quinta-feira, 15 de abril de 2010

INCLUSÃO DIGITAL É INCLUSÃO SOCIAL?


Muito se fala e algo se faz pela cobiçada inclusão digital, como a solução para os problemas sociais do Brasil. Mas será que Inclusão Digital e Inclusão Social são a mesma coisa ou estão diretamente ligadas? Algumas informações podem nos deixar claro que não há necessariamente esta ligação, enquanto outras apontam para esta tecnologia como o caminho do futuro para possibilitar uma sociedade mais equilibrada. Nós, acompanhamos tudo isso ligados pela web, no blog Povo do Axé.

Inclusão digital é a democratização do acesso à tecnologia da informação. É o que permite que cada um de nós se integre aos canais dos maiores bens para as sociedades atuais: conhecimento. Nossa sociedade é, cada vez mais, voltada para o saber, para a produção de conhecimento, indexados e comercializados para a produção das riquezas. Não basta o domínio da técnica em um mundo saturado pela produção. O que se busca é o conhecimento para a superação da técnica. Estruturadas e indexadas, estas informações são disponibilizadas ao redor do mundo, na famosa e banalizada expressão globalização.

Abertos os mercados, como as pessoas que não conseguem se integrar e "escoar" por estes canais de oferta serão absorvidas e ativas na economia que cada vez mais sai das esferas locais e passa para as globais? Então entram as atenções governamentais para o estímulo à Inclusão Digital das pessoas nas camadas econômicas mais baixas. Através das ferramentas da informática, os conteúdos destes indivíduos e suas produções intelectuais, culturais, artísticas, com objetivos financeiros ou não, podem ser consumidos ao redor do mundo, gerando possibilidade de acesso, inserção e interação com novas dimensões.

Mas enquanto se expande o número de computadores por habitante no país, lanhouses e pontos de acesso público nas escolas, o que muda nos conteúdos que virão a ser depositados na Grande Rede por estes estratos sociais? Prosperidade econômica ou social sem a dignidade que vem através de um longo conjunto de ações especialmente em educação, não são possíveis. Ao contrário, se consolidam com isso, exclusões sociais e a verdadeiros bolsões que rotulam por preconceitos ou constatação e segregam o indivíduo em vez de integrá-lo. Fecham-se e endurece-se as classes em vez de unificá-las. Este isolamento, inclusive, não é necessariamente hierarquizado por poder de compra, já que diariamente exemplos de sucessos econômicos eclodem das classes C e D, nas artes impulsionadas pela popularização das mídias digitais.

Vejamos um exemplo de projeto citado na revista Meio Digital, publicação do Grupo Meio&Mensagem, nº6, na sua matéria de capa, "Webfavela na parada!", que é o Rio Biografias, criado pela escritora e pedagoga Sonia Rodrigues.

O Rio Biografia é uma comunidade digital com espaço para 1400 alunos e 350 professores de ensino médio da rede pública do Rio de Janeiro. A equipe do projeto uma trilha de atividades de leitura, redação e socialização online com jogos, fóruns, blogs. O projeto levou oficinas presenciais para as escolas e manterá oficina online, concurso de contos, com premiação para alunos e professores. Todas as atividades relacionam os dias de hoje e os conflitos humanos atuais com a literatura de grandes autores brasileiros como Machado de Assis, José de Alencar, Aloísio de Azevedo, Manuel Antônio de Almeida, Graciliano Ramos.

Meio Digital – Porque esses autores e não outros?

Sonia Rodrigues – Porque esses são os autores que aparecem mais nas provas de vestibular do Rio de Janeiro nos últimos dez anos.

MD – Quais os obstáculos enfrentados para a implantação do projeto?

SR – O grande obstáculo foi prosaico e dá bem a medida de que simples acesso ao computador, por si só, não inclui ninguém. A inscrição dependia de dois pré-requisitos: número de CPF e leitura e resumo de um dos livros de um desses cinco autores. Muitos alunos da rede não têm CPF. Ninguém sabe quantos. Acho que quase todo mundo tem Orkut, mas muita gente não tem CPF. Os professores não sabiam que CPF se tira no correio e que qualquer criança pode ter CPF. (...) Mas talvez o principal obstáculo é que os alunos não têm o hábito de ler silenciosamente um livro inteiro. Não são oferecidas atividades de concentração para isso. Agora nós vamos sentar e ler esse texto aqui e depois dizer o que foi que lemos. Assim você cria não só um projeto de inclusão digital, mas também social e intelectual, com uma linguagem antenada com o tempo presente. Nossa meta é que o participante da comunidade aprenda a expressar melhor seu pensamento, domine a língua culta, participe do vestibular das universidades federais com mais chances, saiba distinguir onde o internetês é pertinente (Orkut, MSN) e onde ele deve escrever por extenso, com clareza, precisão. Dá para entrar na universidade pública sem isso? Não dá. Dá para arranjar um emprego com facilidade sem isso? Não dá. Dá para responder à discriminação social sem gerar mais discriminação social sem isso? Não dá.

O Polo Afro, Pólo de Saúde e Saberes Afro Brasil, iniciativa ligada ao terreiro de candomblé Ketu, Ilê Axé Iyá Ori Axé Ogê Lawô, vem nos últimos realizando diversas ações dentro do ideal de inclusão social que passam também pelos meios digitais. Inscrições estão abertas para oficinas de informática, onde adolescentes e adultos aprenderão a utilizar o computador não como ferramenta de lazer, mas como uma ferramenta positiva, de potencialização do saber. É preciso orientar para que elas tenham em si bons conteúdos e, depois, que saibam manipular as técnicas de distribuição da sua produção.

Para que a informatização seja construtiva e não um simples passatempo, diversas outras atividades ocorrerão paralelamente, especialmente as dentro das metas do Pólo, de estímulo e resgate do patrimônio cultural das comunidades de terreiro e dos grupos de identidade afropernambucana. A exploração destas potencialidades torna cada participante das oficinas único por sua bagagem. Então é valorizada sua comunidade, sua origem e ele se insere em um mundo globalizado com as raízes fincadas. Estas ligações com as suas origens servirão para o retorno dos ganhos individuais para a própria comunidade.

A Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital aponta que em 2008 existiam mais de 70 mil lan houses e cibercafés no Brasil. A cada dia os computadores chegam a preços mais acessíveis, as escolas se equipam com acesso à Internet, enquanto ainda se aguarda que o acesso a educação de qualidade e à sua própria cultura avancem na mesma progressão.

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