. Terminada, o novo rei devia ser coroado, mas o vigário estava com fome e desempenhou-se sem muitas cerimônias. Segurou a coroa, na porta da igreja, o novo soberano apresentou-se e foi mandado ajoelhar, a insígnia lhe foi posta e o vigário disse: — "Agora, senhor rei, vai-te embora!"

Como o rei pertencia a Amparo, seria lá o local para comer, beber e dançar, e a seguir a nossa povoação se tornou totalmente silenciosa e deserta...

(Koster, Henry. Viagens ao nordeste do Brasil. Em Carneiro, Edison. Antologia do negro no Brasil, p;236-237)

Texto retirado do site Jangada Brasil.
Na foto, o que sobrou da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (1525), onde se coroava como descrito acima, os reis do Congo.