terça-feira, 23 de março de 2010

O que é o Espiritismo?

Frequentemente, nós candomblecistas, nos referimos a nós mesmos ou somos referidos como espíritas. Mas o que é o Espiritismo, de onde vem este termo e o que ele define socialmente? Com alguns esclarecimentos sobre isto, talvez possamos encontrar um senso mais ajustado à realidade que vivemos.

"Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras." Assim começa o Livro dos Espíritos, publicado pela primeira vez em 1857. O termo Espiritismo (do francês antigo "spiritisme", onde "spirit": espírito + "isme": doutrina) surgiu como um neologismo criado pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (que usava o pseudônimo Allan Kardec) para nomear especificamente o corpo de ideias por ele sistematizadas em "O Livro dos Espíritos", publicado em 1857.

A FEB, Federação Espírita Brasileira, sociedade civil responsável pela difusão da Doutrina Espírita no Brasil, define o Espiritismo no seu site como "o conjunto de princípios e leis, revelados pelos Espíritos Superiores, contidos nas obras de Allan Kardec que constituem a Codificação Espírita: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese".

Continuando as palavras de Allan Kardec na introdução do Livro dos Espíritos, "Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas."

Nós, candomblecistas, somos espiritualistas. Nossa religião crê que existe algo além da matéria, o orun. E apesar de o termo espírita ter sido muito utilizado generalizadamente para as crenças que pregam, basicamente, a possibilidade da comunicação entre o mundo espiritual e o material.

Então, no Brasil, candomblecistas, umbandistas, membros da Doutrina do amanhecer, juremeiros, cartomantes, clarividentes, e outras crenças espiritualistas que contrariam com suas práticas pilares das igrejas católica e das protestantes são agrupadas sob um mesmo nome. No Recife, eram todas chamadas de xangôs. Casa de xangô não era, e os pernambucanos sabem disso, apenas o terreiro de Candomblé Nagô Egbá.

Mas, pelo preconceito acumulado e pelas pressões cada vez maiores, ainda mais com a demonização das religiões de matrizes afrobrasileiras, ser espírita é um rótulo menos execrado por quem insiste em oprimir as minorias e as diferenças. Criam-se, assim como acontece com a definição da descendência negra (em denominações que tentam disfarçar a descendência africana nos traços negroscomo moreninho, moreno claro, bronzeado, chocolate, etc) mil termos imaginários para as religiões espiritualistas, dos quais citamos alguns:

  • Espiritismo kardecista (uma redundância, já que o livro que criou o Espiritismo foi organizado e publicado por Kardec)
  • Espiritismo de mesa branca (apenas em referência à cor da toalha que imagina-se forrar uma mesa em torno da qual todos os grupos espíritas se reúnem)
  • Espiritismo de direita e de esquerda (em uma idéia de que "direita", é um formato de culto que faz o bem para os oturos e "esquerda", o mal. Cristão, não existe Espiritismo para o mal)
  • Baixo Espiritismo (grupos que praticam magia maléfica em reuniões demoníacas)
  • Sessão de Espiritismo (qualquer invocação de espíritos para se comunicarem, até um "jogo do copo")
Como vemos, é preciso informação para que erros assim não sejam repetidos, inclusive inocentemente, por pessoas que sem má-fé, tentam encontrar as palavras mais cabíveis para cada caso. Com tantas complicações e variáveis, os termos oficiais são os que valem para denominar as religiões e os religiosos. Espiritismo, Candomblé, Umbanda, Catolicismo, Protestantismo e assim por diante, se somam e fazem esse povo que somos nós, os brasileiros, sinônimos de fé. Somos candomblecistas! Somos de axé.

Nenhum comentário: