terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Jurema do RN sofre grande perda.












"No mês de dezembro de 2009 a jurema norte rio grandesse perdeu um dos maiores ícones da jurema sagrada que foi o inesquecível Babá Carol como era mais conhecido.
Carol foi dos precursores da jurema sagrada e detentor de uma grande ciência no Rio Grande do Norte. Conhecia profundamente as ciências e iniciou muitos dos que ai estão levando a frente o que aprendeu com Carol. Alías, muita gente deve muito aos conhecimentos desse grande mestre.
O ferétro e o último adeus à Carol foi acompanhado por diversas autoridades religiosas e com certeza será uma grande entidade o "mestre Carol".
Salve a Jurema Sagrada!"
Retirado do blog Axé do Vale.

Babá Carol era um sacerdote bastante conhecido no Rio Grande do Norte. O conhecemos no Recife, no terreiro nagô de Mãe Betinha, o Ilê Axé Yemanjá Abassami. Babá Carol tinha com Mãe Beta uma amizade de muito tempo, vindo anualmente em visita à sua casa, que era retribuída da mesma forma, mesmo com a avançada idade de Mãe Beta.
No Memorial Mãe Betinha, a presença de Babá Carol em uma das festas a Iemanjá é registrada (foto ao lado). Na ocasião da inauguração do Memorial e do centenário de Mãe Beta, egbomes vindos de Natal no final de novembro para o evento trouxeram notícias da sua saúde frágil e, apenas hoje, encontrei notícias do seu falecimento pouco tempo depois.
É mais um nome importante para as referências de resistência e luta não só religiosa, ou de classes, mas pelos direitos à liberdade individual. Fundamental, como vimos no texto acima, para a preservação e expansão da Ciência da Jurema, um patrimônio de valor incalculável do povo nordestino.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Tempo de Reflexão

Por Iyá Ngangalecy*

Acabou o Carnaval. Finalmente o ano começou em nosso maravilhoso RJ. Sim, entre os festejos de Natal e o fim da folia, somos todos tomados de um clima festeiro e mesmo ainda com o verão a pleno vapor, agora sim, iniciaram-se as atividades cariocas.

Ainda um pouco cobertos de ressaca, mesmo quando não bebemos, devemos parar e pensar: e aí?

Passou o Carnaval e a fantasia continua a mesma?
Claro que temos que pensar na realidade do dia-a-dia, desde aquilo que temos ou não no bolso, nas contas que serão nosso pesadelo no fim do mês, o que comemos e bebemos ou não, este ou aquele sonho que poderá ser agora ou ainda ficará na gaveta até Deus sabe quando...

Mas e aí? A maioria de nós que está aqui tem algo em comum: a nossa crença. E esta é que merece a nossa atenção mais uma vez. O ano começou. E continuam pessoas inescrupulosas usando-a como meio de ganho ou de glorificação pessoal, pessoas que fazem do destino e da cabeça de quem lhe veio ao caminho como laboratório ou coisa pior. Ainda se glorificam seres humanos capazes de desatinos enquanto os seres espirituais são preteridos e, pior ainda, profanados.

Em nome do bom nome da religião, a sujeira é escondida sob o tapete e os mortos continuam dentro do armário. Até quando?

Dá-se valor à aparência enquanto a essência é desprezada. Conta-se a espiritualidade pelo luxo excessivo que, sabe lá Deus, como foi obtido. Cerimônias religiosas são catalogadas pela originalidade dos pratos ou pela abundância desta ou daquela marca de cerveja. Os falsos profetas ainda continuam mostrando catálogos em que estão ao gosto do freguês de que Divindade serão. Fazendo iniciações insanas de tradições inventadas ontem mesmo. Curso de Yfá em 1 hora. Curso pra ser Deus e fazer tudo, poder tudo, conseguir tudo.

Trazemos seu amor em 5 segundos. Achamos cachorro perdido. Ressuscitamos os mortos. Chiclete do amor. Pirulito da atração. Preservativo do tesão.

Continuam-se as loucuras. E ainda há go go boys paras as pombogiras. Tia Maria Padilha ainda toma chá com torradas. Outras descem de helicóptero como Papai Noel. Ou chegam de moto ao som da Dança da Motinha e dando tiro pro ar.

Não fomos nós que fizemos isso. Fizemos pior!

Nos calamos em nome de uma liberdade abusada que não existe. Damos a mesma desculpa de sempre: "Cada um na sua", "não temos tempo", "isto não é comigo", "os santos vão castigar".
Mas, enquanto isso, muitos os chamados a perpetuar nosso culto por desilusões desta ou daquela natureza encherão as fileiras dos cegos das Igrejas Neopentescostais, muitos terão suas vidas modificadas para pior, muitos serão os caminhos alterados, os asilos psiquiátricos terão novos pacientes e as instituições penitenciárias terão acréscimo em sua população de infelizes.

É para isso que lutamos pela Liberdade Religiosa? Para que erros possam conviver desastrosamente com acertos?

Vivemos o dia-a-dia de nossas casas para "consertarmos" ou pelo menos "ajudarmos a consertar" o que os "outros" fizeram? Lamentável!

Pensemos bem, antes que venha outro Carnaval e se tenha a mesma fantasia.

*Iyá Ngangalecy é sacerdotisa carioca da Nação Angola.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ritos e rezas por trás do Baque Solto

Publicado em 08.02.2010, às 23h07

Por Carly Falcão
Do JC Online


Quem vê um maracatu rural desfilando nos Domingos de Carnaval com aquela disposição e trajes coloridos não faz ideia da concentração que envolve os integrantes do cortejo antes e durante as apresentações. Seja por conta da estreita relação com religiões afro-brasileiras ou em razão do resgate às tradições do campo, os grupos de Maracatu de Baque Solto não abrem mão de certos rituais.

Laurinete de Assis Batista, 70, é Rainha do Maracatu Cruzeiro do Forte, o maracatu rural mais antigo do Recife, fundado em 1929, no bairro do Cordeiro, Zona Oeste do Recife. A mãe de santo faz questão de 'abençoar' o local dos ensaios antes da chegada do grupo. Enquanto reza para Exú e Pomba-gira, ela despeja cachaça e cerveja, respectivamente, no chão. "Sem Exú não somos ninguém. Tudo que queremos, temos que pedir permissão a ele", explicou Dona Laurinete. Veja no vídeo abaixo mais detalhes sobre os rituais feitos antes dos dias de folia.

VÍDEO: MARACATU SOLTO

Os membros do maracatu têm extremo cuidado com as indumentárias, não somente para evitar danos materiais, mas para que elas fiquem imunes às más vibrações. As bonecas (calungas) trazidas pelas damas-do-passo não podem ser carregadas por qualquer pessoa. "Eu só entregava para quem eu via que merecia, normalmente era uma jovenzinha", revelou Célia do Nascimento, 74, que foi dama de passo por 59 anos.

Da mesma forma que essas mulheres, os caboclos de lança são proibidos de emprestar seus trajes de festa. "Já ouvi casos de pessoas que foram castigadas pelas entidades, de gente que caiu feio para trás na hora do desfile", lembrou o caboclo de lança Eraquitã Santana, 44. Outra curiosidade envolvendo estes dois personagens é que muitos evitam ter relação sexual nos três dias de momo.

BANHO DE LIMPEZA - Em uma bacia com água, se misturam ervas como arruda, manjericão e macaçá. Depois de esfregar as plantas na água e juntar a mistura a um perfume com essência de alfazema, toma-se um banho de cabeça com a poção. O rito de lavagem do corpo acontece no Sábado de Zé Pereira. A limpeza seria para evitar problemas na hora da folia, como brigas entre os membros do grupo.

O QUE SIGNIFICA A VESTE DO CABOCLO DE LANÇA?

Surrão: Estrutura de madeira coberta de lã. Vem sempre em número ímpar para não dar azar. Os chocalhos são usados para espantar os maus espíritos.

Guiada: Lança com aproximadamente dois metros de compromento (para muitos, a guiada é uma referência à cana-de-açucar ou à enxada do matuto).

Chapéu: A indumentária parece uma cabeleira. Antigamente, ela era chamada de funil e confeccionada com papel crepom.

Gola: Cada caboclo de lança escolhe a cor de seu traje. As golas apresentam símbolos, palavras ou iniciais representativos para os caboclos de lança.

Conjunto: A fantasia completa pesa cerca de 30kg.

Fonte: Maracatu Rural Cruzeiro do Forte e Cartilha do Carnaval 2010 da Prefeitura do Recife



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Oração de uma iyawo

Por Nany Vieira d´Ewá

"Que a energia que habita em mim permita que eu mantenha sempre a cabeça baixa e os pés no chão, afim de manter a humildade. Que eu tenha sempre bons ouvidos, atentos para os ensinamentos daqueles que vieram antes de mim, meus orixás, meus ancestrais, meus mais velhos e fechados para o que não convém. Que eu possa ter o coração aberto para a experiência de ser omo orixá, mas principalmente a boca fechada, pra não levantar falso, não cometer injúria e não deixar que o sopro que sai de minha boca se contamine com palavras vãs.

Que meu ori mantenha esse compromisso todos os dias. Assim meu comportamento será digno de minha divindade e minhas ações respeitarão o deus vivo que há em mim."


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Oyá, árvore de mim!

Por Dofono Rogildo t´Oyá Egun

Os ventos nas folhas é Oyá. Os raios no céu também é Oyá. É Oyá a tempestade que cai de repente . A mãe que protege seus filhos. A companheira inseparável. A amiga de todas as horas. Oyá é inquieta, curiosa, sedutora, alegre, guerreira... Uma mulher inigualável e, muitas vezes, incontrolável emocionalmente, pois, Ela defende o que é seu com a sua própria vida. Oyá dar a vida por um filho seu. E por um grande amor, Ela vai até ao infinito em busca dele sem olhar para trás. Ela é dona dos Eguns, dos bambuzais, da tarde e de tudo que tem vida. Ela é a própria vida em movimento. E como dança mesmo triste. E se alegre, dança muito mais. E se pensativa, alegra-se e entristece ao mesmo tempo, mas nunca pára de dançar. E como dança essa mulher! Deusa dos movimentos, dos ventos e de tudo que há em mim. "Oyá, árvore de mim!" Senhora das minhas retinas, ilumina-me com os seus raios incandescentes. Guia-me com os teus ventos certeiros. Ampara-me com as tuas mãos quentes e acolhedoras. Oh! grande mãe, escolha-me como filho preferido seu e dê-me os seus chifres para que a Senhora possa sempre me socorrer. Permita-me que eu seja digno de carregá-los e venha de onde estiver, com a sua espada e eruxim nas mãos, me proteger da morte precoce; dos inimigos silenciosos; de pragas; de atins poderosos e destruidores; além de quaisquer cocotabas. Senhora, és tudo para mim. És minha mãe, mulher e irmã. Meu orixá de orí. Tudo que eu tenho , agradeço a Ti. Senhora dos raios, tempestades e vendavais. Senhora de tudo que há em mim! Êpahey Oyá Messã Orum!