quinta-feira, 25 de março de 2010

Exemplos e palavras



































Dia a dia de trabalho é sempre correria. O intervalo do almoço é a hora de caminhar, de interagir com os arredores da empresa. Entre contas a pagar, algo para comprar e problemas para resolver, dá para estabelecer alguns contatos com as personagens interessantes.

Almoço em um pequeno restaurante na vizinhança. Os proprietários, junto com os outros funcionários, também atendem os clientes no salão, servindo ou no caixa, sempre muito atenciosos e recebendo bem a todos. Um lugar simples, honesto. A sensação de estar nas mãos de boas pessoas compensa outros sinais que me deixariam menos seguro. No trajeto de volta pra casa, há pouco tempo, percebi que os dois, ao saírem do restaurante, complementam o trabalho diário com outra jornada numa lanchonete improvisada em uma praça no bairro, para atender aos que se dão à cervejinha depois do expediente. Uma jornada de trabalho que deve começar muito cedo, terminar muito tarde e logo recomeçar. Duas filhas adolescentes do casal também ajudam rapidamente os pais em alguma tarefa no pico do almoço. Percebe-se pelo fardamento da escola que ainda vestem.

Mas as coisas saem da rotina diária. Tinha suspeitado que eram protestantes apenas por alguns folhetos com mensagens bíblicas no balcão. A filha mais nova, uma menina de uns 14 anos, nota os ians que trago no pescoço e as eventuais roupas brancas também não passam despercebidas. É curioso ver o esforço dela para demonstrar sua fé, certa de que suas palavras intimidarão algum demônio que devo guardar dentro de mim. Na primeira vez, me interpelou com um arrogante "Jesus lhe abençoe", ao qual eu agradeci. Nas vezes seguintes já me pareceu mais comedida. Imagino que por orientação dos pais. Na última vez em que fui até lá, a menina se colocou ao lado do pai, pegou um folheto bíblico e me aguardou. Paguei. O pai preparou meu troco e, em vez de me entregar, passou para a filha o dinheiro. Ela anexou ao folheto onde fez questão de fazer uma dedicatória e me entregou.

Não censuro a criança pela sua ação. Em parte é excesso de orgulho dela de algo que não compreendo, já que religião é - ao meu ver - algo tão íntimo e pessoal, que nao compreendo motivo para orgulhar-se. Nada tem isso a ver com os outros, para que venha a se encher o peito em sensação de superioridade. Por outro lado, é a falta de outros sensos ainda não desenvolvidos pela pouca idade dela. Então penso o quanto é mais eficiente, admirável e conquistador o exemplo do respeito e da união que o trabalho gera. Seus pais, sem usar palavras, mas nos atos que certamente refletem os valores morais pregados pelos seus sacerdotes traduzem diariamente - muito melhor - o que faz diferença e salta aos olhos na vida.

Lamento, mas sinto que, provavelmente, serei um ex-cliente fiel por ação de algum diabo que não sei bem ao certo a quem possui e que, como dizem por ai, mora nos detalhes.

2 comentários:

Menina Nina disse...

Leonardo, cheguei aqui pelo orkut. Isso também já aconteceu comigo. As pessoas nos olham estranhamente, como se fossemos os próprios "demônios". Outro dia, uma mulher começou a tentar me converter no ônibus, depois de notar o contra egum no meu braço. Sou umbandista, com muita fé e orgulho, mas acho completamente desnecessário essa lavagem cerebral que algumas pessoas tentam fazer... Cada um no seu cada um, melhor assim, não é?
Motubá

Leonardo Crocia disse...

Muito melhor, Nina. Cada um procura seu caminho e, se há alguma hustificativa a dar depois dos nossos atos, ela será pessoal. "A cada um, de acordo com suas obras", dizem os Cristãos, então que vivamos produtivamente, unicamente a nossa vida.
Motumbá axé. Motumbá!