segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Tempo de Reflexão

Por Iyá Ngangalecy*

Acabou o Carnaval. Finalmente o ano começou em nosso maravilhoso RJ. Sim, entre os festejos de Natal e o fim da folia, somos todos tomados de um clima festeiro e mesmo ainda com o verão a pleno vapor, agora sim, iniciaram-se as atividades cariocas.

Ainda um pouco cobertos de ressaca, mesmo quando não bebemos, devemos parar e pensar: e aí?

Passou o Carnaval e a fantasia continua a mesma?
Claro que temos que pensar na realidade do dia-a-dia, desde aquilo que temos ou não no bolso, nas contas que serão nosso pesadelo no fim do mês, o que comemos e bebemos ou não, este ou aquele sonho que poderá ser agora ou ainda ficará na gaveta até Deus sabe quando...

Mas e aí? A maioria de nós que está aqui tem algo em comum: a nossa crença. E esta é que merece a nossa atenção mais uma vez. O ano começou. E continuam pessoas inescrupulosas usando-a como meio de ganho ou de glorificação pessoal, pessoas que fazem do destino e da cabeça de quem lhe veio ao caminho como laboratório ou coisa pior. Ainda se glorificam seres humanos capazes de desatinos enquanto os seres espirituais são preteridos e, pior ainda, profanados.

Em nome do bom nome da religião, a sujeira é escondida sob o tapete e os mortos continuam dentro do armário. Até quando?

Dá-se valor à aparência enquanto a essência é desprezada. Conta-se a espiritualidade pelo luxo excessivo que, sabe lá Deus, como foi obtido. Cerimônias religiosas são catalogadas pela originalidade dos pratos ou pela abundância desta ou daquela marca de cerveja. Os falsos profetas ainda continuam mostrando catálogos em que estão ao gosto do freguês de que Divindade serão. Fazendo iniciações insanas de tradições inventadas ontem mesmo. Curso de Yfá em 1 hora. Curso pra ser Deus e fazer tudo, poder tudo, conseguir tudo.

Trazemos seu amor em 5 segundos. Achamos cachorro perdido. Ressuscitamos os mortos. Chiclete do amor. Pirulito da atração. Preservativo do tesão.

Continuam-se as loucuras. E ainda há go go boys paras as pombogiras. Tia Maria Padilha ainda toma chá com torradas. Outras descem de helicóptero como Papai Noel. Ou chegam de moto ao som da Dança da Motinha e dando tiro pro ar.

Não fomos nós que fizemos isso. Fizemos pior!

Nos calamos em nome de uma liberdade abusada que não existe. Damos a mesma desculpa de sempre: "Cada um na sua", "não temos tempo", "isto não é comigo", "os santos vão castigar".
Mas, enquanto isso, muitos os chamados a perpetuar nosso culto por desilusões desta ou daquela natureza encherão as fileiras dos cegos das Igrejas Neopentescostais, muitos terão suas vidas modificadas para pior, muitos serão os caminhos alterados, os asilos psiquiátricos terão novos pacientes e as instituições penitenciárias terão acréscimo em sua população de infelizes.

É para isso que lutamos pela Liberdade Religiosa? Para que erros possam conviver desastrosamente com acertos?

Vivemos o dia-a-dia de nossas casas para "consertarmos" ou pelo menos "ajudarmos a consertar" o que os "outros" fizeram? Lamentável!

Pensemos bem, antes que venha outro Carnaval e se tenha a mesma fantasia.

*Iyá Ngangalecy é sacerdotisa carioca da Nação Angola.

Um comentário:

Povo do Santo disse...

Adorei o texto, esta reflexão é mais que encessaria; visto o que tem passado a nossa religião com toda sorte de frustrados e a omissão de todos e das federações havidas por ganhar as contribuições mensais, e que quese sempre cominam na decepção e no ingresso em alguma religião de base petencostal...