segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Eleição do Rei do Congo

(Pilar, Itamaracá, 1814)

No mês de março tem lugar a festa anual de Nossa Senhora do Rosário, dirigida pelos negros, e é nessa época em que elegem o rei do Congo, se a pessoa que exerce essa função faleceu durante o ano, resignou por qualquer motivo ou haja sido deposta pelos seus súditos. Aos negros do Congo permitiram a eleição do rei e da rainha entre os indivíduos dessa nação. Os escolhidos para esses cargos podem ser escravos ou negros livres. Esses soberanos exercem uma espécie de falsa jurisdição sobre seus vassalos, da qual muito zombam os brancos, mas é nos dias de festa em que exibem sua superioridade e poder sobre seus companheiros.

Os negros dessa nação mostram muito respeito para com seus soberanos. O homem que desempenhava as funções de rei em Itamaracá (cada distrito possui um rei) durante muitos anos, estava prestes a abdicar pela sua velhice e o novo chefe devia ser escolhido, e a indicação recaiu sobre outro velho escravo da plantação do Amparo. A rainha antiga não renunciara, continuando no posto. O negro velho que seria coroado nesse dia da festa veio pela manhã cedo apresentar seus respeitos ao vigário, que lhe disse, em tom jovial: "Perfeitamente, senhor, mas hoje estarei às suas ordens, devendo servir-lhe de capelão!" Pelas onze horas fui para a igreja com o vigário. Ficamos parados à porta, quando apareceu um numeroso grupo de negros e negras, vestidos de algodão branco e de cor, com bandeiras ao vento e tambores soando. Quando se aproximaram, descobrimos, no meio, o rei, a rainha e o secretário de estado. Cada um dos primeiros trazia na cabeça uma coroa de papel colorido e dourado. O rei estava vestido com uma velha roupa de cores diversas, vermelho, verde e amarelo, manto, jaleco e calções. Trazia na mão um cetro de madeira, lindamente dourado. A rainha envergara um vestido de seda azul, da moda antiga. O humilde secretário ostentava tantas cores quanto seu chefe, mas era evidente que sua roupa provinha de várias partes, umas muito estreitas e outras demasiado amplas para ele. As despesas com a sagrada cerimônia deviam ser pagas pelos negros e, por isso, no meio da igreja, estava uma mesinha, com o tesoureiro dessa Irmandade preta e outros dignitários, e sobre ela uma pequena caixa para receber o dinheiro. Tudo ia lentamente, muito mais lentamente que o apetite do vigário que nada comera, embora fosse perto do meio-dia, porque ele e outros padres assistentes deviam cantar a missa. Conseqüentemente, aproximou-se da mesa e começou a falar aos diretores, declarando que não iria ao altar antes que a despesa fosse paga. Divertia-me muito vê-lo cercado pelos negros e entediado pela falta de pontualidade nas suas contribuições. Houve a seguir um rumor na igreja entre os pretos. O vigário havia exprobrado alguns deles logo que este os deixou, começaram a discutir uns com os outros, em voz alta e com palavras zangadas, sem respeito pelo local. Foi uma cena muito interessante para mim e para outras pessoas, mas tudo se passou rapidamente. Por fim, suas majestades ajoelharam-se ante a grade do altar-mor e a missa começou. Terminada, o novo rei devia ser coroado, mas o vigário estava com fome e desempenhou-se sem muitas cerimônias. Segurou a coroa, na porta da igreja, o novo soberano apresentou-se e foi mandado ajoelhar, a insígnia lhe foi posta e o vigário disse: — "Agora, senhor rei, vai-te embora!"

Como o rei pertencia a Amparo, seria lá o local para comer, beber e dançar, e a seguir a nossa povoação se tornou totalmente silenciosa e deserta...

(Koster, Henry. Viagens ao nordeste do Brasil. Em Carneiro, Edison. Antologia do negro no Brasil, p;236-237)

Texto retirado do site Jangada Brasil.
Na foto, o que sobrou da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (1525), onde se coroava como descrito acima, os reis do Congo.

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