segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Águas de Oxalá e da humanidade


Este texto foi escrito pelo monge beneditino Marcelo Barros de Souza, pernambucano de Camaragibe, para a Adital, Agência de Informação Frei Tito para a América Latina. Mas porque divulgar dentro do Povo do Axé uma agência de notícias cristã? Porque todos temos o mesmo nome como seres sociais: gente. A Adital coloca como seus objetivos, estimular um jornalismo de cunho ético e social, favorecer a integração e solidariedade entre os povos, desvendar para o mundo a dignidade dos que constroem cidadania, entre outros. Para nós apenas este último já é motivo para se trocar reverências como fazemos entre os nossos.

No belíssimo vídeo Candomblé, Religião de Resistência, disponibilizado na rede através do Youtube, com direção de Marco Velasquez e narração de Mãe Márcia de Oxum, a ialorixá fala sobre a convivência entre religiões:

"Um caminho que leve ao bem, que leve à luz - eu digo sempre que Deus é o bem - Então, não tem importância que nome tem. Pode ser Ghandi
, Jesus cristo, Oxalá, Olodumare, pra mim essa é minha opinião: o bem é o bem e o mal é o mal e você escolhe isso."

Quando é para o bem da humanidade, o que mais importa é valorizar o respeito ao que mantém o equilíbrio e promove o desenvolvimento humano e natural do nosso planeta. O Candomblé, e nós adeptos sabemos bem disso, é uma das religiões que mais respeita o planeta e o ecossistema. Nós, os candomblecistas, por sua vez, ainda temos muito a aprender dentro do culto e, melhor ainda, praticar. É por isso que valorizamos o trabalho do monge Marcelo Barros, autor de livros como O Espírito vem pelas Águas (como enfrentar a crise mundial da água através de uma espiritualidade ecumênica).


Pelo texto a seguir, temos uma noção do grande patrimônio que nós afrodescendentes e especialmente os candomblecistas temos nas mãos e o quanto é valioso e deve ser explorado. Não deixemos isso à sorte dos outros. Façamos a nossa parte.


ÁGUAS DE OXALÁ E DA HUMANIDADE
Marcelo Barros, para a Adital, publicado em 25/09/2006

"Para a maioria do povo brasileiro, as festas da tradição cristã como Natal e Páscoa são importantes datas do calendário e poucos se dão conta de que os judeus celebram a festa do Ano Novo (Hosh hash ana) neste final de semana de setembro e outras tradições têm seu calendário próprio. Se queremos contribuir para a paz e o diálogo entre as culturas, precisamos, sem, de forma alguma, descurar da nossa tradição própria, valorizar a dos outros e assim descobrir que, como diz o livro bíblico da Sabedoria: "O Espírito do Senhor preenche todo o universo e abraça todas as culturas e todas as palavras humanas" (Sb 1, 7).
Desde a madrugada desta 6ª feira, as comunidades afro-brasileiras de tradição Ioruba acordam de madrugada para começar a festa das Águas de Oxalá. Se alguém quiser fazer uma comparação indevida e inadequada com a tradição cristã - não se devem fazer comparações assim - poderia associar a festa das Águas de Oxalá com a Vigília Pascal, abrindo verdadeiramente a primavera, nesta parte do mundo em que o que caracteriza esta estação é a vinda das chuvas benfazejas. A festa das Águas de Oxalá revive um belo mito africano. Oxalá sente saudade do seu filho Xangô, rei de Oiô e vai visitá-lo. Para obedecer à previsão do destino (Orumilá), vai de branco e em silêncio absoluto. No meio do caminho, Exu lhe pede que o ajude a levantar do chão um pesado saco de carvão e depois um barril de azeite de dendê. Oxalá o faz. O saco estava furado e o barril também se derramou sobre Oxalá que suja toda sua roupa branca.

Chegando ao reino do seu filho, Oxalá, todo sujo, é confundido com um bandido e é jogado na prisão por sete anos. Neste tempo, o reino de Xangô enfrenta muitos problemas e um babalaô lhe diz que o reino passa por tantas adversidades porque o rei compactua com injustiças. Xangô vai então às prisões para averiguar se há injustiças e descobre entre os presos o próprio pai. Triste, coloca o velho pai em suas próprias costas e o conduz ao palácio onde ele mesmo se encarrega de banhá-lo e vestí-lo com as roupas mais brancas que existem, realizando a seguir uma grande festa em sua homenagem. A festa das Águas de Oxalá, com uma procissão representando a viagem de Oxalá, rememora este episódio.

Como todo mito, este também é simbólico e aberto. Não é respeitoso reduzir um fato acreditado em uma religião a pura lenda. Todo mito é mais do que lenda. Independentemente da sua veracidade histórica, esta visita de Oxalá a Xangô significa que a justiça divina (Xangô) liberta a bondade providencial do Criador (Oxalá) que vem sobre o mundo como águas benfazejas da primavera. A volta das chuvas da primavera representa esta visita nova e renovadora do amor à justiça. De um modo ou de outro, todas as religiões contam histórias para mostrar o que diz o salmo 85: "a justiça e a paz, a verdade e o amor têm de se encontrar e se abraçar".

Mais do que nunca a humanidade precisa de uma grande festa das águas. Todos os anos, especialistas de 140 países se reúnem na Suécia para a Semana Mundial da Água. A cada ano, estes estudiosos constatam ser mais grave a carência de água no planeta Terra. Neste ano, este encontro ocorreu de 20 a 26 de agosto e reiterou que um terço da população mundial já sofre com a escassez de água potável. Isso é ainda mais grave porque este quadro era previsto somente para 2025 e já está acontecendo em 2006. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a cada ano, cerca de 2, 2 milhões de pessoas, muitas delas crianças, morrem em razão da falta d´água e de suas conseqüências.

Esta crise de água, explicável pela má distribuição dos rios e lagos na superfície terrestre, é agravada pelo aquecimento global e pela devastação de áreas úmidas, mas principalmente pelo desperdício e pela má gestão dos recursos hídricos, termo impróprio, já que água não é mercadoria para ser recurso. Água é um bem da natureza que está no planeta há bilhões de anos. É o ambiente onde surgiu a vida e componente de cada ser vivo. Por isso, o supremo valor da água é o biológico. Recurso hídrico é a parcela da água usada pelos seres humanos para alguma atividade, principalmente econômica. Portanto, água é um conceito muito mais amplo que recurso hídrico, embora sejam indissociáveis.

A questão é que o uso da água hoje é muito mais intenso que em algumas décadas atrás. Hoje, a média mundial é que da água doce utilizada, 70% destinam-se para agricultura, 20% para indústria e 10% para o consumo humano. Esse uso intenso da água, principalmente na agricultura e na indústria, ocorre num ritmo mais acelerado que a reposição feita pelo ciclo natural das águas. Dessa forma, muitos mananciais estão sendo eliminados pelo sobre uso que deles se faz. Pior, ao devolver a água para seu ciclo natural, ela vem contaminada pelos agrotóxicos da agricultura e pela química da indústria. A falta de saneamento ambiental, sobretudo em países pobres, colabora para a contaminação dos mananciais.A festa das Águas de Oxalá é realizada em bairros de periferia, nos quais nem sempre o acesso à água é fácil. É uma profecia espiritual que indica ao mundo que a solução para a crise da água não pode ser a mercantilização nem a privatização. Que toda a humanidade se coloque como as filhas e filhos de santo na procissão de Oxalá, carregando cada pessoa o seu recipiente de água para colocar em comum com todos. Água é direito humano universal e só quando é posta em comum pode ser fonte de vida e de bênçãos para todo ser vivo."

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