quarta-feira, 23 de junho de 2010

É coisa de abiã

Autor desconhecido

Fazer bori, ter ori
potencializar este espaço no coração

e esperar nascer de novo.
no silêncio de uma singela oração
acolhido e equilibrado
fazer pai ou mãe
ficar encantado
no novo filho a continuação

só dois fios de contas
Oxalá e yemanjá
também só veste branco mas é benção de eledá

É coisa de Abiã
sonhar e só cantar
dançar vendo o orixá
e passar pelo bolonan

aguçar os sentidos
ouvir o som do pilão
conviver com os segredos
e os banhos de proteção

começar acreditar
no poder curativo do axé
nos rituais de esperança

renascer pela fé
dizer: no dia da minha obrigação...
se tornar mais um apaixonado
sonhar com a iniciação
reconhecer o sagrado

no ilê o sentido de irmandade
pela lógica da vida
um grito de liberdade
onde se faz a comunhão
estar atento a sabedoria
pedir para ser abençoado
ser feliz e na sintonia

seu destino melhorado
conviver na comunidade encantada
dos irmãos o que é comum
a energia emenada
do reino de Olorun!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Como fazer um axé de sucesso



Sempre ficamos sabendo, querendo ou não, dos novos lançamentos dos fenômenos da Música Brasileira em seus variados ritmos e expressões, do forró eletrônico, technobrega, funk e assim por diante. No entanto, o que me chama atenção é a grande valorização e o buxixo causado pelos "axés" no meio candomblecista, como se realmente fossem eles, veículos desse bem tão valioso. Será que existe conteúdo suficiente para se dizer algo com axé? As composições unem sonoridade, letra, interpretação, tudo isso dentro de um objetivo mercadológico e artístico naturalmente. Mais que "Jacarés Iemanjás" acima, cansa ouvir músicas-engodo, pseudo-homenagens a Orixás, mas cantadas em um iorubá que cola palavras e sons apenas para rimar e impressionar aos leigos.

"Odô, axé odô, axé odô, axé odô
Odô, axé odô, axé odô, axé odô
Isso é pra te levar no ilê
Pra te lembrar do badauê
Pra te lembrar de lá
Isso é pra te levar no meu terreiro
Pra te levar no candomblé
Pra te levar no altar
Isso é pra te levar na fé
Deus é brasileiro
Muito obrigado axé
Ilumina o mirin orumilá
Na estrada que vem a cota
É um malê é um maleme
Quem tem santo é quem entende"

Quem tem santo tenta entender o que Ivete e Bethânia, do Olimpo, cantaram a não ser frases rimadas sem muita coerência, mas em um arranjo belíssimo.

É esperar as próximas.



segunda-feira, 21 de junho de 2010

HUMOR: Lei Seca não poupa nem Exu

Médium abordado pela PM não escapa do bafômetro

Texto: Mirna Bom Sucesso
Fotos: Renato Takahashi

(05-08-08) – Não são apenas os fãs do happy hour que terão de mudar seus hábitos com a nova Lei de trânsito, que proíbe o consumo de álcool pelos motoristas. Os adeptos de alguns cultos religiosos também terão de dar um jeito de adaptar os rituais em terreiro brasileiro.

“Duro vai ser explicar isso para Exu, Zé Pilintra, Pomba-Gira e outras entidades de esquerda que fazem uso da bebida em cerimônias religiosas”, escreve-nos o internauta Ricardo Aguiar, 42, de Brasília.

Aguiar diz ter sentindo na pele a intolerância das autoridades.
“Há 10 anos, repito o mesmo ritual: vou para o terreiro, incorporo minha entidade, que toma uma ou duas doses de cachaça, dá sua ajuda e vai embora. Nunca tinha tido problemas”.

Na madrugada da última sexta-feira, entretanto, o médium voltava da tradicional
cerimônia quando foi abordado por um policial. Ainda vestido a caráter, capa preta e chapéu – “estava muito cansado para trocar de roupa àquela hora” –, recebeu da autoridade a ordem de apresentar a carteira de motorista, documento do carro e “certo olhar de través”.

“Ele me perguntou se eu estava fantasiado de mágico”. Surpreendido com o que chamou de desrespeito, Aguiar diz que ainda tentou explicar. “Relatei que não tinha tido tempo para tirar a roupa do trabalho. O policial retrucou com ironia: e você trabalha onde, no circo?’. Fiquei chocado”.

É, parece que o santo do guarda não bateu com o do Aguiar. “Com a provocação do policial, senti uma vibração diferente. Minha entidade já estava ali, pronta pra baixar a qualquer momento. Respirei fundo e tentei remediar: ‘não, senhor, trabalho numa casa espiritual. E não estou querendo ensinar o seu trabalho, mas seu comportamento pode configurar preconceito religioso’. Disse e citei um trecho da Constituição Federal, que já trago na ponta da l
íngua para essas ocasiões: ‘A Constituição Federal consagra como direito fundamental a liberdade de religião, prescrevendo que o Brasil é um país laico. Com essa afirmação queremos dizer que, consoante a vigente Constituição Federal, o Estado deve se preocupar em proporcionar a seus cidadãos um clima de perfeita compreensão religiosa, proscrevendo a intolerância e o fanatismo”.

Pode ser que o policial tenha achado a decoreba constitucional do Aguiar além da conta, pois teve a idéia de perguntar: “Você, por acaso, bebeu?”. O médium corrigiu: “eu não, meu Exu bebeu”.

O policial sacou o rádio, pediu reforço, o bafômetro e completou:
“Art. 277. Todo condutor de veículo automotor, envolvido em acidente de trânsito ou que for alvo de fiscalização de trânsito, sob suspeita de dirigir sob a influência de álcool será submetido a testes de alcoolemia, exames clínicos, perícia ou outro exame que, por meios técnicos ou científicos, em aparelhos homologados pelo CONTRAN, permitam certificar seu estado”.

Os dois cruzaram olhares de guerra. Seguiu-se, então, a seguinte discussão:

Aguiar: “não há nenhum artigo na nova legislação que proíba entidade espiritual de beber”.
PM: “não há nenhum artigo que autorize entidade espiritual beber. Reze pra sua levar o álcool todo pro além, caso contrário você está encrencado”.

Quando o coronel da PM trouxe o bafômetro, Aguiar concordou em assoprá-lo. Deu lá coisa de 0,1 decigramas, um a menos que o permitido por Lei.

Inconformado, o policial chacoalhou o bafômetro, reclamou de um possível defeito e pediu que o suspeito assoprasse novamente. Já com cara esquisita, o médium deu uma baforada mais profunda que sujeito que pratica apnéia. “Os números do bafômetro foram crescendo, segundo a segundo, como num cronômetro. Já não era eu”, relata Aguiar.

Espantado e pressentindo estar diante do sobrenatural, o policial recorreu ao superior. “Não disse? Veja só, ele está bêbado!”

“Bêbado o quê?”, disse Aguiar, que já tinha deixado de ser Aguiar até na voz. O policial ficou arrepiado. “Quem bebe aqui sou eu, não meu ‘aparelho’. Deixa a gente ir embora, caso contrário o bicho vai pegar pro seu lado”.

O policial era teimoso. “Só faltava essa. Agora basta fingir que está incorporado para fugir da Lei. Já pensou se a moda pega? O que vai ter de Exu e Pomba-Gira saindo de balada não vai ser fácil”.

“Exu Tranca Rua”, saiu da boca do médium. “Seu coronel, seu funcionário é mesmo muito competente. Podia até ganhar uma promoção. Nas noites que o senhor está de plantão, ele faz uma retaguarda lá sua casa, juntinho de sua esposa”.

O policial queria dizer que era mentira do Exu, intriga, mas a palidez do rosto serviu como confissão. “Não é o que o senhor está pensando...”

“Pois é sim”, continuou a entidade. “Depois dizem que eu é que tenho chifre. Se o senhor pudesse ver o tamanho do seu”.

Quando o Aguiar voltou totalmente a si, encontrou um festival de socos e palavrões. “Eu, que não tinha nada a ver com aquilo, fui embora. Mas, enquanto a legislação não prevê exceção para as entidades, reproduzo a recomendação dos mentores espirituais: se incorporar e beber não dirija”.


***

Este texto foi encontrado no blog do Vinícius Cavalcante, candomblecista da nação Angola. O texto não é dele, como está creditado logo no início, mas foi um grande presente do seu blog para o Povo do Axé.

A mensagem divertida alerta para um problema sério que é a mistura de álcool e direção. Estamos sempre expostos, em qualquer lugar onde estivermos, a diversos fatores que podem ser prejudiciais à nossa saúde e à nossa integridade. No trabalho, em casa ou no templo, o cuidado com a saúde e a legislação é fundamental para que a religião desempenhe seu papel de proporcionar crescimento aos membros.

O fumo é liberado em recintos religiosos fechados, desde que faça parte da liturgia daquele culto. Corretíssimo. Da mesma forma, os malefícios da fumaça continuam agindo livremente. Isso também acontece com o álcool, droga lícita e tolerada socialmente dentro de parâmetros que garantam o bem-estar social.

Ao nos expormos a determinadas substâncias, devemos ter em mente que é uma opção nossa, que não fere à legislação dentro daquele contexto. No entanto, ao ser transposto para outro contexto (que pode o do trânsito, minutos depois) a presença daquele elemento não é mais tolerada. Não é mais um ambiente religioso umbandista ou juremeiro, apesar de que, na direção, fazendo um trocadilho bastante baixo astral, vida e morte também caminham lado a lado. E que dela, da Dona Morte, não nos façamos instrumento.

sexta-feira, 4 de junho de 2010