domingo, 21 de março de 2010

No Brasil, o Censo 2000 revela que apenas 0,3% da população nacional é adepta das religiões afrobrasileiras, Umbanda e Candomblé. Para nós, Povo do Axé, estes dados revelam um Brasil cheio de pessoas invisíveis, especialmente porque não vêem a si mesmos. A campanha nascida no Rio de Janeiro QUEM É DE AXÉ DIZ QUE É, promovida pelo Coletivo de Entidades Negras e que conta com o apoio da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - Seppir, Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, através da Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos (RJ), pretende mudar esta tendência, rompendo como os movimentos negros conseguiram, há pouco, diminuir erros estatísticos relatico à cor da pele, esclarecendo sobre as denominações errôneas para fins de cidadania e que tornavam a população negra e indígena ainda menos vista do que é normalmente pelo poder público.

Um povo que se autoexclui. O preconceito contra si mesmo é o que faz com que candomblecistas e umbandistas tenham medo de afirmar sua fé. Perseguido por líderes e fiéis de outras religiões que demonizam sua crença seja na grande mídia, seja agindo agressivamente perseguindo diretamente, atacando, humilhando e oprimindo o povo de axé nas ruas, em público com menosprezo pela igualdade entre os homens, cidadania, direito à liberdade de crença e à dignidade da pessoa humana, quem não sentiria medo de exercer o simples fato de dizer o quanto ama o seu Orixá?

Pois muitos não se sentem com medo. São corajosos como nossos antepassados também foram. E em condições ainda mais difíceis que a nossa. Quantos exemplos podemos citar dessa luta apenas aqui em Pernambuco? Mãe Biu do Xambá, Pai Adão, Mãe Betinha, Mário Miranda, Pai Edu, entre centenas e centenas que poderíamos citar aqui, com sua trajetória de luta pela manutenção do culto aos deuses africanos, cada um à sua maneira que, sem dúvida alguma, era a melhor que tinham para isso. Ao honrar o nome dos nossos ancestrais, nos tornamos dignos de nos dizermos "de axé", "de orixá".

Vejamos alguns dados. O IBGE em 2000, para 7.918.344 pesquisados no Estado de Pernambuco, encontrou:

Católicos - 5.833.736 pessoas
Protestantes - 1.033.324 pessoas
Espíritas - 91.655 pessoas
Religiões Afro-brasileiras - 12.988 pessoas
Judaísmo - 4.160 pessoas
Religiões Orientais - 3.650 pessoas
Outras religiões - 47.225 pessoas
Sem religião - 866.311 pessoas
Não determinado - 8.425 pessoas


Ou seja, somos, em Pernambuco, apenas 0,16% da população. Avaliando números absolutos, de 8 milhões de pernambucanos, somos apenas 13 mil pessoas. Perguntamos ao leitor se é esta a sua impressão da realidade. Seríamos em Pernambuco, apenas 13 mil entre candomblecistas e umbandistas?

Para o Censo a contagem está correta, afinal, a própria pessoa é quem pode responder que fé professa. No entanto, para nós, a sensação de realidade é diferente. Vejamos quantas pessoas circulam em nosso centro nas reuniões semanalmente e quantas pessoas fazem parte do nosso egbe, sejam iniciadas ou não, mas como membros permanentes, colaboradores da dinâmica do axé. E quantos terreiros temos em nossa rua, em nosso bairro, e ainda mais nos subúrbios, nos morros, nas invasões. Quantos pequenos vãos ficam lotados de pessoas nas reuniões de Jurema, não só clientes esporádicos, mas discípulos que com toda a fé e fervor estão ali sob a orientação dos senhores mestres? Tomamos a liberdade de fazer uma pesquisa rápida e informal em uma comunidade virtual chamada Candomblé, no Orkut. De 20 mil membros, chegavam a quase mil os pernambucanos. Levando em conta o baixo grau de inclusão digital do povo das comunidades de terreiro e ainda mais em um ambiente tão específico quanto uma comunidade de Orkut, ficamos com a impressão de que não somos apenas os que o Censo 2000 revela.

O que acontece é que boa parte de nós se denomina espírita ou católico, e ainda se dizem sem religião. Seja por vergonha ou por falta de conhecimento do que é o Espiritismo (doutrina cristã criada na França no séc. XIX por Allan Kardec baseada na Bíblia e em mensagens mediúnicas), traçamos uma imagem errada de nós. Espírita é outra crença segundo o IBGE! Quando um de nós se declara espírita, automaticamente, faz a religião dos Orixás siginificar cada vez menos!

Onde estamos, quantos somos e do que precisamos, são dados levantados pelo Censo e que serão utilizados em cruzamentos por pesquisadores como base para políticas públicas e ações na saúde, educação, nutrição e segurança pública, por exemplo, grandes carências dos nossos irmãos de fé e que poderiam utilizar como ponto de partida, os excelentes centros sociais que são os terreiros. Mas se não existirmos como pessoas, do que precisaremos?

Todo sacerdote sabe como o seu terreiro é assediado em período eleitoral. Vemos também diariamente os conchavos entre as igrejas evangélicas e os políticos como, inclusive, foi tema de uma das últimas postagens do Povo do Axé, barrando medidas tão valiosas para o podo de religião de matriz africana. São numerosos, crescem, se impõem, penetram na sociedade assim como nós. Os métodos e os objetivos são diferentes. Não queremos o poder sobre os outros, mas o maior deles que é o direito de governar nossa própria vida e de construir um mundo mais humano e com melhores condições para nossos descendentes também dizerem com firmeza e honra:

EU SOU DE AXÉ.

Quando o pesquisador do Censo chegar na sua casa, lembre-se. É fundamental:
QUEM É DE AXÉ, DIZ QUE É!



Um comentário:

Paula Brasileiro disse...

Acabei de ler, no jornal deste domingo, sobre essa capmanha e achei incrível! O preconceito muitas vezes começa por nós mesmos. São atitudes "simples" como essas, a de assumir nossa religião, nossa cor, nossas crenças, nossa verdade que o preconceito cai por terra (o nosso e o dos outros). Quero agradecer muito a sua visita no Meu Recife é Assim, fiquei muito feliz! Volte sempre! Abraço!