terça-feira, 4 de agosto de 2009

Emily Rose no roncó? E agora?

Apesar de não ser mais novidade, a sugestão do filme O exorcismo de Emily Rose (2005) serve para que ele seja revisto com olhos mais críticos. Baseado em fatos reais, o filme fala de uma jovem que, sem respostas positivas aos problemas psíquicos que apresenta, acaba sendo sumbetida a sessões de exorcismo nos moldes católicos. O filme, além do terror que causa e que pode ser classificado como o gênero ao qual pertence, gira em torno do julgamento do padre que realiza as sessões para expulsão dos demônios, por responsabilidade na morte da moça durante o processo. E onde nós, candomblecistas entramos nisso?

A personagem real no qual o filme foi baseado se chama Annelise Michel. Jovem alemã de família católica, nascida em 1952, começou, aos dezesseis anos, a apresentar sintomas que foram diagnosticados pelos médicos, a princípio, como epilepsia e esquizofrenia. Após muitos exames e tratamento em clínica psiquiátrica, Annelise continuou seus estudos, indo para a universidade. No entanto, visões e vozes ameaçadoras a perseguiam, ao ponto de ela mesma concluir sofrer de possessão demoníaca que a colocavam em profundas depressões. Durante todo o processo e até bem perto do final das sessões de exorcismo, Annelise foi tratada com poderosos psicotrópicos que, ainda assim, se mostraram ineficazes para deter as crises convulsivas.

Assim foi com a americana Emily Rose. A prescrição médica que a jovem recebe é tida como de inútil valia, uma vez que o caso de Emily não seria de ordem natural. Pior, é dito que tais medicamentos são drogas entorpecentes, sedativos que alienam a jovem de suas faculdades de lucidez e auto-governo, tornando impossível sua auto-preservação.

Em certa altura dos acontecimentos, o padre convencido do estado de possessão da jovem a aconselha a parar de tomar os medicamentos, pois os demônios estavam se aproveitando do estado sedativo de Emily Rose. Acontece que a jovem vem a morrer e o padre Moore, o responsável pelo tratamento espiritual, é acusado de negligência e homicídio culposo, e levado à corte.

Até onde podemos colocar nas mãos dos Orixás a responsabilidade sobre a integridade física e mental de um cidadão? O Candomblé lida com uma terapêutica baseada em recondicionamento espiritual, mental e comportamental que leve a um status mais saudável e de acordo com a própria natureza energética. Isto alcança boas respostas em doenças psicossomáticas ou outras físicas, geradas por comportamentos desalinhados com a identidade de cada indivíduo, apontada pelos próprios padrões internos à religião.

Diversos rituais são realizados tendo como objetivo saúde física e mental, como sabemos. Ebós, bori e outros, de variados graus de complexidade e em processos mais ou menos longos, onde o "paciente" se coloca sob a responsabilidade do sacerdote que os ministram. Em alguns rituais, o isolamento do mundo externo ao terreiro é necessário. O filho de santo fica longe dos olhos da família, impedida de receber visitas.

Muitas vezes problemas físicos diagnisticados, ou não, são indicadores de desacordo energéticos e espirituais que levam à necessidade de grandes rituais como a iniciação em processos de imersão na religião dos Orixás. Não estamos falando apenas de problemas mentais, como os citados no filme. No entanto, os métodos religiosos de cura não são compreendidos pelo Estado laico brasileiro, ou ainda, os sacerdotes de diversos credos não estão preparados para lidar e administrar em paralelo cuidados alternativos aos métodos convencionais da medicina. Se não é tolerado um iaô (iniciando) dopado, sob o efeito de drogas psicotrópicas, por exemplo, dentro do roncó, o útero sagrado dos Orixás, como seria possível garantir que não haverão efeitos não desejados pelo babalorixá, mas previsíveis pela ausência do tratamento alopático? Um iniciando pode ser administrador de medicamentos de uso controlado para diabetes e problemas cardíacos, por exemplo.

A fé nas divindades é uma boa resposta, mas pouco sabemos dos planos divinos e do destino. Se Ifá revela o destino, ele o faz de acordo com a sabedoria dos deuses e não baseando-se na leitura deficiente dos humanos destas informações. A sabedoria popular afirma que tudo já está escrito. A partir das condições atuais se pode prever o desenrolar das situações. Portanto, ignorar elementos e indicadores de caminhos para o bem-estar e a recuperação da ple
nitude do filho de santo é uma situação de alto risco e que pode trazer consequencias pesadas para o gestor e para outros membros da comunidade do terreiro.

O EXORCISMO DE EMILY ROSE
EUA | 2005 | 110min
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Laura Linney, Tom Walkingson, Jennifer Carpenter



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