terça-feira, 29 de setembro de 2009

IV Kipupa Malunguinho - Coco na mata do Catucá 2009


Uma tradição dinâmica

Kipupa significa união, agregação de pessoas, associação de indivíduos em prol de algum objetivo, este termo também dá nome a uma cidade em Angola que se formou pela agregação de refugiados da guerra civil para formarem um gigante quilombo de esperança e reconstrução identitária, Malunguinho, vem do vocábulo Malungo que significa camarada, amigo, companheiro de bordo e de lutas, palavras pertencentes ao tronco lingüístico Kimbundo, língua falada em Angola, país de que vieram estes negros guerreiros. Malunguinho é o título dado aos líderes quilombolas pernambucanos que no século XIX fizeram ferver a capital na luta por liberdade e seus direitos.

O KIPUPA Malunguinho nasce em 2006 do anseio de resgatar e dar visibilidade a nossas lideranças históricas negras/indígenas negadas pela historiografia oficial, a exemplo do líder negro Malunguinho e tantos outros, destacando o papel de Pernambuco na resistência negra no Brasil. Determinamos o mês de Setembro para realização anual do evento em homenagem ao ultimo líder Malunguinho do Quilombo do Catucá, o João Batista que teve sua data de morte comprovada a partir de documentos existentes no Arquivo Publico Estadual Jordão Emerenciano, em 18 de setembro de 1935.

O Quilombo Cultural Malunguinho- Histórico e Divino, entidade idealizadora e realizadora do evento, implanta a partir da realização do I° Kipupa Malunguinho, ocorrido em setembro de 2006, um calendário permanente para comemorações e homenagens as lideranças negras históricas. Sobre tudo por que em setembro de 2007 aprovamos a lei estadual 13.298/07, a Lei da Semana Estadual da Vivência e Pratica da Cultura Afro Pernambucana, a Lei Malunguinho, que ainda não foi sancionada pelo governador, que a o fará ainda este mês.

O objetivo do evento é manter viva a memória e história dos líderes quilombolas, construindo o sentimento de pertencimento e reconhecimento nacional a estes líderes negros, através das discussões de temáticas sócios- educacionais e culturais, com a participação de sacerdotes e sacerdotisas da Jurema Sagrada, do Candomblé (Xangô), pesquisadores, estudiosos, mestres e mestras da cultura tradicional e popular, músicos e interessados, materializando em matas fechadas do antigo quilombo de Malunguinho um a possibilidade de imersão na vivência e prática na cultura afro indígena pernambucana, através de debate, ritual (liturgia da Jurema) e o grande coco da mata, com mestres de renome como Mestre Galo Preto, Mestra Eliza do Coco, Bongar e outros que tem na tradição cotidiana o contato com nossas matrizes fundadoras da identidade nacional.

Todo evento é para homenagear e reconhecer Malunguinho, líder negro que elevou-se à divindade na Jurema assumindo a patente de Rei da Jurema, se firmando na tradição oral e teológica nordestina como defensor espiritual, posto este que o diferencia de Zumbí dos Palmares que não “baixa” nos terreiros.

O Kipupa Malunguinho, Coco na Mata do Catucá é um evento único no gênero. Nele o participante poderá conhecer parte de nossa história que não está nas escolas nem nos livros. Poderá brincar e vivenciar coletivamente a experiência de adentrar nas tradições menos acessíveis ao público, por serem na maioria religiosas/culturais.

Todo roteiro é feito para poder-se experienciar a vida daqueles negros e negras que ali (matas do engenho Pitanga II- Abreu e lima - Catucá) lutaram, viveram e morreram.

ROTEIRO E PROGRAMAÇÃO

Mestras e Mestres convidados: Mestre Galo Preto, Dona Eliza do Coco, Bongar, O Tronco da Jurema, dentre outros artistas do coco pernambucano.

7h. Saídas dos ônibus (Memorial Zumbí- Carmo Recife) e dos terreiros e municípios de Paulista, São Lourenço da Mata, Recife, Goiana etc;

8h. Encontro na Prefeitura de Abreu e Lima dos ônibus e pessoas;

9h. Chegada na mata.

9h. e 20min. Abertura com diálogo e palestra sobre Malunguinho (normas do evento)...

10h. Entrada na mata com ritual e grupos de capoeira, maracatu e caboclinho saudando Malunguinho;

10h. e 30min. Ritual para Malunguinho com Juremeiros e povo de terreiro (gira, cânticos, louvações e obrigação);

11h e 40min. Descida ao centro da Mata do Catucá, arrastão do coco de mata à dentro...

12h. e 20min. Coco na Mata com os mestres e mestras do coco e da Jurema.

15h retorno para almoço tradicional da Jurema;

15... Mais coco...

17. Fechamento e retorno do comboio de Malunguinho.



SERVIÇO:

O que: IV Kipupa Malunguinho, Coco na Mata do Catucá 2009.
Onde? Matas do Engenho Pitanga II, Área Rural de Abreu e Lima (Catucá).
Que horas: Saída as 7h da manhã no Memorial Zumbí dos Palmares. Carmo Recife.
Colaboração: R$10,00. Ônibus e almoço grátis.


CONTATOS:
Alexandre L’Omi L’Odò- 81 8887-1496 / João Monteiro- 81 9428-4898
quilombo.cultural.malunguinho@gmail.com
www.qcmalunguinho.blogspot.com

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Álbum resgata culto aos orixás

Música - Publicado em 22.09.2009, às 21h07 - Luís Fernando Moura Do Caderno C

José Amaro reuniu os músicos e promoveu a volta às bases negras de nossa formação sociocultural

José Amaro reuniu os músicos e promoveu a volta às bases negras de nossa formação sociocultural
Foto: Tiago Calazans/ JC Imagem

Ao passo em que a nossa cultura se transforma, a memória das raízes afro-brasileiras periga ficar à margem do que nos move, quase sempre pelos impulsos do que está em alta no mercado. Por meio de iniciativa do Serviço Social do Comércio (Sesc), o professor de música José Amaro Santos da Silva reuniu alguns músicos e promoveu uma volta às bases negras da nossa formação sociocultural. Quer incluir orixás no circuito. “Somente os judaico-cristãos não souberam assimilar essa maravilha cultural religiosa”, afirma na apresentação do primeiro disco do grupo Korin Orishá, que será lançado nesta quarta-feira (23), a partir das 20h, no Teatro Santa Isabel.


Batizada de Suíte afro-recifense, a obra busca resgatar manifestações afro-brasileiras que se desenvolveram em território pernambucano. O título de suíte indica a transposição dos cânticos em peças para um grupo de câmara tal qual é a formação do grupo. “Eu tinha a aspiração de ver a música do candomblé tocada por instrumentos clássicos, embora não seja a primeira vez que isso é feito. O maestro paraibano José Siqueira escreveu um oratório de candomblé com base em cânticos dos orixás pesquisados na Bahia. A nossa diferença é que fazemos com cânticos daqui, que são bastante diferentes”, diz José Amaro, regente do grupo, solista de canto e também diretor artístico do projeto.

OUÇA SUÍTE AFRO-RECIFENSE:
<< Faixa 1 - Cânticos para Eshu
<< Faixa 2 - Cânticos para Ogum

O resultado é um diálogo entre instrumentos de corda (violino, viola e violoncelo) e de sopro (flauta, clarineta e fagote), típicos de uma formação clássica, com sabor afro-brasileiro: tanto a percussão, por meio de atabaques do candomblé, abê e gongê, quanto o canto, preservado na língua iorubá, remetem à experiência musical e religiosa africana.
“Nossa ideia é partir das melodias e estruturá-las em polifonias distribuindo numa harmonia entre todo o conjunto. Isso faz com que a música seja altamente valorizada”, acredita José Amaro. Ao lado dele, a solista de canto Anástica Rodrigues imprime timbre feminino aos cânticos.
A apresentação deve seguir a progressão musical do disco respeitando a formatação dos rituais. “Vamos fazer exatamente como se faz nos terreiros: seguindo a roda”, afirma o regente. A suíte tem início com os Cânticos para eshu, segue-se com os Cânticos de ogum até os Cânticos de orishalá, que encerram a jornada. No total, são dez faixas.


RESGATE - “Herdamos uma tradição cultural dos africanos trazidos para o Brasil na época da escravidão. Temos que nos impor a missão de restaurar, reviver ou, pelo menos, não deixar morrer essa cultura”, diz José Amaro.
Com o resgate em mente, o Kori Orishá rodou 16 Estados brasileiros com patrocínio do Sesc. Passou por Acre, Amazonas, Roraima e Tocantins. No Sul, atravessou Paraná e Rio Grande do Sul. Entre vários shows pelo Nordeste, o grupo viajou por vários municípios pernambucanos e terminou a turnê no Rio de Janeiro somando um total de 42 apresentações. O lançamento da suíte é resultado de projeto aprovado pelo Conselho Municipal de Política Cultural da Prefeitura do Recife.

Serviço
Lançamento do CD Suíte afro-recifense, do grupo de câmara Korin Orishá ? Quarta (23), a partir das 20h, no Teatro Santa Isabel (Praça da República, s/nº, Santo Antônio). Ingresso: R$ 3. Informações: 3232-2939

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Águas de Oxalá e da humanidade


Este texto foi escrito pelo monge beneditino Marcelo Barros de Souza, pernambucano de Camaragibe, para a Adital, Agência de Informação Frei Tito para a América Latina. Mas porque divulgar dentro do Povo do Axé uma agência de notícias cristã? Porque todos temos o mesmo nome como seres sociais: gente. A Adital coloca como seus objetivos, estimular um jornalismo de cunho ético e social, favorecer a integração e solidariedade entre os povos, desvendar para o mundo a dignidade dos que constroem cidadania, entre outros. Para nós apenas este último já é motivo para se trocar reverências como fazemos entre os nossos.

No belíssimo vídeo Candomblé, Religião de Resistência, disponibilizado na rede através do Youtube, com direção de Marco Velasquez e narração de Mãe Márcia de Oxum, a ialorixá fala sobre a convivência entre religiões:

"Um caminho que leve ao bem, que leve à luz - eu digo sempre que Deus é o bem - Então, não tem importância que nome tem. Pode ser Ghandi
, Jesus cristo, Oxalá, Olodumare, pra mim essa é minha opinião: o bem é o bem e o mal é o mal e você escolhe isso."

Quando é para o bem da humanidade, o que mais importa é valorizar o respeito ao que mantém o equilíbrio e promove o desenvolvimento humano e natural do nosso planeta. O Candomblé, e nós adeptos sabemos bem disso, é uma das religiões que mais respeita o planeta e o ecossistema. Nós, os candomblecistas, por sua vez, ainda temos muito a aprender dentro do culto e, melhor ainda, praticar. É por isso que valorizamos o trabalho do monge Marcelo Barros, autor de livros como O Espírito vem pelas Águas (como enfrentar a crise mundial da água através de uma espiritualidade ecumênica).


Pelo texto a seguir, temos uma noção do grande patrimônio que nós afrodescendentes e especialmente os candomblecistas temos nas mãos e o quanto é valioso e deve ser explorado. Não deixemos isso à sorte dos outros. Façamos a nossa parte.


ÁGUAS DE OXALÁ E DA HUMANIDADE
Marcelo Barros, para a Adital, publicado em 25/09/2006

"Para a maioria do povo brasileiro, as festas da tradição cristã como Natal e Páscoa são importantes datas do calendário e poucos se dão conta de que os judeus celebram a festa do Ano Novo (Hosh hash ana) neste final de semana de setembro e outras tradições têm seu calendário próprio. Se queremos contribuir para a paz e o diálogo entre as culturas, precisamos, sem, de forma alguma, descurar da nossa tradição própria, valorizar a dos outros e assim descobrir que, como diz o livro bíblico da Sabedoria: "O Espírito do Senhor preenche todo o universo e abraça todas as culturas e todas as palavras humanas" (Sb 1, 7).
Desde a madrugada desta 6ª feira, as comunidades afro-brasileiras de tradição Ioruba acordam de madrugada para começar a festa das Águas de Oxalá. Se alguém quiser fazer uma comparação indevida e inadequada com a tradição cristã - não se devem fazer comparações assim - poderia associar a festa das Águas de Oxalá com a Vigília Pascal, abrindo verdadeiramente a primavera, nesta parte do mundo em que o que caracteriza esta estação é a vinda das chuvas benfazejas. A festa das Águas de Oxalá revive um belo mito africano. Oxalá sente saudade do seu filho Xangô, rei de Oiô e vai visitá-lo. Para obedecer à previsão do destino (Orumilá), vai de branco e em silêncio absoluto. No meio do caminho, Exu lhe pede que o ajude a levantar do chão um pesado saco de carvão e depois um barril de azeite de dendê. Oxalá o faz. O saco estava furado e o barril também se derramou sobre Oxalá que suja toda sua roupa branca.

Chegando ao reino do seu filho, Oxalá, todo sujo, é confundido com um bandido e é jogado na prisão por sete anos. Neste tempo, o reino de Xangô enfrenta muitos problemas e um babalaô lhe diz que o reino passa por tantas adversidades porque o rei compactua com injustiças. Xangô vai então às prisões para averiguar se há injustiças e descobre entre os presos o próprio pai. Triste, coloca o velho pai em suas próprias costas e o conduz ao palácio onde ele mesmo se encarrega de banhá-lo e vestí-lo com as roupas mais brancas que existem, realizando a seguir uma grande festa em sua homenagem. A festa das Águas de Oxalá, com uma procissão representando a viagem de Oxalá, rememora este episódio.

Como todo mito, este também é simbólico e aberto. Não é respeitoso reduzir um fato acreditado em uma religião a pura lenda. Todo mito é mais do que lenda. Independentemente da sua veracidade histórica, esta visita de Oxalá a Xangô significa que a justiça divina (Xangô) liberta a bondade providencial do Criador (Oxalá) que vem sobre o mundo como águas benfazejas da primavera. A volta das chuvas da primavera representa esta visita nova e renovadora do amor à justiça. De um modo ou de outro, todas as religiões contam histórias para mostrar o que diz o salmo 85: "a justiça e a paz, a verdade e o amor têm de se encontrar e se abraçar".

Mais do que nunca a humanidade precisa de uma grande festa das águas. Todos os anos, especialistas de 140 países se reúnem na Suécia para a Semana Mundial da Água. A cada ano, estes estudiosos constatam ser mais grave a carência de água no planeta Terra. Neste ano, este encontro ocorreu de 20 a 26 de agosto e reiterou que um terço da população mundial já sofre com a escassez de água potável. Isso é ainda mais grave porque este quadro era previsto somente para 2025 e já está acontecendo em 2006. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a cada ano, cerca de 2, 2 milhões de pessoas, muitas delas crianças, morrem em razão da falta d´água e de suas conseqüências.

Esta crise de água, explicável pela má distribuição dos rios e lagos na superfície terrestre, é agravada pelo aquecimento global e pela devastação de áreas úmidas, mas principalmente pelo desperdício e pela má gestão dos recursos hídricos, termo impróprio, já que água não é mercadoria para ser recurso. Água é um bem da natureza que está no planeta há bilhões de anos. É o ambiente onde surgiu a vida e componente de cada ser vivo. Por isso, o supremo valor da água é o biológico. Recurso hídrico é a parcela da água usada pelos seres humanos para alguma atividade, principalmente econômica. Portanto, água é um conceito muito mais amplo que recurso hídrico, embora sejam indissociáveis.

A questão é que o uso da água hoje é muito mais intenso que em algumas décadas atrás. Hoje, a média mundial é que da água doce utilizada, 70% destinam-se para agricultura, 20% para indústria e 10% para o consumo humano. Esse uso intenso da água, principalmente na agricultura e na indústria, ocorre num ritmo mais acelerado que a reposição feita pelo ciclo natural das águas. Dessa forma, muitos mananciais estão sendo eliminados pelo sobre uso que deles se faz. Pior, ao devolver a água para seu ciclo natural, ela vem contaminada pelos agrotóxicos da agricultura e pela química da indústria. A falta de saneamento ambiental, sobretudo em países pobres, colabora para a contaminação dos mananciais.A festa das Águas de Oxalá é realizada em bairros de periferia, nos quais nem sempre o acesso à água é fácil. É uma profecia espiritual que indica ao mundo que a solução para a crise da água não pode ser a mercantilização nem a privatização. Que toda a humanidade se coloque como as filhas e filhos de santo na procissão de Oxalá, carregando cada pessoa o seu recipiente de água para colocar em comum com todos. Água é direito humano universal e só quando é posta em comum pode ser fonte de vida e de bênçãos para todo ser vivo."

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A cobra-fêmea do céu cor-de-rosa

Ewá é livre, a liberdade é sua casa. A casa de Ewá não tem paredes, não tem teto: é o mundo. Ewá não tem dono, traça seu próprio destino, escreve sua história. Rósea, brilha no brilho das estrelas. Reluzente, ascende quando o sol se põe. Vermelha, púrpura, magenta, todas as cores do fim da tarde são de Ewá. O céu da tarde é o seu rosto, a luz das estrelas, os seus olhos; o barulho das águas, a sua voz; o guizo das serpentes, o seu brado. É livre! Cobra não reconhece dono. Ri Ró Ewá!