quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mostra da Culinária de Terreiro aporta no Museu da Abolição

Evento, que acontece de sexta (24) a domingo (26 ), oferece ao público a oportunidade de conhecer - e degustar gratuitamente - as iguarias servidas nas Casas de Candomblé

Da Redação do pe360graus.com

Divulgação| Luiz Santos

Foto: Divulgação| Luiz Santos

A riqueza de sabores da gastronomia afro-brasileira ganha destaque na segunda edição da Mostra da Culinária de Terreiro de Pernambuco. O evento, que este ano aporta no Museu da Abolição entre os dias 24 e 26 de setembro, oferece ao público a oportunidade de conhecer - e degustar gratuitamente - as iguarias servidas nas Casas de Candomblé durante os rituais da religião de matriz africana, também conhecida como Xangô.

Além de saborear delícias como o "Padê" e o "Ekurú", os visitantes receberão informações sobre a história e a significação religiosa das receitas. A entrada também é gratuita.

Ao todo, 13 tendas estarão montadas na área externa no Museu, cada uma delas administrada por um terreiro de Candomblé de Pernambuco, selecionados pelo Centro de Cultura Afro Pai Adão. Cada estande apresentará comidas ligadas a um determinado deus africano, chamados de “Orixás”.

Haverá ainda uma barraca dedicada às crianças, ou “erês”, com pipocas, balas e outras guloseimas. A concessão aos pequeninos se deve à proximidade do Dia de Cosme e Damião, comemorado em 27 de setembro, que, na tradição do Candomblé é representado pelo Orixá Beiji.

Entre as receitas que integram a Mostra, algumas já familiares aos pernambucanos, como o Acarajé e o Vatapá. A maior parte dos pratos, no entanto, ainda é restrita aos adeptos dos rituais realizados nas Casas de Candomblé, a exemplo do Padê (farinha de mandioca, cebola), frango para Exu na Nação Xambá (frango, azeite de dendê e cebolinho) e do Ekurú (feijão macaça, azeite de dendê, camarão e cebola).

Há, ainda o Beguiri, à base de carne e quiabo, e, novidade nesta edição da mostra, a moqueca de peixe que, segundo Manoel Papai, é diferente das preparadas nos terreiros baianos.

Realizada pela empresa de Produção Cultural Aurora 21, com patrocínio do Fundo de Incentivo à Cultura de Pernambuco (Funcultura), a programação da Mostra contemplará ainda apresentações de cânticos em ritmos africanos e toadas em línguas africanas.

ATRAÇÕES
Além das próprias barracas com comidas, a Mostra de Culinária de Terreiro vai promover, a cada dia, uma atração artística significativa da cultura afro. Veja a programação:

DIA 24/09 (sexta-feira)
19h - Abertura com apresentação do ritual de cânticos sagrados a serem entoados nas línguas africanas das nações Xambá, Iorubá e Bantu, com percussão de ilus (atabaques), abês e agogôs.

DIA 25/09 (sábado)
18h - Apresentação do grupo de afoxé Povo de Ogunté, remanescentes de Pai Adão, considerado a maior personalidade do Xangô no Recife.

DIA 26/09 (domingo)
18h - Apresentação do maracatu mirim "Raízes de Pai Adão", formado por tataranetos de Pai Adão

SERVIÇO
Mostra da Culinária de Terreiro de Pernambuco
Quando: de 24 a 26 de setembro de 2010, das 16h às 21h.
Onde: Museu da Abolição (Rua Benfica, 1150 - Madalena - Recife/PE)
Quanto: entrada gratuita

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mais notícias do Festival

Brindar e comer como santo

Publicado em 20.08.2010, às 19h59

Flávia de Gusmão Do Jornal do Commercio
Risoto ao axé de frutos do mar, com tilápia na manteiga de ervas é a pedida do Varekai
Risoto ao axé de frutos do mar, com tilápia na manteiga de ervas é a pedida do Varekai
Foto: Divulgação

Coquetéis ganham o espaço que merecem no Festival Comida de Santo, realizado entre os dias 23 e 31 de agosto em 14 restaurantes do Recife e de Olinda. O evento gastronômico propõe menu temático (R$ 45 que incluem drinque de boas vindas, entrada, prato principal e sobremesa) montado a partir dos elementos que compõem o perfil de cada orixá das religiões de origem africana.

O festival tem a consultoria gastronômica do chef Leandro Ricardo, que foi o primeiro a transpor para as mesas dos restaurantes do circuito estrelado, com a devida releitura, as comidas cerimoniais do candomblé.

Se é a partir do welcome drink que conhecemos o valor de um evento como este, então, o Festival Comida de Santo está um verdadeiro primor em termos de criatividade, empenho e coerência com o mote proposto. Os orixás representados têm, por assim dizer, gostos muito específicos no que diz respeito à sua alimentação. Uns gostam de milho, outros de pimenta, outros de suculentos cozidos, outros de farofa e assim por diante. Obviamente, estes ingredientes devem surgir nos pratos que representam a divindade.

No que diz respeito aos coquetéis criados especialmente para o evento, sobressaem-se características como cores e elementos da natureza a eles associados. Por exemplo, o drinque criado pelo Afonso&Anísio – a caipirinha de maçã vermelha – alude ao encarnado, cor por excelência do santo guerreiro Xangô. No menu, estão opções como o abará de frutos do mar, a polenta branca, com ragu de rabada e farofa de camarões . Como sobremesa: choux de maçã vermelha em calda de maçã do amor.

O Thaal brinda Oxóssi, o orixá da caça e da fartura, com uma caipirinha de maracujá e manga com picolé de limão. Por comer tudo quanto é caça, nada mais apropriado a este santo do que um menu composto por bolinho de feijão branco recheado com confit de avestruz (entrada) e tournedor de javali com purê de batata doce cítrico (principal). Se Ossaim é a entidade das folhas sagradas, ervas medicinais e litúrgicas, então, o coquetel proposto pelo La Douane, seu hospedeiro, é perfeito: uma variação rabo de galo que, em vez do vermute mistura a cachaça com vinho do Porto e o limão torcido para liberar seus óleos essenciais.

Tudo bem curativo, ou não? Em seu cardápio, o La Douane traz minimix de verdes com charuto de legumes grelhados nas ervas, nhoque de mandioca ao ragu de codorna e pannacota de coco ao molho quente de manga com especiarias.

RESTAURANTES PARTICIPANTES

Afonso & Anísio
Santo: Xangô
Welcome drink: Caipirinha de maçã vermelha
Entrada: Abará de frutos do mar
Prato principal: Polenta branca, com ragú de rabada e farofa de camarões
Sobremesa: Choux de maçã vermelha em calda de maçã do amor

Beijupirá

Santo: Iansã
Welcome drink: Champagne com bolinhas de melancia
Entrada: Acarajini –Blini de acarajé com vatapá e camarões no azeite de côco
Prato principal: Bobó de camarão com manga, arroz de amendoim e gengibre
Sobremesa: Maçã cozida com calda de chocolate branco e menta

Ça-Va

Santo: Oxalá
Welcome drink: Caipi citron /pomme: caipirinha de Pitu Gold, limão siciliano e maçã verde
Entrada: Escargots à nouvelle bourguignone: caracóis a molho cremoso ao azeite de ervas e alho com torradas de pão de tapenade
Prato principal: Le Canard: coxa de pato confit em crosta, molho de cogumelos e risotto de pêra ao vinho tinto e gorgonzola
Sobremesa: Blanc des Blancs: mousse de chocolate branco e cream cheese com calda de mel, especiarias e uvas passas brancas ao sauternes

Dalí Cocina

Santo: Nanã
Welcome drink: Levanta Saia
Entrada: Terrine de Munguzá com chips de batata doce e redução do Levanta Saia.
Prato principal: Resgate do Mangue: linguini de tinta de lula com purê de feijão fradinho, txangurro de carne de caranguejo com mariscos ao coco e redução cítrica de beterraba e laranja.
Sobremesa: Cestinha de massa de tapioca com compota de açaí e coulis de amora.

In Bistrô

Santo: Obá
Welcome drink: Caipirinha de Reis: Pitu Gold, romã e limão siciliano
Entrada: Caprese chaude - Sarcófago de massa folhado ao tomate, queijo e manjericão e mix de folhas
Prato principal: Filé ao pout pourri de cogumelos com linguine fresco ao molho de queijo taleggio
Sobremesa: Petit gateau de frutas vermelhas com sorvete de iorgute

It
Santo: Ibeji
Welcome drink: Tradicional caipirinha
Entrada: Caldinho de camarão do chef
Prato principal: Vatapá do chef com moqueca de camarão e farofa de dendê
Sobremesa: Bolo de tapioca com calda quente de gengibre

Just Madá
Santo: Logun Edé
Welcome drink: Limonada suíça com toque de cachaça
Entrada: Eko - polenta de forno servida com tilápia ao confit de ervas pernambucanas.
Prato principal: Ipeté - inhame rosti servido com camarão ao veludo de côco verde.
Sobremesa: Oin - mousse de batata doce servida com lâminas de frutas cítricas e mel.

La Comédie
Santo: Omulu
Welcome drink: CaipIfruta Abre Caminhos: caipifruta de limão e abacaxi ao hortelã
Entrada: Atotô de Omulu - Salada de queijo de cabra, tomate seco e bacon crocante ao azeite de manjericão
Prato principal: Bisteca de Porco Xarxará - bisteca de porco ao molho de mostarda e abacaxi acompan­hada de tian de abobrinha
Sobremesa: Doçura para Omulu: crumble de maçã, banana e coco com sorvete de tapioca

La Douane
Santo: Ossain
Welcome drink: Rabo de galo português ao óleo de limão
Entrada: Mini-mix de verdes com charuto de legumes grelhados nas ervas
Prato principal: Nhoque de mandioca ao ragu de codorna
Sobremesa: Pannacota de coco ao molho quente de manga com especiariais.

Maison do Bonfim
Santo: Ogum
Welcome drink: com cachaça
Entrada: Salada de Fígado
Prato principal: Galo ao molho curry e pimentões coloridos, acompanhado de tutu de feijão preto com arroz de fraldinha e purê de inhame.
Sobremesa: Mousse de graviola

Oficina do Sabor
Santo: Oxum
Welcome drink: Ijexá - Dança de ritmo cadente e sensual, Caipirinha de Pitu Gold com frutas amarelas ao hortelã e limão siciliano
Entrada: Borí - Uma degustação com amuses bouches, entradinhas pra se divertir e entender um pouco do universo da deusa africana que rege a beleza, riqueza e fertilidade
Prato principal: Omi ro wanran wanran wanran omi ro! As águas do rio fazem ruídos dos braceletes de Oxum! Oxum muito vaidosa, polia suas várias pulseiras de cobre à beira do riacho, antes mesmo de lavar seus filhos. Peixe assado com camarões, creme de açafrão com papardelli ao azeite de manjericão
Sobremesa: Doce pra Oxum: Tal como Romeu e Julieta, Oxum e Xangô tiveram um romance intenso e impossível: Queijo com goiabada em nova roupagem A banana normalmente é oferecida em forma de doce pra oxum. Reinterpretação da nossa Cartola

Pantagruel
Santo: Oxumaré
Welcome drink: Caipirinha de melancia com gengibre
Entrada: Lagosta grelhada sobre mousse da terra: lagosta grelhada com mousse de tomate, cenoura, milho e espinafre.
Prato principal: Camarão com frango: camarões e pedaços de frango ao molho de côco com purê de batata doce e farofa de dendê.
Sobremesa: Mousse de figo: mousse de figo com banana maçaricada com açúcar, canela e cachaça.

Thaal Cuisine
Santo: Oxossi
Welcome drink: Capilé: caipirinha de maracujá e manga com picolé de limão
Entrada: (F’É –JÃ-O.) Pêndulo de bolinho feijão branco crocante perfumado com coentro, recheado com confit de avestruz puxado com molho de vinho varietal suspenso.
Prato principal: (Ó.xÓ.SSi) Torre de tournedor de javali intercalado com cinta crocante cravejado com lança, guarnecido com purê de batata doce cítrico em textura de milho defumado e molho de vinho perfumado com alecrim.
Sobremesa: (Vérte) Monocromática de contas verdes.

Varekai
Santo: Iemanjá
Welcome drink: Caipirinha de tamarindo com açúcar de canela
Entrada: Odoiá de Vieiras: pérola de vieira empanada em milho com redução de moqueca e molho de pimentas da Sé
Prato principal: Abebé de Oxum para Iemanjá: risoto ao axé de frutos do mar, com tilápia na manteiga de ervas e espelho de acerola
Sobremesa: Chimbalauê: Sorvete de caipirinha com tartelete de limão siciliano

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fertival de comida africana nos restaurantes do Recife

Oficina do Sabor, do chef César Santos, é um dos restaurantes participantes do Festival.








Elementos da cultura africana, como os orixás, prometem aquecer o mercado gastronômico local. É que entre os dias 23 e 31 deste mês, 14 restaurantes do Recife e Olinda recebem o “Festival Comida de Santo”. O menu, composto por drink de boas-vindas, entrada, prato principal e sobremesa, custará R$ 45 em todos os estabelecimentos participantes. O evento, inédito no Estado, integra o Ano da Gastronomia no Recife e espera incrementar entre 40% e 45% o movimento nos restaurantes.

“O Festival reforça a multiculturalidade de Pernambuco, fator que atrai muitos turistas. Já quem mora aqui vai ser atraído pela oportunidade de conhecer novas culinárias com um preço acessível”, observa a coordenadora do Ano da Gastronomia no Recife, Mayse Cavalcanti. Cada menu irá homenagear um orixá.

O restaurante Varekai, em Boa Viagem, está reabrindo as portas após a fusão com o Da Noi e vai aproveitar o evento para chamar frequentadores. “Com o Festival, pretendemos renovar o perfil dos clientes, reforçando o novo formato que assumimos no espaço, de misturar comida brasileira com a internacional”, conta a sócia do empreendimento, Karina Cunha.

“Recife é o terceiro maior polo gastronômico do Brasil”, lembra a vice-presidente da Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur), Luciana Carvalho. “Muitas pessoas de outros estados do Nordeste, como a Paraíba, e do Interior do Estado vêm para a capital por causa da variedade gastronômica”, acrescenta.

Os restaurantes participantes são: Afonso & Anísio, Beijupirá, Ça-Va, Dalí Cocina, In Bistrô, It, Jus Madá Logun, La Comédie, La Douane, Maison do Bonfim, Oficina do Sabor, Pantagruel, Thaal Cuisine e Varekai.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Apresentações do Korin Orishá na Torre Malakoff

Korin Orishá: representação musical da cultura e religiosidade Afro-Recifenses






























































































“As melodias transcritas, passadas às pautas, foram arranjadas em estruturas harmônicas e polifônicas, adicionando-se a polirritmia dos atabaques, instrumentos de percussão sagrados do candomblé.

O disco foi produzido por José Amaro com intenções didáticas, para transmitir nas escolas, em todos os níveis (do primário ao universitário), a história dos orishás, assim como a dos instrumentos.”
Fonte da citação: http://www.estudiocarranca.com.br/blog/2009/07/korin-orisha-suite-afro-recifense/

É com imensa honra que hoje divulgamos as apresentações desse grupo que representa religiosidade, cultura, e boa música. Sendo regido pelo Professor José Amaro (sua bençao, meu velho!).

As apresentações ocorrerão durante o mês de Agosto, na Torre Malakoff, em Recife/PE .
Terças, quartas e quintas de Agosto de 2010
03, 05, 10, 12, 17 e 19 – A partir das 15 horas
04, 11, 18 e 19 – A partir das 10 horas

Axé!

(http://ocandomble.wordpress.com)

sábado, 10 de julho de 2010

A iniciação


A INICIAÇÃO
por Márcio de Jagun
(Texto retirado do site http://ocandomble.wordpress.com)


Não há nada mais difícil, desafiador e ao mesmo revelador do que o a iniciação no Candomblé.
O processo iniciático começa com uma lenta regressão. A pouco e pouco, vamos nos desligando da vida profana exterior ao Barracão e mergulhando no ambiente do Terreiro.Nessa imersão, somos gradativamente limpos de todas as energias negativas, das vaidades, das individualidades; e vamos sendo apresentados a uma nova sociedade: a Comunidade de Axé. Essa sociedade tem regras e rotinas próprias. E para bem entendermos essa dinâmica ímpar, aprendemos logo de início os pilares básicos: obediência aos mais velhos, humildade e solidariedade.

Na iniciação, reaprendemos tudo. Reiniciamos a vida. Renascemos para o Orixá e com o Orixá. Inicialmente nos parece incômodo e sem sentido só falarmos quando nos é dada licença; não olharmos nos olhos dos nossos interlocutores; sermos privados das mais íntimas e básicas escolhas. Mas essas são profundas e sábias instruções. São indicativos de que devemos aprender a “sentir”, antes mesmo de aprendermos a “agir”. É dessa sensibilidade, é dessa dedicação que o Orixá precisa para se manifestar em nós de forma plena.

Esse período de regressão e imersão é único. Nunca em toda a nossa existência, teremos 21 dias de retiro para pensarmos exclusivamente em nossa vida. Repensarmos nossos atos, reprojetarmos nossas estratégias de vida, desenvolvermos nossa relação com os Orixás. Neste período, conhecemos suas histórias, regências, energias, rezas, cânticos, toques, danças, mistérios e tabus.

Na iniciação, nos deparamos com as mais fortes manifestações de energia de nossa existência, até então. Morremos e nascemos, pedindo licença e bênçãos a todos os Orixás. Redirecionamos nossos odus (destinos), sedimentamos nosso vínculo definitivo com nosso Orixá. Ao contrário do que pensam, esse chamado vínculo definitivo nada tem de prisão. Pelo contrário! Os Orixás são forças da natureza e na natureza não há prisão, há liberdade! Liberdade de sentir, de perceber, de reconhecer, de intuir, de realizar. A prisão só existe na consciência pesada de cada um. Muitos homens viveram presos em celas, atados a grilhões de ferro, mas eram livres em sua fé, em seus pensamentos. Como nos ensinaram nossos ancestrais escravizados, e como modernamente nos mostrou o ícone Mandela.

Após todos os procedimentos litúrgicos, quando o Orixá dá seu nome diante da Comunidade, ali inicia a festa de nascimento de mais um adepto. Ali festeja-se a preservação e o crescimento da tradição trazida do outro lado do Atlântico, embutida no peito dos escravos. Naquele momento renasce e renova-se a esperança, a vida e a fé. Depois desse evento, como bebês recém-saídos do útero de Oxum, vamos então lentamente sendo reconduzidos à vida, experimentando novamente o retorno aos hábitos do cotidiano. Vamos valorizando a liberdade em cada gesto, em cada pequena permissão que nos é concedida.

Deveríamos falar mais sobre a iniciação. Acho importante que o iniciado valorize cada minuto dessa experiência tão especial. É importante que ele se prepare não somente para os ritos, mas para o fenômeno de renascer. Para a rara oportunidade de reescrever a sua história. Desejo que os abiãns não queiram se iniciar pela mera vaidade de serem adoxados.
Desejo que o exercício de humildade aprendido, seja praticado também do lado de fora do roncó.

Desejo que os irmãos se preocupem mais em orientar do que em punir.
Desejo que tenhamos sempre força para não nos afastarmos dos nossos propósitos, e acima de tudo, que não nos esqueçamos nunca de que o Candomblé é uma Religião. Não é uma seita, nem um conjunto de rituais que visam apenas sortilégios e magias, sem regras, sem moral e sem ética.
Por isso o sentido da iniciação: para que o homem velho morra em vida, cedendo espaço para que o homem novo reconduza sua existência em harmonia com os deuses, com sua consciência e com a natureza.

Que o Grande Arquiteto do Universo nos ilumine e ampare em nossa jornada.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

É coisa de abiã

Autor desconhecido

Fazer bori, ter ori
potencializar este espaço no coração

e esperar nascer de novo.
no silêncio de uma singela oração
acolhido e equilibrado
fazer pai ou mãe
ficar encantado
no novo filho a continuação

só dois fios de contas
Oxalá e yemanjá
também só veste branco mas é benção de eledá

É coisa de Abiã
sonhar e só cantar
dançar vendo o orixá
e passar pelo bolonan

aguçar os sentidos
ouvir o som do pilão
conviver com os segredos
e os banhos de proteção

começar acreditar
no poder curativo do axé
nos rituais de esperança

renascer pela fé
dizer: no dia da minha obrigação...
se tornar mais um apaixonado
sonhar com a iniciação
reconhecer o sagrado

no ilê o sentido de irmandade
pela lógica da vida
um grito de liberdade
onde se faz a comunhão
estar atento a sabedoria
pedir para ser abençoado
ser feliz e na sintonia

seu destino melhorado
conviver na comunidade encantada
dos irmãos o que é comum
a energia emenada
do reino de Olorun!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Como fazer um axé de sucesso


video

Sempre ficamos sabendo, querendo ou não, dos novos lançamentos dos fenômenos da Música Brasileira em seus variados ritmos e expressões, do forró eletrônico, technobrega, funk e assim por diante. No entanto, o que me chama atenção é a grande valorização e o buxixo causado pelos "axés" no meio candomblecista, como se realmente fossem eles, veículos desse bem tão valioso. Será que existe conteúdo suficiente para se dizer algo com axé? As composições unem sonoridade, letra, interpretação, tudo isso dentro de um objetivo mercadológico e artístico naturalmente. Mais que "Jacarés Iemanjás" acima, cansa ouvir músicas-engodo, pseudo-homenagens a Orixás, mas cantadas em um iorubá que cola palavras e sons apenas para rimar e impressionar aos leigos.

"Odô, axé odô, axé odô, axé odô
Odô, axé odô, axé odô, axé odô
Isso é pra te levar no ilê
Pra te lembrar do badauê
Pra te lembrar de lá
Isso é pra te levar no meu terreiro
Pra te levar no candomblé
Pra te levar no altar
Isso é pra te levar na fé
Deus é brasileiro
Muito obrigado axé
Ilumina o mirin orumilá
Na estrada que vem a cota
É um malê é um maleme
Quem tem santo é quem entende"

Quem tem santo tenta entender o que Ivete e Bethânia, do Olimpo, cantaram a não ser frases rimadas sem muita coerência, mas em um arranjo belíssimo.

É esperar as próximas.



segunda-feira, 21 de junho de 2010

HUMOR: Lei Seca não poupa nem Exu

Médium abordado pela PM não escapa do bafômetro

Texto: Mirna Bom Sucesso
Fotos: Renato Takahashi

(05-08-08) – Não são apenas os fãs do happy hour que terão de mudar seus hábitos com a nova Lei de trânsito, que proíbe o consumo de álcool pelos motoristas. Os adeptos de alguns cultos religiosos também terão de dar um jeito de adaptar os rituais em terreiro brasileiro.

“Duro vai ser explicar isso para Exu, Zé Pilintra, Pomba-Gira e outras entidades de esquerda que fazem uso da bebida em cerimônias religiosas”, escreve-nos o internauta Ricardo Aguiar, 42, de Brasília.

Aguiar diz ter sentindo na pele a intolerância das autoridades.
“Há 10 anos, repito o mesmo ritual: vou para o terreiro, incorporo minha entidade, que toma uma ou duas doses de cachaça, dá sua ajuda e vai embora. Nunca tinha tido problemas”.

Na madrugada da última sexta-feira, entretanto, o médium voltava da tradicional
cerimônia quando foi abordado por um policial. Ainda vestido a caráter, capa preta e chapéu – “estava muito cansado para trocar de roupa àquela hora” –, recebeu da autoridade a ordem de apresentar a carteira de motorista, documento do carro e “certo olhar de través”.

“Ele me perguntou se eu estava fantasiado de mágico”. Surpreendido com o que chamou de desrespeito, Aguiar diz que ainda tentou explicar. “Relatei que não tinha tido tempo para tirar a roupa do trabalho. O policial retrucou com ironia: e você trabalha onde, no circo?’. Fiquei chocado”.

É, parece que o santo do guarda não bateu com o do Aguiar. “Com a provocação do policial, senti uma vibração diferente. Minha entidade já estava ali, pronta pra baixar a qualquer momento. Respirei fundo e tentei remediar: ‘não, senhor, trabalho numa casa espiritual. E não estou querendo ensinar o seu trabalho, mas seu comportamento pode configurar preconceito religioso’. Disse e citei um trecho da Constituição Federal, que já trago na ponta da l
íngua para essas ocasiões: ‘A Constituição Federal consagra como direito fundamental a liberdade de religião, prescrevendo que o Brasil é um país laico. Com essa afirmação queremos dizer que, consoante a vigente Constituição Federal, o Estado deve se preocupar em proporcionar a seus cidadãos um clima de perfeita compreensão religiosa, proscrevendo a intolerância e o fanatismo”.

Pode ser que o policial tenha achado a decoreba constitucional do Aguiar além da conta, pois teve a idéia de perguntar: “Você, por acaso, bebeu?”. O médium corrigiu: “eu não, meu Exu bebeu”.

O policial sacou o rádio, pediu reforço, o bafômetro e completou:
“Art. 277. Todo condutor de veículo automotor, envolvido em acidente de trânsito ou que for alvo de fiscalização de trânsito, sob suspeita de dirigir sob a influência de álcool será submetido a testes de alcoolemia, exames clínicos, perícia ou outro exame que, por meios técnicos ou científicos, em aparelhos homologados pelo CONTRAN, permitam certificar seu estado”.

Os dois cruzaram olhares de guerra. Seguiu-se, então, a seguinte discussão:

Aguiar: “não há nenhum artigo na nova legislação que proíba entidade espiritual de beber”.
PM: “não há nenhum artigo que autorize entidade espiritual beber. Reze pra sua levar o álcool todo pro além, caso contrário você está encrencado”.

Quando o coronel da PM trouxe o bafômetro, Aguiar concordou em assoprá-lo. Deu lá coisa de 0,1 decigramas, um a menos que o permitido por Lei.

Inconformado, o policial chacoalhou o bafômetro, reclamou de um possível defeito e pediu que o suspeito assoprasse novamente. Já com cara esquisita, o médium deu uma baforada mais profunda que sujeito que pratica apnéia. “Os números do bafômetro foram crescendo, segundo a segundo, como num cronômetro. Já não era eu”, relata Aguiar.

Espantado e pressentindo estar diante do sobrenatural, o policial recorreu ao superior. “Não disse? Veja só, ele está bêbado!”

“Bêbado o quê?”, disse Aguiar, que já tinha deixado de ser Aguiar até na voz. O policial ficou arrepiado. “Quem bebe aqui sou eu, não meu ‘aparelho’. Deixa a gente ir embora, caso contrário o bicho vai pegar pro seu lado”.

O policial era teimoso. “Só faltava essa. Agora basta fingir que está incorporado para fugir da Lei. Já pensou se a moda pega? O que vai ter de Exu e Pomba-Gira saindo de balada não vai ser fácil”.

“Exu Tranca Rua”, saiu da boca do médium. “Seu coronel, seu funcionário é mesmo muito competente. Podia até ganhar uma promoção. Nas noites que o senhor está de plantão, ele faz uma retaguarda lá sua casa, juntinho de sua esposa”.

O policial queria dizer que era mentira do Exu, intriga, mas a palidez do rosto serviu como confissão. “Não é o que o senhor está pensando...”

“Pois é sim”, continuou a entidade. “Depois dizem que eu é que tenho chifre. Se o senhor pudesse ver o tamanho do seu”.

Quando o Aguiar voltou totalmente a si, encontrou um festival de socos e palavrões. “Eu, que não tinha nada a ver com aquilo, fui embora. Mas, enquanto a legislação não prevê exceção para as entidades, reproduzo a recomendação dos mentores espirituais: se incorporar e beber não dirija”.


***

Este texto foi encontrado no blog do Vinícius Cavalcante, candomblecista da nação Angola. O texto não é dele, como está creditado logo no início, mas foi um grande presente do seu blog para o Povo do Axé.

A mensagem divertida alerta para um problema sério que é a mistura de álcool e direção. Estamos sempre expostos, em qualquer lugar onde estivermos, a diversos fatores que podem ser prejudiciais à nossa saúde e à nossa integridade. No trabalho, em casa ou no templo, o cuidado com a saúde e a legislação é fundamental para que a religião desempenhe seu papel de proporcionar crescimento aos membros.

O fumo é liberado em recintos religiosos fechados, desde que faça parte da liturgia daquele culto. Corretíssimo. Da mesma forma, os malefícios da fumaça continuam agindo livremente. Isso também acontece com o álcool, droga lícita e tolerada socialmente dentro de parâmetros que garantam o bem-estar social.

Ao nos expormos a determinadas substâncias, devemos ter em mente que é uma opção nossa, que não fere à legislação dentro daquele contexto. No entanto, ao ser transposto para outro contexto (que pode o do trânsito, minutos depois) a presença daquele elemento não é mais tolerada. Não é mais um ambiente religioso umbandista ou juremeiro, apesar de que, na direção, fazendo um trocadilho bastante baixo astral, vida e morte também caminham lado a lado. E que dela, da Dona Morte, não nos façamos instrumento.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

Drogas e religião


A Revista Super Interessante, da Editora Abril, numero 278 (mai/2010) trouxe um texto do professor de filosofia e ética da Unicamp Roberto Romano que é muito interessante como reflexão sobre a tão desejada liberdade religiosa. Questionamos os procedimentos de outros gupos, mas temos dificuldades em nos conscientizarmos do nosso papel e da nossa participação diária para uma verdadeira implementação deste direito conquistado com o tempo. Estamos no meio de um processo que se arrasta a milênios e ainda tem muito tempo para chegar no ponto que sonhamos para hoje. Quem sabe após essa leitura, não agilizamos o processo?

Drogas e religião
Alucinógenos são proibidos no Brasil. Mas não para o Santo Daime. Isso é certo?

Os rituais do Santo Daime ganharam destaque na mídia em março, com o assassinato do cartunista Glauco por um dos fiéis de sua igreja. O alvo de tanta atenção foi uma das tradições da seita: o consumo da ayahuasca. Bebida alucinógena, a ayahuasca pode ser considerada uma droga. E drogas, você sabe, são proibidas no Brasil. Mas a ayahuasca é liberada desde que utilizada durante os cultos religiosos. Isso faz sentido? Faz.
O motivo: a liberdade religiosa de cada um. Graças à liberdade religiosa, podemos escolher e exercer as crenças que quisermos. Não precisamos esconder crucifixos, estrelas-de-davi, um exemplar do Alcorão. Para proteger essa liberdade, às vezes é necessário criar exceções ao que se considera ético, moral ou até mesmo legal na sociedade, como a feita à ayahuasca. O problema é que algumas exceções acabam prejudicando o bem coletivo. É nessa hora que a fé de cada um deve encontrar um limite.
Fé é particular. Não deve interferir no direito dos outros. Quando isso acontece, estamos diante de um crime. Por isso, o consumo individual de ayahuasca no templo é válido - mas induzir alguém a bebê-la em outro contexto não. Testemunhas de Jeová vetam transfusões de sangue, por uma interpretação que fazem do texto da Bíblia. Isso é aceitável, já que cada pessoa é responsável pelo próprio corpo. Mas o que dizer de um pai que impede uma transfusão vital para um filho? É possível que a criança não sobreviva - em nome da religião. Em países como Arábia Saudita, condenações à morte são proferidas contra aqueles que abandonam o islamismo. Mais uma vez, em nome da religião.
Esses são crimes contra os direitos individuais, ainda que representem, também, uma manifestação de fé. E vão contra os próprios ideais que geraram a liberdade religiosa, nascida junto com a democracia moderna. Mesmo depois da Reforma Protestante, no século 16, pertencer a uma crença não era um direito individual. Ordem política e religiosa eram unidas - a religião de governados obrigatoriamente deveria ser a do governante. Só com o iluminismo apareceram as formas jurídicas que protegem escolhas religiosas pessoais, justamente para que cada um pudesse escolher o melhor para si.
A discussão sobre liberdade religiosa no Brasil de hoje às vezes toma um rumo repressor. Apesar de laico, nosso Estado ainda é muito influenciado pelo catolicismo, praticado por mais de 70% dos brasileiros. E o catolicismo é uma religião dogmática - práticas que não se adaptem a ela não costumam ser toleradas (vide relações homossexuais e uso de métodos contraceptivos). No entanto, a Igreja se esquece de que foi a própria tolerância religiosa que a gerou. Não fosse uma estratégia do Império Romano de permitir que seus governados exercessem as crenças que quisessem, o catolicismo não teria prosperado no mundo. Isso significa que precisamos nos lembrar da importância da tolerância rleigiosa. Basta apenas que a sociedade e Estado fiquem atentos para evitar que da fé surjam crimes.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Seminário: Escravidão no Atlântico Sul e a Contribuição Africana no Processo Civilizador Brasileiro

O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundacao Joaquim Nabuco (Fundaj), em parceira com a Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco), estará promovendo entre os dias 12 e 14 de maio, das 14h às 18h, o seminário “Escravidão no Atlântico Sul e a Contribuição Africana no Processo Civilizador Brasileiro”. O evento faz parte das atividades do Ano Nacional Joaquim Nabuco e marcará o lançamento da exposição itinerante “Para que não esqueçamos: O triunfo sobre a escravidão”.

Os seminários que serão realizados no auditório Benício Dias, localizado no Museu do Homem do Nordeste, terão o intuito de estimular o debate e a pesquisa histórico-social. Através de atividades desse gênero, existirão novas interpretações da sociedade brasileira, resultando assim na quebra e superação de preconceitos contra a população negra.

O evento é destinado a professores universitários e das redes de ensino de educação básica, estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores militantes e representantes dos movimentos sociais, além do público interessado no tema. Os seminários serão transmitidos pela internet através do link http://nabuco.fundaj.gov.br/aovivo


A inscrição é GRATUITA e a ficha pode ser retirada AQUI



Programação

Dia 12/5 (quarta-feira)

14h – Abertura

15h – Conferência de abertura – Negociando vidas: História de traficantes de escravos africanos

• Conferencista: Marcus Joaquim Maciel de Carvalho–professor titular História/UFPE

• Coordenação: Adolfo S. Nobre – Diretor do Museu da Abolição

16h Intervalo

16h20 – Mesa Redonda 1: Trocas econômicas e simbólicas entre as duas bordas do Atlântico sul: Relações Brasil e África

A mesa intenta discutir as relações entre Brasil e África, o papel e a importância dos povos africanos no processo civilizatório da nação brasileira, nas suas dimensões econômica, tecnológica, religiosa e cultural.

• Acácio Almeida Santos (PUC/SP)

• Lisa Earl Castilho (UFBA)

• Coordenação: Lindivaldo Júnior – Assessor técnico da Secretaria de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife

Dia 13/5 (quarta-feira)

14h – Mesa Redonda 2: Tecendo letras e lutas: Iniciativas educacionais do povo negro

Esta mesa tem por objetivo debater a dimensão educativa e suas diferentes expressões e experiências por parte da população negra de maneira a serem entendidas dentro do conjunto de ações sociais, culturais e políticas na busca/luta por outra representação e espaços sociais no contexto do Brasil escravista.

• Maria Lúcia Rodrigues Muller (UFMT)

• Itacir Marques da Luz (Secretaria Estadual de Educação-PE)

• Ana Flávia Magalhães Pinto (Doutoranda Unicamp/SP)

• Coordenação: Maria de Fátima Oliveira Batista – Coordenador do GTêre – Secretaria de Educação Esporte e Lazer – Prefeitura da Cidade do Recife

16h: Intervalo

16h20 – Mesa Redonda 3: Laços de família, relações de parentesco, afetividade e resistência: a família negra sob a escravidão.

Felizmente a escravidão não significou a destruição completa dos laços familiares, das relações de parentesco e das relações afetivas dos africanos e afro-descendentes. Em condições tão adversas, ao tempo em que muitas famílias eram destruídas, muitas outras foram formadas e conseguiram sobreviver ao regime de cativeiro. Essa Mesa Redonda visa trazer uma reflexão sobre o papel da família, das relações de parentesco, dos laços de afeto e da resistência negra no cotidiano do regime escravista brasileiro.

• Isabel Cristina F. dos Reis (UFRB)

• Cristiane Pinheiro S. Jacinto (IFMA)

• Solange Pereira da Rocha (UFPB)

• Coordenação: Rosilene Rodrigues – Diretora da Diretoria de Promoção da Igualdade Racial/Secretaria de Direitos Humanos e Defesa Cidadã da Prefeitura da Cidade do Recife

Dia 14/5 (sexta-feira)

14h – Mesa Redonda 4: Lutas políticas, organização e estratégias dos povos africanos no Brasil

Na luta contra a escravidão os africanos e afrodescendentes criaram organizações e desenvolveram estratégias de enfrentamento e resistência (política e cultural). A mesa discute a atuação e as estratégias dos diversos grupos e suas repercussões no processo abolicionista e no pós-abolição, em busca da plena cidadania.

* Isabel Cristina Martins Guillen (UFPE)
* Paulino de Jesus Cardoso (UDESC/SC)
* José Bento Rosa da Silva (UFPE)

* Coordenação: Drª Maria Bernadete Azevedo Figueroa Procuradora de Justiça – Ministério Público de Pernambuco – coordenadora do GT Racismo

16h: Intervalo

17h30 – Conferência de encerramento: O triunfo sobre a escravidão

* Conferencista: Ubiratan Castro de Araújo – professor UFBA, diretor geral da Fundação Pedro Calmon

* Coordenação: Rosalira Santos Oliveira – Antropóloga e pesquisadora (Fundaj/Dipes)

19h – Momento de Congraçamento: Apresentação cultural

Promoção Fundação Joaquim Nabuco

Diretoria de Pesquisas Sociais

Organização e Realização

Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros NEAB

Parceria: Prefeitura do Recife

Informações e inscrições:

www.fundaj.gov.br

neab@fundaj.gov.br

Inscrições gratuitas.

Será emitido certificado de participação.

fonte: Site Fundaj

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Inscrições abertas para a IV Exposição da Culinária Afro-Brasileira


O Núcleo Afro da PCR está com inscrições abertas para os terreiros que se interessem em participar como expositores da mostra Culinária Afrobrasileira no Ciclo Junino, evento que já está na sua quarta edição.

O processo de rotatividade dos terreiros expositores tem como objetivo garantir a visibilidade e o estímulo a todos, através da valorização, fortalecimento e divulgação das mais diversas expressões da cultura negra.

Realizado em 2009 no pátio do Museu do Estado na Av. Rui Barbosa, o evento foi um sucesso de público e reuniu casas de várias tradições de Candomblé e bairros da cidade. A expectativa é que 2010 seja ainda uma vitrine maior.

As vagas são limitadas e o período de inscrição para as Casas de Matrizes Africanas e Buffet Afro é nos dias 6, 7 e 10 de maio de 2010, das 9 às 16h, pelo fone 3232-2308 (com o sr. Edson Axé).

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Seminário na Fundaj


Prezado(a),

Temos a honra de convidá-lo para participar do Seminário Escravidão no Atlântico Sul e a Contribuição Africana no Processo Civilizatório Brasileiro, a realizar-se no período de 12 a 14 de maio de 2010, em Recife, sob os auspícios do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco. Na ocasião, será aberta ao público a Exposição Para que não esqueçamos: o triunfo sobre a escravidão, organizada pela UNESCO, que ficará exposta na Fundação Joaquim Nabuco durante o período de 12 de maio a 12 de junho do corrente ano. Ambas as atividades fazem parte das celebrações do Ano Nacional Joaquim Nabuco. O evento será realizado no auditório Benício Dias da Fundação Joaquim Nabuco, na Av. Dezessete de Agosto, 2187 – Casa Forte, a partir das 14 horas. Segue o folder eletrônico com a programação para a divulgação em seu meio social.

Carlos Augusto Sant'Anna Guimarães
Pesquisador-assistente e Coordenador do NEAB
Diretoria de Pesquisas Sociais
Fundação Joaquim Nabuco
Tel. (+55 81) 3073 6487
Fax (+55 81) 3073 6489

quinta-feira, 15 de abril de 2010

INCLUSÃO DIGITAL É INCLUSÃO SOCIAL?


Muito se fala e algo se faz pela cobiçada inclusão digital, como a solução para os problemas sociais do Brasil. Mas será que Inclusão Digital e Inclusão Social são a mesma coisa ou estão diretamente ligadas? Algumas informações podem nos deixar claro que não há necessariamente esta ligação, enquanto outras apontam para esta tecnologia como o caminho do futuro para possibilitar uma sociedade mais equilibrada. Nós, acompanhamos tudo isso ligados pela web, no blog Povo do Axé.

Inclusão digital é a democratização do acesso à tecnologia da informação. É o que permite que cada um de nós se integre aos canais dos maiores bens para as sociedades atuais: conhecimento. Nossa sociedade é, cada vez mais, voltada para o saber, para a produção de conhecimento, indexados e comercializados para a produção das riquezas. Não basta o domínio da técnica em um mundo saturado pela produção. O que se busca é o conhecimento para a superação da técnica. Estruturadas e indexadas, estas informações são disponibilizadas ao redor do mundo, na famosa e banalizada expressão globalização.

Abertos os mercados, como as pessoas que não conseguem se integrar e "escoar" por estes canais de oferta serão absorvidas e ativas na economia que cada vez mais sai das esferas locais e passa para as globais? Então entram as atenções governamentais para o estímulo à Inclusão Digital das pessoas nas camadas econômicas mais baixas. Através das ferramentas da informática, os conteúdos destes indivíduos e suas produções intelectuais, culturais, artísticas, com objetivos financeiros ou não, podem ser consumidos ao redor do mundo, gerando possibilidade de acesso, inserção e interação com novas dimensões.

Mas enquanto se expande o número de computadores por habitante no país, lanhouses e pontos de acesso público nas escolas, o que muda nos conteúdos que virão a ser depositados na Grande Rede por estes estratos sociais? Prosperidade econômica ou social sem a dignidade que vem através de um longo conjunto de ações especialmente em educação, não são possíveis. Ao contrário, se consolidam com isso, exclusões sociais e a verdadeiros bolsões que rotulam por preconceitos ou constatação e segregam o indivíduo em vez de integrá-lo. Fecham-se e endurece-se as classes em vez de unificá-las. Este isolamento, inclusive, não é necessariamente hierarquizado por poder de compra, já que diariamente exemplos de sucessos econômicos eclodem das classes C e D, nas artes impulsionadas pela popularização das mídias digitais.

Vejamos um exemplo de projeto citado na revista Meio Digital, publicação do Grupo Meio&Mensagem, nº6, na sua matéria de capa, "Webfavela na parada!", que é o Rio Biografias, criado pela escritora e pedagoga Sonia Rodrigues.

O Rio Biografia é uma comunidade digital com espaço para 1400 alunos e 350 professores de ensino médio da rede pública do Rio de Janeiro. A equipe do projeto uma trilha de atividades de leitura, redação e socialização online com jogos, fóruns, blogs. O projeto levou oficinas presenciais para as escolas e manterá oficina online, concurso de contos, com premiação para alunos e professores. Todas as atividades relacionam os dias de hoje e os conflitos humanos atuais com a literatura de grandes autores brasileiros como Machado de Assis, José de Alencar, Aloísio de Azevedo, Manuel Antônio de Almeida, Graciliano Ramos.

Meio Digital – Porque esses autores e não outros?

Sonia Rodrigues – Porque esses são os autores que aparecem mais nas provas de vestibular do Rio de Janeiro nos últimos dez anos.

MD – Quais os obstáculos enfrentados para a implantação do projeto?

SR – O grande obstáculo foi prosaico e dá bem a medida de que simples acesso ao computador, por si só, não inclui ninguém. A inscrição dependia de dois pré-requisitos: número de CPF e leitura e resumo de um dos livros de um desses cinco autores. Muitos alunos da rede não têm CPF. Ninguém sabe quantos. Acho que quase todo mundo tem Orkut, mas muita gente não tem CPF. Os professores não sabiam que CPF se tira no correio e que qualquer criança pode ter CPF. (...) Mas talvez o principal obstáculo é que os alunos não têm o hábito de ler silenciosamente um livro inteiro. Não são oferecidas atividades de concentração para isso. Agora nós vamos sentar e ler esse texto aqui e depois dizer o que foi que lemos. Assim você cria não só um projeto de inclusão digital, mas também social e intelectual, com uma linguagem antenada com o tempo presente. Nossa meta é que o participante da comunidade aprenda a expressar melhor seu pensamento, domine a língua culta, participe do vestibular das universidades federais com mais chances, saiba distinguir onde o internetês é pertinente (Orkut, MSN) e onde ele deve escrever por extenso, com clareza, precisão. Dá para entrar na universidade pública sem isso? Não dá. Dá para arranjar um emprego com facilidade sem isso? Não dá. Dá para responder à discriminação social sem gerar mais discriminação social sem isso? Não dá.

O Polo Afro, Pólo de Saúde e Saberes Afro Brasil, iniciativa ligada ao terreiro de candomblé Ketu, Ilê Axé Iyá Ori Axé Ogê Lawô, vem nos últimos realizando diversas ações dentro do ideal de inclusão social que passam também pelos meios digitais. Inscrições estão abertas para oficinas de informática, onde adolescentes e adultos aprenderão a utilizar o computador não como ferramenta de lazer, mas como uma ferramenta positiva, de potencialização do saber. É preciso orientar para que elas tenham em si bons conteúdos e, depois, que saibam manipular as técnicas de distribuição da sua produção.

Para que a informatização seja construtiva e não um simples passatempo, diversas outras atividades ocorrerão paralelamente, especialmente as dentro das metas do Pólo, de estímulo e resgate do patrimônio cultural das comunidades de terreiro e dos grupos de identidade afropernambucana. A exploração destas potencialidades torna cada participante das oficinas único por sua bagagem. Então é valorizada sua comunidade, sua origem e ele se insere em um mundo globalizado com as raízes fincadas. Estas ligações com as suas origens servirão para o retorno dos ganhos individuais para a própria comunidade.

A Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital aponta que em 2008 existiam mais de 70 mil lan houses e cibercafés no Brasil. A cada dia os computadores chegam a preços mais acessíveis, as escolas se equipam com acesso à Internet, enquanto ainda se aguarda que o acesso a educação de qualidade e à sua própria cultura avancem na mesma progressão.

domingo, 11 de abril de 2010

Dia Nacional da Qualidade de Vida


Nossas necessidadades atendidas hoje, sem comprometer as necessidades futuras. Sustentabilidade é algo que se fala muito e que é extremamente importante no patamar que a humanidade chegou de desgaste do meio-ambiente. No entanto, a sustentabilidade vai além desse manejo de recursos naturais. Podemos pensar também no lado dos recursos humanos? Nosso trabalho e nossa energia também são fontes esgotáveis à medida que nosso corpo e nossa alma não se recupera para possibilitar um novo dispêndio de força. Já os sentimentos, estes não se esgotam, mas tendem a seguir os canais cavados pelo plano físico. Temos que pensar a sustentabilidade e o homem inserido neste processo como uma cadeia alimentar, onde somos, para alguns e em alguns momentos, a base enquanto em outros aspectos, o topo. Também somos o planeta e por trás de algumas das maiores causas da precariedade da vida diária, estão os desgastes pelo atrito homem-homem, além do tão alardeado homem-natureza.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Governo Federal lança mapeamento das comunidades tradicionais de terreiro em Recife



Publicado em 08/04/2010 - 10:21 No site da Presidência da Rebública

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial lançam, nesta sexta-feira (9/4), em Recife (PE), o Mapeamento das Comunidades Tradicionais de Terreiro localizadas na capital pernambucana e em sua região metropolitana.

O objetivo é identificar, reconhecer e apresentar dados para a promoção de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional e melhoria da qualidade de vida nas comunidades tradicionais de terreiro.

O lançamento ocorrerá às 15 horas, no Centro Cultural Rossini Alves do Ministério Público de Pernambuco, e contará com a participação do diretor da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Marco Aurélio Loureiro. São esperadas cerca de 200 pessoas, entre religiosos e representantes políticos, além da sociedade civil.

O mapeamento ocorreu em três capitais e suas áreas metropolitanas, além de Recife: Belo Horizonte (MG), Belém (PA) e Porto Alegre (RS), regiões onde se concentra o maior número de casas e terreiros. Salvador (BA) e Rio Janeiro (RJ) ficaram de fora porque as Prefeituras já começaram a fazer o levantamento.

As Comunidades Tradicionais de Terreiro recebem atenção específica do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome porque a atuação desses segmentos vai muito além do âmbito religioso. Esses grupos contribuem para o desenvolvimento local, tanto na preservação da cultura tradicional quanto no desenvolvimento de projetos sociais que envolvam o entorno e a comunidade geograficamente constituída.

Com o mapeamento, o ministério pretende contribuir para o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais e sempre respeitando a diversidade cultural, econômica e social das comunidades.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Se não é essencial amar!
















Texto: Dofono Rogildo Lopes

E desperto a ira dos Orixás
Se eu não souber perdoar.
E deixo a natureza se danar
Se eu não souber perdoar.
E falo em paz sem pacificar
Se eu não souber perdoar.
E assisto a humanidade se exterminar
Se eu não souber perdoar.
E nenhuma lógica pode me fazer calar
Se eu não souber perdoar.
E se o mundo não acabar,
E se o Brasil ganhar,
E se o dólar baixar,
E se a inflação não aumentar,
E se a honestidade se multiplicar,
E se o lacaio não roubar,
E se a vítima se salvar...
Nada disso não me fazem mudar
Se eu não souber perdoar.
Não saberei perdoar,
Se alguém não me ensinar
O mesmo que sonhar
E acreditar,
E respeitar,
E admirar,
E compartilhar...
Para tudo isso eu aceitar
Precisa alguém me provar,
Que antes de perdoar,
Se não é essencial amar!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Exemplos e palavras



































Dia a dia de trabalho é sempre correria. O intervalo do almoço é a hora de caminhar, de interagir com os arredores da empresa. Entre contas a pagar, algo para comprar e problemas para resolver, dá para estabelecer alguns contatos com as personagens interessantes.

Almoço em um pequeno restaurante na vizinhança. Os proprietários, junto com os outros funcionários, também atendem os clientes no salão, servindo ou no caixa, sempre muito atenciosos e recebendo bem a todos. Um lugar simples, honesto. A sensação de estar nas mãos de boas pessoas compensa outros sinais que me deixariam menos seguro. No trajeto de volta pra casa, há pouco tempo, percebi que os dois, ao saírem do restaurante, complementam o trabalho diário com outra jornada numa lanchonete improvisada em uma praça no bairro, para atender aos que se dão à cervejinha depois do expediente. Uma jornada de trabalho que deve começar muito cedo, terminar muito tarde e logo recomeçar. Duas filhas adolescentes do casal também ajudam rapidamente os pais em alguma tarefa no pico do almoço. Percebe-se pelo fardamento da escola que ainda vestem.

Mas as coisas saem da rotina diária. Tinha suspeitado que eram protestantes apenas por alguns folhetos com mensagens bíblicas no balcão. A filha mais nova, uma menina de uns 14 anos, nota os ians que trago no pescoço e as eventuais roupas brancas também não passam despercebidas. É curioso ver o esforço dela para demonstrar sua fé, certa de que suas palavras intimidarão algum demônio que devo guardar dentro de mim. Na primeira vez, me interpelou com um arrogante "Jesus lhe abençoe", ao qual eu agradeci. Nas vezes seguintes já me pareceu mais comedida. Imagino que por orientação dos pais. Na última vez em que fui até lá, a menina se colocou ao lado do pai, pegou um folheto bíblico e me aguardou. Paguei. O pai preparou meu troco e, em vez de me entregar, passou para a filha o dinheiro. Ela anexou ao folheto onde fez questão de fazer uma dedicatória e me entregou.

Não censuro a criança pela sua ação. Em parte é excesso de orgulho dela de algo que não compreendo, já que religião é - ao meu ver - algo tão íntimo e pessoal, que nao compreendo motivo para orgulhar-se. Nada tem isso a ver com os outros, para que venha a se encher o peito em sensação de superioridade. Por outro lado, é a falta de outros sensos ainda não desenvolvidos pela pouca idade dela. Então penso o quanto é mais eficiente, admirável e conquistador o exemplo do respeito e da união que o trabalho gera. Seus pais, sem usar palavras, mas nos atos que certamente refletem os valores morais pregados pelos seus sacerdotes traduzem diariamente - muito melhor - o que faz diferença e salta aos olhos na vida.

Lamento, mas sinto que, provavelmente, serei um ex-cliente fiel por ação de algum diabo que não sei bem ao certo a quem possui e que, como dizem por ai, mora nos detalhes.

terça-feira, 23 de março de 2010

O que é o Espiritismo?

Frequentemente, nós candomblecistas, nos referimos a nós mesmos ou somos referidos como espíritas. Mas o que é o Espiritismo, de onde vem este termo e o que ele define socialmente? Com alguns esclarecimentos sobre isto, talvez possamos encontrar um senso mais ajustado à realidade que vivemos.

"Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras." Assim começa o Livro dos Espíritos, publicado pela primeira vez em 1857. O termo Espiritismo (do francês antigo "spiritisme", onde "spirit": espírito + "isme": doutrina) surgiu como um neologismo criado pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (que usava o pseudônimo Allan Kardec) para nomear especificamente o corpo de ideias por ele sistematizadas em "O Livro dos Espíritos", publicado em 1857.

A FEB, Federação Espírita Brasileira, sociedade civil responsável pela difusão da Doutrina Espírita no Brasil, define o Espiritismo no seu site como "o conjunto de princípios e leis, revelados pelos Espíritos Superiores, contidos nas obras de Allan Kardec que constituem a Codificação Espírita: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese".

Continuando as palavras de Allan Kardec na introdução do Livro dos Espíritos, "Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas."

Nós, candomblecistas, somos espiritualistas. Nossa religião crê que existe algo além da matéria, o orun. E apesar de o termo espírita ter sido muito utilizado generalizadamente para as crenças que pregam, basicamente, a possibilidade da comunicação entre o mundo espiritual e o material.

Então, no Brasil, candomblecistas, umbandistas, membros da Doutrina do amanhecer, juremeiros, cartomantes, clarividentes, e outras crenças espiritualistas que contrariam com suas práticas pilares das igrejas católica e das protestantes são agrupadas sob um mesmo nome. No Recife, eram todas chamadas de xangôs. Casa de xangô não era, e os pernambucanos sabem disso, apenas o terreiro de Candomblé Nagô Egbá.

Mas, pelo preconceito acumulado e pelas pressões cada vez maiores, ainda mais com a demonização das religiões de matrizes afrobrasileiras, ser espírita é um rótulo menos execrado por quem insiste em oprimir as minorias e as diferenças. Criam-se, assim como acontece com a definição da descendência negra (em denominações que tentam disfarçar a descendência africana nos traços negroscomo moreninho, moreno claro, bronzeado, chocolate, etc) mil termos imaginários para as religiões espiritualistas, dos quais citamos alguns:

  • Espiritismo kardecista (uma redundância, já que o livro que criou o Espiritismo foi organizado e publicado por Kardec)
  • Espiritismo de mesa branca (apenas em referência à cor da toalha que imagina-se forrar uma mesa em torno da qual todos os grupos espíritas se reúnem)
  • Espiritismo de direita e de esquerda (em uma idéia de que "direita", é um formato de culto que faz o bem para os oturos e "esquerda", o mal. Cristão, não existe Espiritismo para o mal)
  • Baixo Espiritismo (grupos que praticam magia maléfica em reuniões demoníacas)
  • Sessão de Espiritismo (qualquer invocação de espíritos para se comunicarem, até um "jogo do copo")
Como vemos, é preciso informação para que erros assim não sejam repetidos, inclusive inocentemente, por pessoas que sem má-fé, tentam encontrar as palavras mais cabíveis para cada caso. Com tantas complicações e variáveis, os termos oficiais são os que valem para denominar as religiões e os religiosos. Espiritismo, Candomblé, Umbanda, Catolicismo, Protestantismo e assim por diante, se somam e fazem esse povo que somos nós, os brasileiros, sinônimos de fé. Somos candomblecistas! Somos de axé.

Dia Mundial da Água, sem muito o que comemorar

Ontem, 22 de março foi o Dia Mundial da Água. Neste dia, em 1992, foram assinados na Organização das Nações Unidas, ONU, a Declaração Universal dos Direitos da Água. É um dia que serve para refletirmos sobre o que fazemos pelas águas que nos cercam. E olhe que para nós, candomblecistas, essas águas não são poucas.

No Candomblé, a água é essencial ao culto. Oxum, a divindade do amor, da fecundação, da gestação, é considerada a deusa das águas doces, do ouro e da adivinhação. Iemanjá, a Grande Mãe, deusa dos oceanos, origem da vida em todo o planeta. Nanã, o orixá da lama, dos pântanos férteis cuja terra molhada foi moldada dando origem à humanidade. Oxumarê, deus da chuva e do arco-íris, dos ciclos da vida... Estes entre tantos outros como Logunedé, Ewá e mesmo os, a princípio, sem relação direta lendária com a água, não podem ser cultuados sem esse elemento.

No entanto, é cada vez mais raro este elemento. Vivemos em uma cidade que recebe o título de Veneza Brasileira pela afinidade que tem com a água, os rios e os canais, no entanto, não é para os recifenses, este um elemento com o qual possa estabelecer grande intimidade. Convivi em uma casa de Candomblé que se encontrava a menos de 50m do Capibaribe. Mas para buscar um rio com água, se não limpa, ao menos tolerável, era preciso percorrer uma grande distância de carro. E isto é um "privilégio" de quase todos os terreiros. O que nos resta é apoiar como este que apresento logo abaixo.

Conheço o Recapibaribe há alguns anos. Donos de um espaço incrivelmente privilegiado que gentilmente abrem para
nosso prazer, no Capibar. Este bar fica plantado na margem do rio Capibaribe, na área do Poço da Panela. É conhecido por sua decoração sui generis, toda feita por peças recolhidas do próprio rio, que não pasavam de lixo e entulho e hoje fazem o astral do lugar ser ainda melhor. É bom parar de falar deles por mim, que a saudade de lá está chegando. Segue um release do projeto, retirado do blog do Recapibaribe.


PROJETO RECAPIBARIBE, DEFENDE O RIO CAPIBARIBE E SEU ECOSSISTEMA

Totalmente pernambucano o rio
Capibaribe nasce Serra do Jacarará, no município de Poção e deságua no Oceano Atlântico. A bacia hidrográfica possui aproximadamente 5.880 km que percorrem cidades importantes do estado: Toritama, Santa Cruz do Capibaribe, Salgadinho, Limoeiro, Paudalho, São Lourenço da Mata e Recife, ao todo são 250 km da nascente a foz. O Capibaribe é o cartão de visita da cidade do Recife que também é conhecida como a Veneza Brasileira, graças à beleza das águas do rio que cortam a cidade. Porém, ele não está sendo preservado, ao longo das margens encontramos lixo e até mesmo o escoamento do esgoto segue para o leito.

O casal Maria do Socorro e André Luiz Cantanhede luta em defesa do ecossistema há mais de 19 anos, com o Projeto Recapibaribe. “Nunca imaginei que o avanço da humanidade seria o aumento da poluição do planeta”, desabafou Maria do Socorro. O Recapibaribe nasceu da insatisfação do casal com as condições ambientais do rio, na opinião de Maria do Socorrro é a negligência do poder público e o descaso da população que prejudicam o ecossistema do Capibaribe. “Eu nasci aqui, me criei nadando nele, a minha família tirava o seu sustento do rio. Para mim é muito triste vê-lo nestas condições”, lamentou Socorro. O desejo de ver o Capibaribe menos poluído é a motivação do casal para dar continuidade ao trabalho de conscientização ambiental.

Todas as segundas-feiras o espaço Capibar é aberto ao público para a visita de alunos da rede pública e particular de ensino, no local estão expostos o lixo que é retirado das águas: televisão, latinha, garrafas, monitores de computador, dentre outros objetos. No Capibar grandes cantores regionais já se apresentaram: Nando Cordel, Mestre Salu, Arlindo dos Oito Baixos, a banda Cumade Florzinha, dentre outros. A renda dos eventos é voltada para a manutenção das atividades da ONG.

O Projeto Recapibaribe também realiza atos públicos para conscientizar a população da importância da preservação ambiental. De acordo com Socorro a ação mais emocionante aconteceu com a adesão de 73 pescadores que recolheram o lixo que fica nas águas do rio. “Saímos daqui do Capibar e acompanhamos o leito, no trajeto recolhemos 200 animais mortos em fase de decomposição”, contou Socorro.

Na opinião do casal Cantanhede o rio Capibaribe precisa da colaboração de todos, pois apenas com a união da coletividade o ecossistema será respeitado e preservado. “Eu acredito num mundo melhor e para isso é necessário que as pessoas lutem juntas por um mesmo ideal”, disse André. Socorro complementou: “Somente quando o ser humano sair do próprio individualismo para lutar em prol do interesse da coletividade, aí sim, iremos conseguir mudar a realidade que nos cerca”.

Projeto Recapibaribe
Telefone (81) 3268-2643
Rua Tapacurá, n° 101, Casa Forte, Recife, Pernambuco.

domingo, 21 de março de 2010

No Brasil, o Censo 2000 revela que apenas 0,3% da população nacional é adepta das religiões afrobrasileiras, Umbanda e Candomblé. Para nós, Povo do Axé, estes dados revelam um Brasil cheio de pessoas invisíveis, especialmente porque não vêem a si mesmos. A campanha nascida no Rio de Janeiro QUEM É DE AXÉ DIZ QUE É, promovida pelo Coletivo de Entidades Negras e que conta com o apoio da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - Seppir, Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, através da Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos (RJ), pretende mudar esta tendência, rompendo como os movimentos negros conseguiram, há pouco, diminuir erros estatísticos relatico à cor da pele, esclarecendo sobre as denominações errôneas para fins de cidadania e que tornavam a população negra e indígena ainda menos vista do que é normalmente pelo poder público.

Um povo que se autoexclui. O preconceito contra si mesmo é o que faz com que candomblecistas e umbandistas tenham medo de afirmar sua fé. Perseguido por líderes e fiéis de outras religiões que demonizam sua crença seja na grande mídia, seja agindo agressivamente perseguindo diretamente, atacando, humilhando e oprimindo o povo de axé nas ruas, em público com menosprezo pela igualdade entre os homens, cidadania, direito à liberdade de crença e à dignidade da pessoa humana, quem não sentiria medo de exercer o simples fato de dizer o quanto ama o seu Orixá?

Pois muitos não se sentem com medo. São corajosos como nossos antepassados também foram. E em condições ainda mais difíceis que a nossa. Quantos exemplos podemos citar dessa luta apenas aqui em Pernambuco? Mãe Biu do Xambá, Pai Adão, Mãe Betinha, Mário Miranda, Pai Edu, entre centenas e centenas que poderíamos citar aqui, com sua trajetória de luta pela manutenção do culto aos deuses africanos, cada um à sua maneira que, sem dúvida alguma, era a melhor que tinham para isso. Ao honrar o nome dos nossos ancestrais, nos tornamos dignos de nos dizermos "de axé", "de orixá".

Vejamos alguns dados. O IBGE em 2000, para 7.918.344 pesquisados no Estado de Pernambuco, encontrou:

Católicos - 5.833.736 pessoas
Protestantes - 1.033.324 pessoas
Espíritas - 91.655 pessoas
Religiões Afro-brasileiras - 12.988 pessoas
Judaísmo - 4.160 pessoas
Religiões Orientais - 3.650 pessoas
Outras religiões - 47.225 pessoas
Sem religião - 866.311 pessoas
Não determinado - 8.425 pessoas


Ou seja, somos, em Pernambuco, apenas 0,16% da população. Avaliando números absolutos, de 8 milhões de pernambucanos, somos apenas 13 mil pessoas. Perguntamos ao leitor se é esta a sua impressão da realidade. Seríamos em Pernambuco, apenas 13 mil entre candomblecistas e umbandistas?

Para o Censo a contagem está correta, afinal, a própria pessoa é quem pode responder que fé professa. No entanto, para nós, a sensação de realidade é diferente. Vejamos quantas pessoas circulam em nosso centro nas reuniões semanalmente e quantas pessoas fazem parte do nosso egbe, sejam iniciadas ou não, mas como membros permanentes, colaboradores da dinâmica do axé. E quantos terreiros temos em nossa rua, em nosso bairro, e ainda mais nos subúrbios, nos morros, nas invasões. Quantos pequenos vãos ficam lotados de pessoas nas reuniões de Jurema, não só clientes esporádicos, mas discípulos que com toda a fé e fervor estão ali sob a orientação dos senhores mestres? Tomamos a liberdade de fazer uma pesquisa rápida e informal em uma comunidade virtual chamada Candomblé, no Orkut. De 20 mil membros, chegavam a quase mil os pernambucanos. Levando em conta o baixo grau de inclusão digital do povo das comunidades de terreiro e ainda mais em um ambiente tão específico quanto uma comunidade de Orkut, ficamos com a impressão de que não somos apenas os que o Censo 2000 revela.

O que acontece é que boa parte de nós se denomina espírita ou católico, e ainda se dizem sem religião. Seja por vergonha ou por falta de conhecimento do que é o Espiritismo (doutrina cristã criada na França no séc. XIX por Allan Kardec baseada na Bíblia e em mensagens mediúnicas), traçamos uma imagem errada de nós. Espírita é outra crença segundo o IBGE! Quando um de nós se declara espírita, automaticamente, faz a religião dos Orixás siginificar cada vez menos!

Onde estamos, quantos somos e do que precisamos, são dados levantados pelo Censo e que serão utilizados em cruzamentos por pesquisadores como base para políticas públicas e ações na saúde, educação, nutrição e segurança pública, por exemplo, grandes carências dos nossos irmãos de fé e que poderiam utilizar como ponto de partida, os excelentes centros sociais que são os terreiros. Mas se não existirmos como pessoas, do que precisaremos?

Todo sacerdote sabe como o seu terreiro é assediado em período eleitoral. Vemos também diariamente os conchavos entre as igrejas evangélicas e os políticos como, inclusive, foi tema de uma das últimas postagens do Povo do Axé, barrando medidas tão valiosas para o podo de religião de matriz africana. São numerosos, crescem, se impõem, penetram na sociedade assim como nós. Os métodos e os objetivos são diferentes. Não queremos o poder sobre os outros, mas o maior deles que é o direito de governar nossa própria vida e de construir um mundo mais humano e com melhores condições para nossos descendentes também dizerem com firmeza e honra:

EU SOU DE AXÉ.

Quando o pesquisador do Censo chegar na sua casa, lembre-se. É fundamental:
QUEM É DE AXÉ, DIZ QUE É!



quinta-feira, 18 de março de 2010

Mães-de-Santo, mães de tanto. O papel cultural das sacerdotisas dos cultos afro-brasileiros

O texto a seguir faz parte das pesquisas da antropóloga, phD. Rita Amaral, da USP. Foi disponibilizado no site Os Urbanitas (http://www.aguaforte.com/osurbanitas6/Amaral2007.html).

A autora traz no texto que deve também ser lido na íntegra no site citado acima, "alguns exemplos que tipificam a ação das mães-de-santo fora da esfera religiosa para mostra
r de que modo a ação da mulher negra e religiosa foi sutil, inteligente e eficaz ao aproveitar todas as brechas sociais, todas as oportunidades de diálogo que a história lhes apresentou, como de resto os negros brasileiros sempre souberam fazer".

Vale a pena aprender com Mãe Aninha(BA), Tia Ciata(RJ), Mãe Mirinha
(BA), Mãe Malvina (SC), Sylvia de Oxalá (SP) e Mãe Badia, que todos os pernambucanos ouvem falar desde crianças nas cantigas dos carnavais, mas não sabem bem ao certo quem foi.


MÃE BADIA
(Foto do JC Online)

"Outras mães-de-santo intimamente ligadas à
conservação das tradições afro-brasileiras religiosas ou a elas ligadas foram Dona Santa, Dona Madalena de Ogum e a legendária Badia –a Senhora dos Carnavais recifenses–, Sinhá e Iaiá (mãe e tia de Badia, respectivamente), mães e tias ligadas às nações de maracatu de Recife, em Pernambuco. Foram responsáveis por sua continuidade e, no caso de Badia, também pela conquista de espaços de legitimidade sociocultural dessa expressão ao mesmo tempo religiosa e profana.

A ligação da cultura africana com a música e a dança é tão forte que o
maracatu pode ser tomado como uma expressão religiosa. Na verdade, o maracatu é manifestação lúdica dos grupos religiosos de culto jejê-nagô do Recife, assim como os afoxés o são na Bahia. Como a religião é vivida plenamente por seus fiéis, as marcas do ethos criado pela experiência religiosa se expandem para todas as dimensões da vida pessoal, inclusive as do lazer e do cotidiano (Amaral, 1992). Nos maracatus são realizadas cerimônias propiciatórias para a obtenção da proteção dos Orixás, do sucesso das apresentações e da realização dos desfiles sem incidentes. Além disso, as calungas são bonecas iniciadas, que representam os ancestrais e seus orixás sob nomes de nobres e fidalgos, recebendo e prestando reverências de natureza religiosa . Alguns dos grandes líderes do xangô de Recife e Olinda estão na retaguarda dos maracatus, como foi o caso do oluô Luiz de França, Dona Madalena de Ogum e outros.

Maria de Lourdes da Silva, Badia, co
stureira, casada e sem filhos, foi uma das principais mães do maracatu. Viveu sua vida no bairro recifense de São José, reduto de descendentes de escravos libertos tornados trabalhadores de baixa renda. A morada de sua família (Rua Vidal de Negreiros, 143) ficou conhecida como Axé das Tias do Pátio do Terço (devido à proximidade com a Igreja do Terço) ou Casa das Tias, constituído e liderado por xangozeiras; entre elas, Badia. A Igreja do Terço foi construída por escravos e, segundo alguns historiadores, a área próxima teria sido um cemitério dos negros escravizados.

(Pátio do Terço, Recife)

Badia era conhecida por atender os que a procuravam oferecendo conselhos . Segundo Motta & Brandão (2002:62): “uma magopsicoterapeuta do maior destaque”. Recebia em sua casa pessoas poderosas da sociedade pernambucana e de outros lugares, com as quais estabeleceu alianças, ganhando fama e prestigio. Políticos, jornalistas, advogados, foliões e carnavalescos freqüentavam a casa de Badia, que fez dela o quartel general de sua crença e das brincadeiras de carnaval. Presidia a misteriosa Sociedade de São Bartolomeu (santo sincretizado em Exu, em Recife), formada por gente de diferentes origens, estratos sociais e confissões religiosas, como alguns xangozeiros “disfarçados” (Motta & Brandão 2002). A Sociedade se reunia para comemorar o santo aos 24 de outubro, na casa de Badia, com ladainhas, cânticos em latim e, na Igreja do Rosário dos Pretos, perto no Pátio do Terço, com missa.

Rei e Rainha (já falecidos) do Maracatu Porto Rico na Noite dos Tambores Silenciosos em 1978, no Pátio do Terço (Foto da Fundaj).

Foi Mãe Badia quem estabeleceu, juntamente com o sociólogo e jornalista Paulo Viana, na década de 1960, o encontro das nações de maracatu no Pátio do Terço para a cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos. Nesta noite, sempre uma segunda-feira de Carnaval, os maracatus se encontram no Pátio do Terço e tocam até meia-noite, quando fazem silêncio em reverência aos antepassados arrancados de sua terra e escravizados, revividos pela corte do maracatu. São feitas orações e os ancestrais são convidados, juntamente com Iansã, para fazerem parte da cerimônia. Os tambores ecoam forte, as luzes se apagam. Tochas iluminam o pátio. Pombas brancas são soltas e voam livres na noite. Paz, harmonia e sossego são pedidos aos orixás. O povo, em silêncio, levanta as mãos para receber as bênçãos. Mas os maracatus voltarão a tocar, mostrando o quão belo é o Recife pegando fogo na pisada do maracatu.

Olê, olê olá, negada olha a linha,
Sustenta esta pisada,
Nosso Re
i, nossa Rainha
Toada de maracatu Negrada olha a linha (domínio público)

A idéia da cerimônia surgiu a partir da homenagem que as nações de maracatu prestavam aos orixás, por ocasião do carnaval, d
iante do Axé das Tias, onde as calungas, representantes dos ancestrais, dançavam. Para retribuir a honraria e homenagear os maracatus e seu simbolismo, Badia se empenhou em garantir esse encontro cerimonial que hoje integra a programação oficial do carnaval pernambucano, sendo visto como um de seus momentos mais sublimes.

Em 1977, Badia abrigou, também, em sua casa a agremiação Clube Carnavalesco as Coroas de São José. Atualmente, mais de 20 nações de maracatu participam da cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos. Alguns desses grupos são seculares, como o Nação Elefante, fundado em 1800 e o Maracatu Leão Coroado, de 1863. De acordo com matérias publicadas pelos jornais pernambucanos, sua contribuição para o Carnaval de Pernambuco não foi esquecida e seu nome é sempre lembrado e homenageado por agremiações famosas, a exemplo do Vassourinhas, Lenhadores e Bloco Saberé.

Dessa múltipla relação com o poder secular, mágico e espiritual, Badia, que nunca teve filhos carnais, embora tivesse adotado Lúcia, tornou-se a emblemática mãe do maracatu, juntamente com outras como dona Santa, do Maracatu Leão Coroado e Dona Madalena do Maracatu Elefante. A casa onde viveu é hoje o Centro Cultural Casa de Badia, dedicado à cultura afro-brasileira nos carnavais."

Amaral, Rita. Povo-de-santo, povo de festa. Um estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulistano. Dissertação de Mestrado, FFLCH / USP, São Paulo, 1992.

Brandão, Maria do Carmo & Motta, Roberto. Adão e Badia: carisma e tradição no xangô de Pernambuco. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.