sexta-feira, 26 de março de 2010

Se não é essencial amar!
















Texto: Dofono Rogildo Lopes

E desperto a ira dos Orixás
Se eu não souber perdoar.
E deixo a natureza se danar
Se eu não souber perdoar.
E falo em paz sem pacificar
Se eu não souber perdoar.
E assisto a humanidade se exterminar
Se eu não souber perdoar.
E nenhuma lógica pode me fazer calar
Se eu não souber perdoar.
E se o mundo não acabar,
E se o Brasil ganhar,
E se o dólar baixar,
E se a inflação não aumentar,
E se a honestidade se multiplicar,
E se o lacaio não roubar,
E se a vítima se salvar...
Nada disso não me fazem mudar
Se eu não souber perdoar.
Não saberei perdoar,
Se alguém não me ensinar
O mesmo que sonhar
E acreditar,
E respeitar,
E admirar,
E compartilhar...
Para tudo isso eu aceitar
Precisa alguém me provar,
Que antes de perdoar,
Se não é essencial amar!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Exemplos e palavras



































Dia a dia de trabalho é sempre correria. O intervalo do almoço é a hora de caminhar, de interagir com os arredores da empresa. Entre contas a pagar, algo para comprar e problemas para resolver, dá para estabelecer alguns contatos com as personagens interessantes.

Almoço em um pequeno restaurante na vizinhança. Os proprietários, junto com os outros funcionários, também atendem os clientes no salão, servindo ou no caixa, sempre muito atenciosos e recebendo bem a todos. Um lugar simples, honesto. A sensação de estar nas mãos de boas pessoas compensa outros sinais que me deixariam menos seguro. No trajeto de volta pra casa, há pouco tempo, percebi que os dois, ao saírem do restaurante, complementam o trabalho diário com outra jornada numa lanchonete improvisada em uma praça no bairro, para atender aos que se dão à cervejinha depois do expediente. Uma jornada de trabalho que deve começar muito cedo, terminar muito tarde e logo recomeçar. Duas filhas adolescentes do casal também ajudam rapidamente os pais em alguma tarefa no pico do almoço. Percebe-se pelo fardamento da escola que ainda vestem.

Mas as coisas saem da rotina diária. Tinha suspeitado que eram protestantes apenas por alguns folhetos com mensagens bíblicas no balcão. A filha mais nova, uma menina de uns 14 anos, nota os ians que trago no pescoço e as eventuais roupas brancas também não passam despercebidas. É curioso ver o esforço dela para demonstrar sua fé, certa de que suas palavras intimidarão algum demônio que devo guardar dentro de mim. Na primeira vez, me interpelou com um arrogante "Jesus lhe abençoe", ao qual eu agradeci. Nas vezes seguintes já me pareceu mais comedida. Imagino que por orientação dos pais. Na última vez em que fui até lá, a menina se colocou ao lado do pai, pegou um folheto bíblico e me aguardou. Paguei. O pai preparou meu troco e, em vez de me entregar, passou para a filha o dinheiro. Ela anexou ao folheto onde fez questão de fazer uma dedicatória e me entregou.

Não censuro a criança pela sua ação. Em parte é excesso de orgulho dela de algo que não compreendo, já que religião é - ao meu ver - algo tão íntimo e pessoal, que nao compreendo motivo para orgulhar-se. Nada tem isso a ver com os outros, para que venha a se encher o peito em sensação de superioridade. Por outro lado, é a falta de outros sensos ainda não desenvolvidos pela pouca idade dela. Então penso o quanto é mais eficiente, admirável e conquistador o exemplo do respeito e da união que o trabalho gera. Seus pais, sem usar palavras, mas nos atos que certamente refletem os valores morais pregados pelos seus sacerdotes traduzem diariamente - muito melhor - o que faz diferença e salta aos olhos na vida.

Lamento, mas sinto que, provavelmente, serei um ex-cliente fiel por ação de algum diabo que não sei bem ao certo a quem possui e que, como dizem por ai, mora nos detalhes.

terça-feira, 23 de março de 2010

O que é o Espiritismo?

Frequentemente, nós candomblecistas, nos referimos a nós mesmos ou somos referidos como espíritas. Mas o que é o Espiritismo, de onde vem este termo e o que ele define socialmente? Com alguns esclarecimentos sobre isto, talvez possamos encontrar um senso mais ajustado à realidade que vivemos.

"Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras." Assim começa o Livro dos Espíritos, publicado pela primeira vez em 1857. O termo Espiritismo (do francês antigo "spiritisme", onde "spirit": espírito + "isme": doutrina) surgiu como um neologismo criado pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (que usava o pseudônimo Allan Kardec) para nomear especificamente o corpo de ideias por ele sistematizadas em "O Livro dos Espíritos", publicado em 1857.

A FEB, Federação Espírita Brasileira, sociedade civil responsável pela difusão da Doutrina Espírita no Brasil, define o Espiritismo no seu site como "o conjunto de princípios e leis, revelados pelos Espíritos Superiores, contidos nas obras de Allan Kardec que constituem a Codificação Espírita: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese".

Continuando as palavras de Allan Kardec na introdução do Livro dos Espíritos, "Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas."

Nós, candomblecistas, somos espiritualistas. Nossa religião crê que existe algo além da matéria, o orun. E apesar de o termo espírita ter sido muito utilizado generalizadamente para as crenças que pregam, basicamente, a possibilidade da comunicação entre o mundo espiritual e o material.

Então, no Brasil, candomblecistas, umbandistas, membros da Doutrina do amanhecer, juremeiros, cartomantes, clarividentes, e outras crenças espiritualistas que contrariam com suas práticas pilares das igrejas católica e das protestantes são agrupadas sob um mesmo nome. No Recife, eram todas chamadas de xangôs. Casa de xangô não era, e os pernambucanos sabem disso, apenas o terreiro de Candomblé Nagô Egbá.

Mas, pelo preconceito acumulado e pelas pressões cada vez maiores, ainda mais com a demonização das religiões de matrizes afrobrasileiras, ser espírita é um rótulo menos execrado por quem insiste em oprimir as minorias e as diferenças. Criam-se, assim como acontece com a definição da descendência negra (em denominações que tentam disfarçar a descendência africana nos traços negroscomo moreninho, moreno claro, bronzeado, chocolate, etc) mil termos imaginários para as religiões espiritualistas, dos quais citamos alguns:

  • Espiritismo kardecista (uma redundância, já que o livro que criou o Espiritismo foi organizado e publicado por Kardec)
  • Espiritismo de mesa branca (apenas em referência à cor da toalha que imagina-se forrar uma mesa em torno da qual todos os grupos espíritas se reúnem)
  • Espiritismo de direita e de esquerda (em uma idéia de que "direita", é um formato de culto que faz o bem para os oturos e "esquerda", o mal. Cristão, não existe Espiritismo para o mal)
  • Baixo Espiritismo (grupos que praticam magia maléfica em reuniões demoníacas)
  • Sessão de Espiritismo (qualquer invocação de espíritos para se comunicarem, até um "jogo do copo")
Como vemos, é preciso informação para que erros assim não sejam repetidos, inclusive inocentemente, por pessoas que sem má-fé, tentam encontrar as palavras mais cabíveis para cada caso. Com tantas complicações e variáveis, os termos oficiais são os que valem para denominar as religiões e os religiosos. Espiritismo, Candomblé, Umbanda, Catolicismo, Protestantismo e assim por diante, se somam e fazem esse povo que somos nós, os brasileiros, sinônimos de fé. Somos candomblecistas! Somos de axé.

Dia Mundial da Água, sem muito o que comemorar

Ontem, 22 de março foi o Dia Mundial da Água. Neste dia, em 1992, foram assinados na Organização das Nações Unidas, ONU, a Declaração Universal dos Direitos da Água. É um dia que serve para refletirmos sobre o que fazemos pelas águas que nos cercam. E olhe que para nós, candomblecistas, essas águas não são poucas.

No Candomblé, a água é essencial ao culto. Oxum, a divindade do amor, da fecundação, da gestação, é considerada a deusa das águas doces, do ouro e da adivinhação. Iemanjá, a Grande Mãe, deusa dos oceanos, origem da vida em todo o planeta. Nanã, o orixá da lama, dos pântanos férteis cuja terra molhada foi moldada dando origem à humanidade. Oxumarê, deus da chuva e do arco-íris, dos ciclos da vida... Estes entre tantos outros como Logunedé, Ewá e mesmo os, a princípio, sem relação direta lendária com a água, não podem ser cultuados sem esse elemento.

No entanto, é cada vez mais raro este elemento. Vivemos em uma cidade que recebe o título de Veneza Brasileira pela afinidade que tem com a água, os rios e os canais, no entanto, não é para os recifenses, este um elemento com o qual possa estabelecer grande intimidade. Convivi em uma casa de Candomblé que se encontrava a menos de 50m do Capibaribe. Mas para buscar um rio com água, se não limpa, ao menos tolerável, era preciso percorrer uma grande distância de carro. E isto é um "privilégio" de quase todos os terreiros. O que nos resta é apoiar como este que apresento logo abaixo.

Conheço o Recapibaribe há alguns anos. Donos de um espaço incrivelmente privilegiado que gentilmente abrem para
nosso prazer, no Capibar. Este bar fica plantado na margem do rio Capibaribe, na área do Poço da Panela. É conhecido por sua decoração sui generis, toda feita por peças recolhidas do próprio rio, que não pasavam de lixo e entulho e hoje fazem o astral do lugar ser ainda melhor. É bom parar de falar deles por mim, que a saudade de lá está chegando. Segue um release do projeto, retirado do blog do Recapibaribe.


PROJETO RECAPIBARIBE, DEFENDE O RIO CAPIBARIBE E SEU ECOSSISTEMA

Totalmente pernambucano o rio
Capibaribe nasce Serra do Jacarará, no município de Poção e deságua no Oceano Atlântico. A bacia hidrográfica possui aproximadamente 5.880 km que percorrem cidades importantes do estado: Toritama, Santa Cruz do Capibaribe, Salgadinho, Limoeiro, Paudalho, São Lourenço da Mata e Recife, ao todo são 250 km da nascente a foz. O Capibaribe é o cartão de visita da cidade do Recife que também é conhecida como a Veneza Brasileira, graças à beleza das águas do rio que cortam a cidade. Porém, ele não está sendo preservado, ao longo das margens encontramos lixo e até mesmo o escoamento do esgoto segue para o leito.

O casal Maria do Socorro e André Luiz Cantanhede luta em defesa do ecossistema há mais de 19 anos, com o Projeto Recapibaribe. “Nunca imaginei que o avanço da humanidade seria o aumento da poluição do planeta”, desabafou Maria do Socorro. O Recapibaribe nasceu da insatisfação do casal com as condições ambientais do rio, na opinião de Maria do Socorrro é a negligência do poder público e o descaso da população que prejudicam o ecossistema do Capibaribe. “Eu nasci aqui, me criei nadando nele, a minha família tirava o seu sustento do rio. Para mim é muito triste vê-lo nestas condições”, lamentou Socorro. O desejo de ver o Capibaribe menos poluído é a motivação do casal para dar continuidade ao trabalho de conscientização ambiental.

Todas as segundas-feiras o espaço Capibar é aberto ao público para a visita de alunos da rede pública e particular de ensino, no local estão expostos o lixo que é retirado das águas: televisão, latinha, garrafas, monitores de computador, dentre outros objetos. No Capibar grandes cantores regionais já se apresentaram: Nando Cordel, Mestre Salu, Arlindo dos Oito Baixos, a banda Cumade Florzinha, dentre outros. A renda dos eventos é voltada para a manutenção das atividades da ONG.

O Projeto Recapibaribe também realiza atos públicos para conscientizar a população da importância da preservação ambiental. De acordo com Socorro a ação mais emocionante aconteceu com a adesão de 73 pescadores que recolheram o lixo que fica nas águas do rio. “Saímos daqui do Capibar e acompanhamos o leito, no trajeto recolhemos 200 animais mortos em fase de decomposição”, contou Socorro.

Na opinião do casal Cantanhede o rio Capibaribe precisa da colaboração de todos, pois apenas com a união da coletividade o ecossistema será respeitado e preservado. “Eu acredito num mundo melhor e para isso é necessário que as pessoas lutem juntas por um mesmo ideal”, disse André. Socorro complementou: “Somente quando o ser humano sair do próprio individualismo para lutar em prol do interesse da coletividade, aí sim, iremos conseguir mudar a realidade que nos cerca”.

Projeto Recapibaribe
Telefone (81) 3268-2643
Rua Tapacurá, n° 101, Casa Forte, Recife, Pernambuco.

domingo, 21 de março de 2010

No Brasil, o Censo 2000 revela que apenas 0,3% da população nacional é adepta das religiões afrobrasileiras, Umbanda e Candomblé. Para nós, Povo do Axé, estes dados revelam um Brasil cheio de pessoas invisíveis, especialmente porque não vêem a si mesmos. A campanha nascida no Rio de Janeiro QUEM É DE AXÉ DIZ QUE É, promovida pelo Coletivo de Entidades Negras e que conta com o apoio da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - Seppir, Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, através da Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos (RJ), pretende mudar esta tendência, rompendo como os movimentos negros conseguiram, há pouco, diminuir erros estatísticos relatico à cor da pele, esclarecendo sobre as denominações errôneas para fins de cidadania e que tornavam a população negra e indígena ainda menos vista do que é normalmente pelo poder público.

Um povo que se autoexclui. O preconceito contra si mesmo é o que faz com que candomblecistas e umbandistas tenham medo de afirmar sua fé. Perseguido por líderes e fiéis de outras religiões que demonizam sua crença seja na grande mídia, seja agindo agressivamente perseguindo diretamente, atacando, humilhando e oprimindo o povo de axé nas ruas, em público com menosprezo pela igualdade entre os homens, cidadania, direito à liberdade de crença e à dignidade da pessoa humana, quem não sentiria medo de exercer o simples fato de dizer o quanto ama o seu Orixá?

Pois muitos não se sentem com medo. São corajosos como nossos antepassados também foram. E em condições ainda mais difíceis que a nossa. Quantos exemplos podemos citar dessa luta apenas aqui em Pernambuco? Mãe Biu do Xambá, Pai Adão, Mãe Betinha, Mário Miranda, Pai Edu, entre centenas e centenas que poderíamos citar aqui, com sua trajetória de luta pela manutenção do culto aos deuses africanos, cada um à sua maneira que, sem dúvida alguma, era a melhor que tinham para isso. Ao honrar o nome dos nossos ancestrais, nos tornamos dignos de nos dizermos "de axé", "de orixá".

Vejamos alguns dados. O IBGE em 2000, para 7.918.344 pesquisados no Estado de Pernambuco, encontrou:

Católicos - 5.833.736 pessoas
Protestantes - 1.033.324 pessoas
Espíritas - 91.655 pessoas
Religiões Afro-brasileiras - 12.988 pessoas
Judaísmo - 4.160 pessoas
Religiões Orientais - 3.650 pessoas
Outras religiões - 47.225 pessoas
Sem religião - 866.311 pessoas
Não determinado - 8.425 pessoas


Ou seja, somos, em Pernambuco, apenas 0,16% da população. Avaliando números absolutos, de 8 milhões de pernambucanos, somos apenas 13 mil pessoas. Perguntamos ao leitor se é esta a sua impressão da realidade. Seríamos em Pernambuco, apenas 13 mil entre candomblecistas e umbandistas?

Para o Censo a contagem está correta, afinal, a própria pessoa é quem pode responder que fé professa. No entanto, para nós, a sensação de realidade é diferente. Vejamos quantas pessoas circulam em nosso centro nas reuniões semanalmente e quantas pessoas fazem parte do nosso egbe, sejam iniciadas ou não, mas como membros permanentes, colaboradores da dinâmica do axé. E quantos terreiros temos em nossa rua, em nosso bairro, e ainda mais nos subúrbios, nos morros, nas invasões. Quantos pequenos vãos ficam lotados de pessoas nas reuniões de Jurema, não só clientes esporádicos, mas discípulos que com toda a fé e fervor estão ali sob a orientação dos senhores mestres? Tomamos a liberdade de fazer uma pesquisa rápida e informal em uma comunidade virtual chamada Candomblé, no Orkut. De 20 mil membros, chegavam a quase mil os pernambucanos. Levando em conta o baixo grau de inclusão digital do povo das comunidades de terreiro e ainda mais em um ambiente tão específico quanto uma comunidade de Orkut, ficamos com a impressão de que não somos apenas os que o Censo 2000 revela.

O que acontece é que boa parte de nós se denomina espírita ou católico, e ainda se dizem sem religião. Seja por vergonha ou por falta de conhecimento do que é o Espiritismo (doutrina cristã criada na França no séc. XIX por Allan Kardec baseada na Bíblia e em mensagens mediúnicas), traçamos uma imagem errada de nós. Espírita é outra crença segundo o IBGE! Quando um de nós se declara espírita, automaticamente, faz a religião dos Orixás siginificar cada vez menos!

Onde estamos, quantos somos e do que precisamos, são dados levantados pelo Censo e que serão utilizados em cruzamentos por pesquisadores como base para políticas públicas e ações na saúde, educação, nutrição e segurança pública, por exemplo, grandes carências dos nossos irmãos de fé e que poderiam utilizar como ponto de partida, os excelentes centros sociais que são os terreiros. Mas se não existirmos como pessoas, do que precisaremos?

Todo sacerdote sabe como o seu terreiro é assediado em período eleitoral. Vemos também diariamente os conchavos entre as igrejas evangélicas e os políticos como, inclusive, foi tema de uma das últimas postagens do Povo do Axé, barrando medidas tão valiosas para o podo de religião de matriz africana. São numerosos, crescem, se impõem, penetram na sociedade assim como nós. Os métodos e os objetivos são diferentes. Não queremos o poder sobre os outros, mas o maior deles que é o direito de governar nossa própria vida e de construir um mundo mais humano e com melhores condições para nossos descendentes também dizerem com firmeza e honra:

EU SOU DE AXÉ.

Quando o pesquisador do Censo chegar na sua casa, lembre-se. É fundamental:
QUEM É DE AXÉ, DIZ QUE É!



quinta-feira, 18 de março de 2010

Mães-de-Santo, mães de tanto. O papel cultural das sacerdotisas dos cultos afro-brasileiros

O texto a seguir faz parte das pesquisas da antropóloga, phD. Rita Amaral, da USP. Foi disponibilizado no site Os Urbanitas (http://www.aguaforte.com/osurbanitas6/Amaral2007.html).

A autora traz no texto que deve também ser lido na íntegra no site citado acima, "alguns exemplos que tipificam a ação das mães-de-santo fora da esfera religiosa para mostra
r de que modo a ação da mulher negra e religiosa foi sutil, inteligente e eficaz ao aproveitar todas as brechas sociais, todas as oportunidades de diálogo que a história lhes apresentou, como de resto os negros brasileiros sempre souberam fazer".

Vale a pena aprender com Mãe Aninha(BA), Tia Ciata(RJ), Mãe Mirinha
(BA), Mãe Malvina (SC), Sylvia de Oxalá (SP) e Mãe Badia, que todos os pernambucanos ouvem falar desde crianças nas cantigas dos carnavais, mas não sabem bem ao certo quem foi.


MÃE BADIA
(Foto do JC Online)

"Outras mães-de-santo intimamente ligadas à
conservação das tradições afro-brasileiras religiosas ou a elas ligadas foram Dona Santa, Dona Madalena de Ogum e a legendária Badia –a Senhora dos Carnavais recifenses–, Sinhá e Iaiá (mãe e tia de Badia, respectivamente), mães e tias ligadas às nações de maracatu de Recife, em Pernambuco. Foram responsáveis por sua continuidade e, no caso de Badia, também pela conquista de espaços de legitimidade sociocultural dessa expressão ao mesmo tempo religiosa e profana.

A ligação da cultura africana com a música e a dança é tão forte que o
maracatu pode ser tomado como uma expressão religiosa. Na verdade, o maracatu é manifestação lúdica dos grupos religiosos de culto jejê-nagô do Recife, assim como os afoxés o são na Bahia. Como a religião é vivida plenamente por seus fiéis, as marcas do ethos criado pela experiência religiosa se expandem para todas as dimensões da vida pessoal, inclusive as do lazer e do cotidiano (Amaral, 1992). Nos maracatus são realizadas cerimônias propiciatórias para a obtenção da proteção dos Orixás, do sucesso das apresentações e da realização dos desfiles sem incidentes. Além disso, as calungas são bonecas iniciadas, que representam os ancestrais e seus orixás sob nomes de nobres e fidalgos, recebendo e prestando reverências de natureza religiosa . Alguns dos grandes líderes do xangô de Recife e Olinda estão na retaguarda dos maracatus, como foi o caso do oluô Luiz de França, Dona Madalena de Ogum e outros.

Maria de Lourdes da Silva, Badia, co
stureira, casada e sem filhos, foi uma das principais mães do maracatu. Viveu sua vida no bairro recifense de São José, reduto de descendentes de escravos libertos tornados trabalhadores de baixa renda. A morada de sua família (Rua Vidal de Negreiros, 143) ficou conhecida como Axé das Tias do Pátio do Terço (devido à proximidade com a Igreja do Terço) ou Casa das Tias, constituído e liderado por xangozeiras; entre elas, Badia. A Igreja do Terço foi construída por escravos e, segundo alguns historiadores, a área próxima teria sido um cemitério dos negros escravizados.

(Pátio do Terço, Recife)

Badia era conhecida por atender os que a procuravam oferecendo conselhos . Segundo Motta & Brandão (2002:62): “uma magopsicoterapeuta do maior destaque”. Recebia em sua casa pessoas poderosas da sociedade pernambucana e de outros lugares, com as quais estabeleceu alianças, ganhando fama e prestigio. Políticos, jornalistas, advogados, foliões e carnavalescos freqüentavam a casa de Badia, que fez dela o quartel general de sua crença e das brincadeiras de carnaval. Presidia a misteriosa Sociedade de São Bartolomeu (santo sincretizado em Exu, em Recife), formada por gente de diferentes origens, estratos sociais e confissões religiosas, como alguns xangozeiros “disfarçados” (Motta & Brandão 2002). A Sociedade se reunia para comemorar o santo aos 24 de outubro, na casa de Badia, com ladainhas, cânticos em latim e, na Igreja do Rosário dos Pretos, perto no Pátio do Terço, com missa.

Rei e Rainha (já falecidos) do Maracatu Porto Rico na Noite dos Tambores Silenciosos em 1978, no Pátio do Terço (Foto da Fundaj).

Foi Mãe Badia quem estabeleceu, juntamente com o sociólogo e jornalista Paulo Viana, na década de 1960, o encontro das nações de maracatu no Pátio do Terço para a cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos. Nesta noite, sempre uma segunda-feira de Carnaval, os maracatus se encontram no Pátio do Terço e tocam até meia-noite, quando fazem silêncio em reverência aos antepassados arrancados de sua terra e escravizados, revividos pela corte do maracatu. São feitas orações e os ancestrais são convidados, juntamente com Iansã, para fazerem parte da cerimônia. Os tambores ecoam forte, as luzes se apagam. Tochas iluminam o pátio. Pombas brancas são soltas e voam livres na noite. Paz, harmonia e sossego são pedidos aos orixás. O povo, em silêncio, levanta as mãos para receber as bênçãos. Mas os maracatus voltarão a tocar, mostrando o quão belo é o Recife pegando fogo na pisada do maracatu.

Olê, olê olá, negada olha a linha,
Sustenta esta pisada,
Nosso Re
i, nossa Rainha
Toada de maracatu Negrada olha a linha (domínio público)

A idéia da cerimônia surgiu a partir da homenagem que as nações de maracatu prestavam aos orixás, por ocasião do carnaval, d
iante do Axé das Tias, onde as calungas, representantes dos ancestrais, dançavam. Para retribuir a honraria e homenagear os maracatus e seu simbolismo, Badia se empenhou em garantir esse encontro cerimonial que hoje integra a programação oficial do carnaval pernambucano, sendo visto como um de seus momentos mais sublimes.

Em 1977, Badia abrigou, também, em sua casa a agremiação Clube Carnavalesco as Coroas de São José. Atualmente, mais de 20 nações de maracatu participam da cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos. Alguns desses grupos são seculares, como o Nação Elefante, fundado em 1800 e o Maracatu Leão Coroado, de 1863. De acordo com matérias publicadas pelos jornais pernambucanos, sua contribuição para o Carnaval de Pernambuco não foi esquecida e seu nome é sempre lembrado e homenageado por agremiações famosas, a exemplo do Vassourinhas, Lenhadores e Bloco Saberé.

Dessa múltipla relação com o poder secular, mágico e espiritual, Badia, que nunca teve filhos carnais, embora tivesse adotado Lúcia, tornou-se a emblemática mãe do maracatu, juntamente com outras como dona Santa, do Maracatu Leão Coroado e Dona Madalena do Maracatu Elefante. A casa onde viveu é hoje o Centro Cultural Casa de Badia, dedicado à cultura afro-brasileira nos carnavais."

Amaral, Rita. Povo-de-santo, povo de festa. Um estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulistano. Dissertação de Mestrado, FFLCH / USP, São Paulo, 1992.

Brandão, Maria do Carmo & Motta, Roberto. Adão e Badia: carisma e tradição no xangô de Pernambuco. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.

sábado, 13 de março de 2010

Dilma adia legalização de terreiros de umbanda para evitar nova crise

Pessoal, esta matéria foi publicada no jornal O Estado de São Paulo, no dia 21/01/2010 e está disponível no site do Ministério da Cultura. É assim que segue nossa politica e são estas as motivações dos nossos governantes. Por isso é importante nos unirmos porque sem isso não temos voz. Sem força, sem coragem, sem vontade, sem disposição, sem número, que grupo pode ter direito a alguma coisa? Conquistemos o respeito que tanto queremos e dizemos merecer. Cadê você que não faz valer isso?
No Censo 2010 diga a sua religião. Umbanda, Candomblé, espírita, o que for! Seja honesto consigo mesmo, com os antepassados e com os deuses que abrem os braços a todos e não só a quem abre os braços para eles. Os evangélicos são 15% do eleitorado e por isso somos sacrificados para que os egos cheios de ideais de supremacia e opressão sejam satisfeitos. Qantos somos? Só no seu terreiro, no dos seus amigos, quantos são? Na sua rua, seus filhos de santos, clientes, quantos são? Imagine se é justo 122 anos depois da abolição da escravatura negra, tolerarmos sermos sacrificados para fortalecer o poder de grupos políticos.

Segue o texto na íntegra e espero que indigne a cada um de vocês como a mim. E que os faça agir:



Plano seria lançado ontem, mas foi barrado por receio de atritos com Igreja Católica e evangélicos no ano eleitoral

Disposta a evitar novos atritos com evangélicos e a Igreja Católica em ano eleitoral, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência, mandou a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial adiar o anúncio do Plano Nacional de Proteção à Liberdade Religiosa. O plano, que prevê a legalização fundiária dos imóveis ocupados por terreiros de umbanda e candomblé e até o tombamento de casas de culto, seria lançado ontem, mas na última hora o governo segurou a divulgação, sob o argumento de que era preciso revisar aspectos jurídicos do texto.

O adiamento ocorre na esteira da polêmica envolvendo o Programa Nacional de Direitos Humanos, que pôs o Palácio do Planalto numa enrascada política, provocando crise dentro e fora do governo. Temas controversos, como descriminação do aborto, união civil de pessoas do mesmo sexo e proibição do uso de símbolos religiosos em repartições públicas, foram alvo de fortes críticas, principalmente por parte da Igreja.

Na avaliação do Planalto, é preciso evitar novos embates que possam criar “ruídos de comunicação” e prejudicar a campanha de Dilma. Desde o ano passado, a ministra tem feito todos os esforços para se aproximar tanto de católicos quanto de evangélicos e já percorreu vários templos religiosos.

“O Programa de promoção de políticas públicas para as comunidades tradicionais de terreiro já estava adequado, mas, como é um plano de governo, precisa ser pactuado para não haver constrangimentos”, afirmou o ministro-chefe da Secretaria da Igualdade Racial, Edson Santos.

Apesar de dizer que nunca é demais dar “outra passada de olhos” no texto, para maior observância à Constituição e ao Código Penal, Santos não escondeu a decepção com a ordem para suspender o anúncio do plano, que seria feito justamente na véspera do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado hoje.

“Espero que possamos lançá-lo o mais rapidamente possível”, disse o ministro, diante de uma plateia de praticantes de umbanda e candomblé, que se reuniram no Salão Negro do Ministério da Justiça. “Somos um Estado laico, mas não seremos neutros e cegos diante das injustiças e do racismo.”

REAÇÃO

A informação sobre o adiamento do Programa pegou de surpresa as comunidades de terreiro. Muitas mães e pais de santo viajaram de longe para assistir à cerimônia e só souberam na hora que haveria ali apenas um debate.

“Quando o governo chega na encruzilhada e tem de tomar uma decisão, recua. Será medo? Acho que sim”, protestou Valdina Pinto de Oliveira, do terreiro Tanuri Junsara, de Salvador (BA). Ela foi além e conclamou a comunidade do candomblé a pensar bem em quem vai votar nas eleições de outubro.

“Está na hora de irmos para o campo político e de educar os nossos para saber quem vamos eleger”, insistiu Valdina, sob aplausos. “A gente viu o que aconteceu com o Estatuto da Igualdade Racial e o que está acontecendo com esse plano. Por que para negro e índio não tem terra? Precisamos acabar com esse vírus do racismo.”

Coordenador das reuniões realizadas para a confecção do plano, o subsecretário de Políticas para Comunidades Tradicionais, Alexandro Reis, tentou contornar o desapontamento geral. “A preocupação do governo é que determinados setores, por motivos eleitorais, utilizem o plano de proteção à liberdade religiosa como algo negativo”, contou. Reis admitiu que o texto “precisa ser pactuado com evangélicos e católicos” para não ser contaminado pelo ambiente político de 2010. Disse, no entanto, que os terreiros não podem participar dessa briga. “Estamos tratando de um segmento que tem sido demonizado, mas não vamos violar direitos de ninguém”, argumentou. Depois, garantiu que o governo continuará o mapeamento dos terreiros para nortear as políticas públicas.

Embora a Secretaria da Igualdade Racial tenha informado que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é solidária ao plano, a Pastoral Afro-Brasileira assegurou não ter sido consultada sobre seu conteúdo. Atualmente, apenas seis dos cerca de 10 mil terreiros são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Para o pastor Ronaldo Fonseca, presidente do Conselho Político da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, o Estado não deve gastar dinheiro com tombamento de templos. “O governo está se envolvendo em polêmicas desnecessárias”, comentou. “Não existe guerra santa aqui e não é inteligente o Estado se preocupar com símbolos religiosos, tombamentos e união de homossexuais. Isso é coisa de marxista.”

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